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O marxismo romântico de Erik Olin Wright

As utopias reais de Erik Olin Wright semeavam esperança – mas uma esperança alimentada por processos reais e não simplesmente especulativos. Ele dizia que não é possível prefigurar o futuro emancipado no vazio. Precisamos saber colher exemplos no presente. E imaginar futuros alternativos é uma questão central tanto para a crítica científica quanto para a política socialista. Nisso, Erik foi um mestre insuperável.
Do Blog da Boitempo, 04/02/2019

Por Ruy Braga.

O sociólogo estadunidense Erik Olin Wright nos deixou logo após a meia-noite do dia 22 de janeiro de 2019. Lutava há pouco mais de oito meses contra uma leucemia mielóide aguda que, finalmente, o levou. Erik tinha 71 anos, a maior parte dos quais vividos na cidade de Madison, em Wisconsin, para onde se mudou logo após terminar, em meados dos anos 1970, seu doutorado em sociologia na Universidade da Califórnia em Berkeley. Como o próprio Erik lembrou inúmeras vezes, ele foi um produto daqueles tempos tormentosos e fascinantes de ativismo social e radicalismo político que tomaram a sociedade estadunidense e suas universidades nos anos 1960 e início dos anos 1970.

Após iniciar seu programa de pós-graduação, Erik acabou escapando de ser recrutado pelo exército para a Guerra do Vietnã por ser seminarista e trabalhar como capelão estudantil na prisão de San Quentin. Dessa experiência, surgiu seu primeiro livro, em coautoria com alguns prisioneiros.1 Nessa época, Erik já havia acumulado certo traquejo acadêmico, ao estudar em Harvard e em Oxford, onde foi aluno do grande historiador marxista inglês, Christopher Hill. Em Berkeley, interessou-se pelo tema das classes sociais a partir de um diálogo crítico com as teorias de estratificação social que então vertebravam os debates sobre desigualdades nos estudos sociológicos.

Erik demoliu essas teorias e estudos baseados no status social dos indivíduos por meio de uma problematização bastante ortodoxa do conceito marxista de classe social. Para ele, as classes sociais deveriam ser definidas a partir do conceito de exploração econômica do trabalho. Ou seja, a clivagem básica das classes deveria ser estabelecida entre os exploradores, isto é, aqueles que dominam os meios de produção impondo às expensas de outros grupos a apropriação do excedente econômico, e os explorados, isto é, aqueles que produzem o excedente econômico, mas não se apropriam da totalidade daquilo que criam.

O grande problema para uma definição marxista das classes sociais baseada no conceito de exploração estava localizado não tanto na identificação dos polos da estrutura social, mas, no que existiria entre eles. Em suma, como devemos interpretar aqueles grupos que não são exploradores e explorados? Como explicar o papel desempenhado pelas camadas intermediárias no processo de reprodução da estrutura de classes? Muitos marxistas diziam que as “classes médias” seriam, na verdade, resíduos de modos de produção do passado e que cedo ou tarde, elas iriam se dissolver em uma das classes fundamentais da sociedade capitalista. Outros enfatizavam sua novidade, ancorando-as em uma ideologia que as afastariam da classe trabalhadora envolvida com a transformação material da natureza.

Por um lado, Erik desafiou a tese “passadista” simplesmente constatando que as camadas intermediárias não estavam desaparecendo do cenário das sociedades capitalistas maduras. Por outro, ele apontou de forma clara as insuficiências teóricas e empíricas de uma definição ideológica das “classes médias” que afastava setores cada vez maiores das classes trabalhadoras não manuais do polo explorado da sociedade capitalista. Criticando abertamente o trabalho de Poulantzas, Erik estimou que se aceitássemos a definição do marxista grego, concluiríamos que 70% da população vivendo nos Estados Unidos no final dos anos 1960 faria parte da “classe média”.2

Sinteticamente, Erik argumentou que Poulantzas definiu a classe trabalhadora em termos incorretamente restritivos. Como apenas os trabalhadores produtivos estariam qualificados para fazer parte da classe, os trabalhadores assalariados em áreas improdutivas, como bancos, por exemplo, seriam excluídos da classe trabalhadora e, apesar de compartilhar com esta as mesmas condições de vida e de trabalho, absorvidos na “nova pequena burguesia”. O mesmo ocorreria com os trabalhadores do setor público e os trabalhadores administrativos. Além disso, Erik questionou a coerência do conceito poulantziano de “nova pequena burguesia”. Existiriam dois grupos principais abrigados nessa categoria. Os primeiros são gerentes e supervisores, que Poulantzas supõe incorretamente serem improdutivos. Esses seriam marcados pelo “domínio das relações políticas que eles mantêm no local de trabalho”.

