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O fim do Mais Médicos

No lugar do programa, governo fala em carreira federal voltada para o “Brasil profundo” – mas periferias serão afetadas. 


Karina Azambra Ascom/Ministério da Saúde





















Da página Outras Palavras, 07 de fevereiro, 2019


O FIM DO MAIS MÉDICOS

A pedra já estava cantada, mas agora é oficial: o governo Bolsonaro decidiu encerrar o programa Mais Médicos. A informação foi confirmada primeiro ao El País por Mayra Pinheiro, secretária de gestão do trabalho e educação do Ministério da Saúde, e depois à Folha pelo ministro Luiz Henrique Mandetta (ainda que com ares mais amenos). A ideia é criar um novo programa “de provimento para a atenção primária e carreira federal para áreas de difícil provimento”, disse Pinheiro, sem detalhar a proposta. O edital do Mais Médicos em curso será mantido, e o prazo de três anos dos contratos respeitado, acrescentou ela. Já Mandetta – que preferiu não se comprometer e respondeu a reportagem com perguntas (“Será que vai continuar com esse formato? Ou vamos partir em algumas localidades para ser por concurso?) – morde e assopra. Ao mesmo tempo que acusa algumas prefeituras de despedirem médicos contratados com recursos próprios para entrar no programa e diz que Brasília é um exemplo de cidade que não precisaria do Mais Médicos, afirma que tudo será discutido com as secretarias municipais de saúde. Ao que parece, o governo federal vai arcar com o provimento de médicos para o “Brasil profundo”, nas palavras de Mandetta, e deixar os outros municípios à própria sorte. Até então, um dos pontos que balizavam a discussão sobre o provimento de médicos era o reconhecimento de que prefeituras encontram dificuldade de fixar profissionais em periferias de grandes e médias cidades.


O anúncio vai ao encontro do pleito de entidades médicas que têm um canal de comunicação direto com o governo desde a transição. “Há muito tempo o Conselho Federal de Medicina não tem uma relação de proximidade com o governo federal. A nova gestão abriu essa oportunidade para as entidades médicas”, comemora o primeiro secretário do Conselho Federal de Medicina, Hermann Von Tniesehause. O CFM propõe um plano de carreira que inclua apenas médicos formados no país ou com diplomas revalidados. Esses profissionais começariam a trabalhar em locais ‘vulneráveis’ (leia-se, onde a maioria dos médicos brasileiros nunca gostou de atuar) e depois ‘progrediriam’, migrando para municípios maiores, explicou Von Tniesehause.

E os cerca de dois mil médicos cubanos que permaneceram no Brasil foram deixados no meio do caminho. Pinheiro espera que as vagas do último edital do programa (1.462; ou 17% do total oferecido) sejam preenchidas ainda esta semana. Cerca de 3,7 mil médicos brasileiros formados no exterior se candidataram. Apesar de o governo Bolsonaro ter acenado para os cubanos que decidiram ficar no país com uma proposta especial de revalidação do diploma, e a própria Mayra Pinheiro ter prometido reincorporá-los ao programa, agora o que está na mesa é uma duvidosa ajuda humanitária para os profissionais que solicitaram asilo, que seria concedida pelo Ministério da Justiça.

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