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Mandetta ataca hospitais públicos

Ministro quer privilegiar os “filantrópicos” — que financiaram sua carreira e atendem a elite. 

Da página Outras Palavras, 02 de fevereiro, 2019
por Raquel Torres




MANDETTA INCLINADO PARA FILANTRÓPICOS

Mandetta afinal foi mesmo à primeira reunião do Conselho Nacional de Saúde deste ano, ontem. O site do Ministério da Saúde noticiou o encontro com ênfase na promessa dele de fazer uma gestão democrática. “Aquilo que for para ser alterado vai ser proposto na mesa do espaço público, em debate conjunto”, disse. No SUSConecta, foco na garantia de que haverá a 16ª Conferência Nacional de Saúde em agosto. “É o início de um diálogo produtivo e de uma caminhada de luta junto à nova composição do CNS”, disse o atual presidente do Conselho, Fernando Pigatto.

Coube à jornalista Natália Cancian, na Folha, apontar declarações importantes e mais polêmicas. Mandetta afirmou que o governo vai rever os modelos de contratos para repasse de recursos a hospitais públicos. Hoje, parte deles recebe valores fixos para custeio de serviços de média complexidade, mas o ministro acredita que isso os leva a fazerem menos do que o esperado. Ela conta que alguém perguntou se isso significaria ter o modelo de pagamento por serviços – criticado por muitas vezes gerar procedimentos desnecessários –, mas ele não respondeu.

E o ministro ainda sinalizou que vai rever a distribuição de recursos entre hospitais públicos e filantrópicos, com clara inclinação para privilegiar estes últimos: “Os hospitais públicos estão tendo gasto muito maior que os filantrópicos, e estão entregando muito menos. Nosso critério sempre foi primeiro o público, depois filantrópico e por último o privado. Mas quanto tempo vamos pagar a falta de eficiência do hospital público?”

Vale lembrar: os filantrópicos ajudaram a colocar Mandetta no Ministério. Em novembro, Bolsonaro disse que acolheu a indicação “da bancada da saúde da Câmara, das Santas Casas do Brasil, das mais variadas entidades médicas de todo o Brasil”.

De filantrópicos, eles não têm muita coisa, como lembrou a sanitarista Ligia Bahia em sua última coluna no Globo: “O SUS precário contrasta com poucos hospitais filantrópico-privados, cujos preços são muito superiores aos privados, direcionados quase que exclusivamente aos ricos, funcionários qualificados do Legislativo e Judiciário, famosos e até alguns mal afamados. São estabelecimentos movidos por renúncia fiscal e acelerada incorporação tecnológica que jogam as despesas assistenciais para cima. Esse excêntrico arranjo filantrópico superavitário recebe relativamente poucas doações, mas faz caridade com dinheiro público: ensina gestão para o SUS dos pobres”.

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