No entanto, de acordo com Erik, não estava claro o que seria especificamente “político”, e não econômico, na função de gerentes e supervisores. O segundo grupo, “engenheiros e técnicos”, seria considerado produtivo, mas estaria envolvido em uma forma de aplicação da ciência à produção que se entrelaçaria com práticas ideológicas correspondentes à ideologia dominante. Mais uma vez, não fica claro por que a suposta divisão mental/manual do trabalho deveria ser vista como “a” linha divisória entre as classes, em vez de simplesmente separar grupos diferentes de trabalhadores.3

A conhecida solução de Erik para o problema das “classes médias” combinou os polos antinômicos no conceito de “localizações contraditórias de classe”, isto é, posições de classe localizadas entre as classes fundamentais: pequenos empregadores entre a pequena burguesia e o capital em grande escala, supervisores e gerentes entre o capital e o trabalho assalariado, e empregados semiautônomos entre o trabalho assalariado e a pequena burguesia. A partir daí, Erik passou a testar empiricamente sua teoria analisando em primeiro lugar as mudanças na estrutura de classes nos Estados Unidos e, posteriormente, em colaboração com sociólogos de outros países, mapeando os efeitos de classe em questões como mobilidade social entre gerações, relações familiares, padrões de amizade, desigualdades de gênero e formas de consciência de classe em diferentes contextos nacionais.4

No início dos anos 1980, Erik juntou-se ao grupo de cientistas sociais, economistas e filósofos conhecidos como “marxistas analíticos”. Apesar do posterior abandono do marxismo como referência central do grupo, ele continuou participando de suas reuniões e seminários, pois isso o estimulava pessoal e intelectualmente. Erik destacou-se como um marxista analítico único, tanto em termos teórico-metodológicos quanto políticos. Metodologicamente, ele nunca cedeu ao individualismo, permanecendo um “coletivista” no tocante à análise das classes. Além disso, ele jamais demonstrou hostilidade à dialética marxista, optando por circunscrevê-la ao entendimento segundo o qual as sociedades capitalistas seriam “estruturalmente instáveis”, isto é, incapazes de solucionar as contradições que elas geram.

Politicamente, Erik foi um radical comprometido até o último fio de sua vasta cabeleira com a superação do capitalismo. Como lembrou seu ex-orientando, Vivek Chibber, antes de tudo, o socialismo era a bússola moral de Erik. Essa dimensão de sua vida transbordou em sua obra e, no início dos anos 1990, quando o socialismo burocrático colapsava e muitos intelectuais marxistas pulavam de seu barco, tentando salvar-se do iminente naufrágio, Erik iniciou no recém-criado Havens Centre da Universidade de Wisconsin em Madison, um ciclo de conferências dedicado às “utopias reais”, isto é, não um conjunto de sonhos especulativos, mas alternativas realistas ao capitalismo condensadas em movimentos, organizações, instituições e projetos realmente existentes.

Sua obra prima, Envisioning Real Utopias (2009), condensou todo o acúmulo daquela década e meia de debates e engajamentos práticos com ativistas do mundo todo em torno das utopias reais. Por meio de exemplos criteriosamente garimpados e estudados, Erik buscou revelar a natureza anticapitalista de certas instituições, teorizando sobre aquilo que haveria em comum entre organizações e movimentos espalhados pelos quatro cantos do globo capazes de impulsionar o socialismo. Ao mesmo tempo, procurou conectar ativistas, aproximando suas experiências, num autêntico espírito internacionalista. Seu otimismo era contagiante, mesmo pra alguém como eu cuja sensibilidade política sempre esteve mais alinhada àquilo que Erik recusava: a estratégia de transição ao socialismo via “esmagamento” do capitalismo.

Ele próprio advogava a combinação de dois tipos diferentes de estratégias emancipatórias, isto é, “intersticiais” capazes de criar alternativas fora do Estado e “simbióticas” que envolveriam o Estado através de lutas em seu interior.5 Regular e erodir o capitalismo: por meio da mobilização social seria possível criar espaços contrários ao Estado capitalista para, então, transformar esses espaços em colaboração com um Estado reformado.

Erik costumava dizer que ser pessimista é fácil. Difícil é ser otimista quando o neoliberalismo triunfou no mundo todo. Manter acesa a chama do socialismo quando, para lembrar Žižek, parece ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo é que é o grande desafio. As utopias reais de Erik semeavam esperança – mas uma esperança alimentada por processos reais e não simplesmente especulativos. Ele dizia que não é possível prefigurar o futuro emancipado no vazio. Precisamos saber colher exemplos no presente. E imaginar futuros alternativos é uma questão central tanto para a crítica científica quanto para a política socialista.

Nisso, Erik foi um mestre insuperável. Concordando ou discordando de sua teoria da transição ao socialismo, a arquitetura do edifício criado por ele é de uma beleza notável. A radicalidade existencial de seu compromisso com um mundo emancipado também. Alicerçado em três valores inegociáveis para ele, igualdade, liberdade e comunidade, sua obra foi criteriosamente construída como a mais importante contribuição do marxismo para o pensamento sociológico em todos os tempos.

E apesar de sua consagração internacional, ele próprio exalava modéstia por todos os poros. E não era uma forma disfarçada de vaidade, mas, algo sincero e existencial. Ele nunca deixava de responder a uma mensagem. Lembro-me de pedir a ele instruções a respeito de como fazer para enviar um estudante de graduação da USP para Madison e ele responder detalhando os passos e ainda colocando outros colegas de seu departamento pra ajudar. Em 2014, em Yokohama, ele assistiu a um debate que participei com Guy Standing, Jennifer Chun e Marcel Paret. Logo após o fim da sessão, Erik veio conversar comigo pedindo meu paper. Enviei-lhe por e-mail e, no dia seguinte, lá estava ele, apontando isso e perguntando sobre aquilo… Confesso que a gente fica meio intimidado nessas horas, mas, Erik sabia como poucos ser respeitoso e nos deixar à vontade, contribuindo para que nossas ideias se tornassem mais claras e precisas.

Provavelmente, Erik não gostaria do título que escolhi para essa pequena homenagem. Penso que aos seus ouvidos o adjetivo “romântico” soaria desarmônico, em desalinho de seu pragmatismo teórico. No entanto, uso o conceito de “romantismo” no sentido a ele atribuído por Michael Löwy e Robert Sayre, isto é, como uma “estrutura mental coletiva”, uma “sensibilidade anticapitalista” cujo elemento unificador é a oposição ao mundo burguês.6

Em outras palavras, as variantes dessa sensibilidade são partes fragmentadas de uma crítica da civilização capitalista empreendida em nome de valores de um passado pré-moderno, em especial, aqueles ligados aos sentimentos comuns que garantem a reprodução de nossa existência social. Assim, o romantismo nutre-se de uma espécie de revolta dos valores humanos contra a autocracia do valor abstrato, criando um paradoxo: como, em meio à reificação do presente, a busca nostálgica por uma comunidade verdadeiramente humana pode nos ajudar a antever o futuro desejado?

Aqui, é necessário lembrar que o romantismo é herdeiro da tradição da crítica social iluminista e que, portanto, ele também revela-se na necessidade de uma utopia. Nesse sentido, a nostalgia de um passado mais ou menos imaginário conecta-se à crítica do capitalismo por meio da revolta romântica contra a naturalização do presente. Daí a importância em escavar experiências sociais contemporâneas capazes de incorporar as qualidades sociais perdidas para o capitalismo, prefigurando certas dimensões da sociedade futura na qual desejamos viver.

Erik soube revolver como ninguém esse campo de experiências sociais a fim de extrair inspiração para a emancipação vindoura. Ao antever suas utopias reais, ele conseguiu atualizar a expectativa de uma sociedade alternativa na forma de uma promessa ainda não de todo cumprida, mas, rica em aspirações emancipatórias.

De certa maneira, o socialismo de Erik dialogava com uma tradição política radical fortemente enraizada, até pelos menos o início dos anos 1930, em comunidades espalhadas pelos Estados Unidos e cuja maior expressão eleitoral foram as candidaturas do líder sindical socialista Eugene Debs (1904, 1908, 1912 e 1920).7 Quando Erik insistia em resgatar o “social” do socialismo, parece-me que é essa tradição comunitária que o inspirava. Mas, talvez, a forma mais simples de ilustrar o marxismo romântico de Erik seja recorrendo a sua parábola favorita: o Shmoo.

Essa criatura fantástica surgiu nos anos 1940 nas tirinhas desenhadas por Al Capp: em Dogpatch, uma comunidade semi-rural, apareceu um Shmoo, animal cuja principal característica consistia em satisfazer as necessidades materiais básicas dos seres humanos. Nada de luxo, mas, apenas o necessário para a sobrevivência. No início da história, os capitalistas competiam a fim de aumentar a jornada de trabalho e diminuir os salários. Mas, após a chegada do Shmoo, os trabalhadores decidiram abandonar seus antigos empregadores, vivendo por conta própria. Evidentemente, trata-se de uma metáfora usada por Erik para explicar a renda básica universal, uma de suas utopias reais.8

Recuar a uma história em quadrinhos dos anos 1940 retratando uma comunidade semi-rural ameaçada pela exploração capitalista para explicar uma solução política contemporânea capaz de prefigurar um futuro emancipado ilustra à perfeição a “sensibilidade anticapitalista” romântica de Erik. Diante dos avanços da mercantilização, a comunidade reage, prevalecendo por contar com recursos que os capitalistas nem mesmo podiam imaginar: um Shmoo! Nascido na vibrante Berkeley, mas criado no interior do pacato e agrícola Estado do Kansas, Erik estava sempre com aquele sorriso ingênuo e enigmático estampado nos lábios. Na minha cabeça, esse sorriso doce dissimulava algo que os capitalistas não podiam antecipar.

O último post do blog que ele criou a fim de narrar sua luta contra a leucemia foi uma carta para seus netos propagandeando a arte de fazer patetices. É um texto ao mesmo tempo divertido, terno, forte e comovente. De fato, havia algo de lindamente ingênuo em Erik. No entanto, tratava-se de uma ingenuidade assentada em um intelecto poderosíssimo. Um verdadeiro laboratório de utopias reais. Num futuro emancipado, Erik será lembrado como um herói do conhecimento, um gigante das ciências sociais. Para todos que o conheceram, no entanto, ele era isso tudo. E muito, muito mais…
Olin Wright na Boitempo | Já estamos preparando a tradução para o português do último livro de Erik Olin Wright, Como ser anticapitalista no século XXI. A obra, escrita pouco antes de sua morte, condensa décadas de trabalho em um manifesto consiso, afiado e de uma didaticidade revolucionária.

NOTAS

1 Ver Erik Olin Wright, The Politics of Punishment: A Critical Analysis of Prisons in America, Nova Iorque, HarperCollins, 1973.
2 Dispensável dizer que, com bem lembrou Erik, uma sociedade capitalista capaz de multiplicar incessantemente as “classes médias” não necessita de uma revolução socialista.
3 Ver Erik Olin Wright, Class, Crisis and the State, Nova Iorque/Londres, Verso, 1978.
4 Ver Erik Olin Wright, Class Counts: Comparative Studies in Class Analysis, Cambridge, Cambridge University Press, 1997.
5 Ver Erik Olin Wright, Envisioning Real Utopias, Nova Iorque, Verso, 2009.
6 Para mais detalhes, ver Michal Löwy e Robert Sayre, Revolta e melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade, São Paulo, Boitempo, 2015.
7 Evidentemente, não é acidental que Eugene Debs seja igualmente a principal referência política do senador Bernie Sanders.
8 Alguns alunos de Erik criaram um vídeo narrando as tirinhas de Li’l Abner sobre o Shmoo intitulado: “Erik Olin Wright e o Shmoo: a luta continua”. O vídeo está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Fc8n_QuqTig.

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Para aprofundar a reflexão sobre as novas configurações das revoltas subalternas no mundo, recomendamos acompanhar o WebCurso de Ruy Braga na TV Boitempo. Intitulado “Entendendo o precariado”, trata-se de uma leitura comentada de seu mais recente livro pela Boitempo, A rebeldia do precariado: trabalho e neoliberalismo no Sul global. Ao todo são quatro aulas dedicadas a destrinchar essa densa e explosiva obra. Cada dia fica mais claro o poder de revelação do conceito de “precariado” na nossa conturbada conjuntura política, econômica e social. No Brasil, nenhum intelectual tem se dedicado com tanta maestria a explorar as perspectivas políticas e analíticas abertas por esse conceito no interior do arcabouço teórico marxista quanto Ruy Braga.

youtube https://www.youtube.com/watch?v=MRVkV2b8No8?list=PLHiE8QPap5vTIFZUszEw8kwu4UIMs3ugL

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Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (Xama, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista, tema abordado em seu mais novo livro, A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. É também um dos autores dos livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, Carta Maior, 2013) e Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil (Boitempo, 2016). A Boitempo prepara para 2017 o lançamento de mais novo livro A rebeldia do precariado. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

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