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Em busca de um cinema de militância: alguns pontos sobre La Noche de 12 años

Em uma tarde quentíssima de janeiro, recebi em um grupo de whatsapp, uma lista de recomendações dos mais recentes filmes de formação de militância política. Dentre os títulos, destacava-se o novíssimo La Noche de 12 años, de co-produção uruguaia, argentina, espanhola e francesa, realizado por Álvaro Brechner, a partir do livro Memorias del calabozo, de Maurício Rosencof e Eleutério Fernández Huidobro, antigos dirigentes do MLN-Tupamaros, organização político-militar de combate ao capitalismo burocrático periférico, dependente e subordinado que, desde o período dos governos de turno dos presidentes Jorge Pacheco e Juan Maria Bordaberry, faziam cumprir as pautas de assalto e vilipêndio popular com medidas tão estranhamente próximas às que se experimenta, agora mesmo, por estas plagas: a hipertrofia do poder judiciário a partir de uma legislação seletiva e de exceção; ataque às liberdades públicas; censura à imprensa combativa, criminalização das lideranças sindicais e estudantis com encarceramentos sem processo e violação dos direitos humanos. 

Do IELA, 05 de Fevereiro de 2019

 por André Queiroz

Como furtar-me à tarefa de assisti-lo prontamente – afinal não seria do conhecimento do processo histórico em que se forjou o arbítrio do terror de Estado a tão propalada condição a que nunca se repitam os desmandos, as opressões?! De posse do link de acesso, arregalei os olhos, saquei o tufo de cera do ouvido (imenso providencial às misérias do agora), preparei o providencial café, separei um maço de folhas em branco para as anotações, e lancei-me à empreitada. 123 minutos de travessia – de um porão a outro, aos sacolejos, pontapés, enxame de ratos, vertigem de princípios, clausura diversificada em formato e tamanho. 123 minutos no que se ia plasmando os modos da sordidez planificada pelo terrorismo de Estado através da qual se ia quebrando a integridade psíquica do detento, rompendo-lhe a reserva dos cálculos em autodefesa; arrancando de golpe o esteio da lógica no exame da situação concreta e objetiva; vergando o ‘refém’ ao isolamento íntimo e devassado apenas pelas constantes alterações de rotina – seja sob a forma de troca-troca de confinamento, capuz à cabeça para que os olhos nada possam escrutinar, sempre e sempre na direção da masmorra a mais impenetrável onde sequer um halo de luz pudesse penetrar, ou na que o frio gelado do inverno paralisasse as dobraduras e articulações, ou quando fosse o tórrido calor o bafo das ventas entorpecesse e o odor das fezes magras inebriasse; seja para romper a mínima resistência devotada às mais básicas e fundamentais das tarefas, a da sobrevivência.

Entretanto, algo parece faltar ao filme de Álvaro Brechner. Por eliminação, comecemos pelo que não lhe falta. Por exemplo, não lhe falta à indicação ao grande prêmio da Academia hollywoodiana - sua condição de sério concorrente à estatueta de melhor produção estrangeira (de língua não inglesa) está assegurada. Tampouco lhe faltam os distintivos de avaliação nos principais órgãos de propaganda da burguesia em terras brasilis e vizinhança: seus antenados críticos lhe plantaram ao ombro da reputação cinco brilhosas estrelas que lhe garantirá, por destinação manietada, uma insólita acorrida de público. Não lhe faltará uma profusão de salas de exibição em confortáveis horários regadas por combos de pipocas e xarope de Coca-Cola em jarras (e jorros expelidos) descartáveis de fazer inveja aos que padecem de sede e fome. Não parece faltar a La Noche de 12 años minuciosa estratégia de produção mercadológica que se destila pela inextrincável trama que enreda a cartelizada cadeia de produtores, distribuidores e exibidores – sempre de posse do eufemismo livrecambista do ver quem quer, paga quem pode.

Mas voltemos ao filme. Lembro aos leitores que comecei este rascunho acerca de La Noche de 12 años, de Álvaro Brechner, evocando o fato de sua indicação me ter chegado por uma lista de Whatsapp, sob o insuspeito indicativo de que se tratava de uma peça fundamental à formação de militância política. Talvez seja por aí que se esclareça o que digo faltar ao filme. Adianto que não me foi custoso encontrar uma penca de gentes que teve acesso ao filme sob diversas plataformas. Muitos que, comovidos, teciam loas ao verdadeiro trabalho de Jó, espécie de escravo-padrão de matriz sacrificial da lógica judaico-cristã, que eles viram claramente destiladas no fôlego abnegado de Pepe Mugica: seu ar de bonachão, sua sensata ponderação. Alguém se lembrou de destacar que fora atravessando as agruras daquele deserto que José Mugica havia aprendido a desprezar os luxos dos Palácios de Cristais e a contentar-se com o modelo mais chinfrim de um fusca anti-presidencial. Outro ‘espectador’ fora quem, de forma resoluta, bateu com o punho na mesa e decidiu que o melhor que lhe poderia caber (a Mugica) era o reconhecimento da Academia Sueca com o Nobel da Paz. Escolhido ao acaso o que comumente é chamado de público-alvo (aquele a que se acerta com o lança-chamas ideológico da indústria cultural alienante e massificadora), não haveria de avançar na direção de um pretensioso referendum acerca dos rebatimentos subjetivos de La Noche de 12 años, de Álvaro Brechner.

Entretanto, algo parecia não corresponder ao alinhavo de peças – digamos que a equação o filme de Brechner e sua (suposta) condição político-pedagógica. Nada que, a princípio, atestasse contra a quase-laureada produção. Alguém dirá que o erro foi de quem teceu este juízo equivocado. Um afamado crítico de corte pós-moderno poderia, eivado de razões, dizer simplesmente que Brechner não tinha quaisquer obrigações no que tange a estes esquerdismos mofados. E concluir ainda pela competência técnica, pela harmonia híbrida entre leveza e suavidade na estrutura narrativa de La Noche de 12 años. Na certa que não faltariam os Cadernos Bês (e outras plataformas) a estas narrativas em disputa.

Todavia, gostaria de insistir: falta algo em La Noche de 12 años. Algo que o filme não faz questão de esclarecer. Por exemplo: que não se tratava de um romance de capa e espada, de um duelo de Sansão e Golias, de uma batalha de psicopatas meléficos e uniformizados contra jovens imberbes arrependidos. Que não se tratava de atravessar desertos em busca de uma luz, a princípio apagada, e que vai ganhando discretíssimo fiapo de esperança acendendo-se às pregas virgens de um diafragma. Algo que o filme não faz questão de denegar. Que de um pequenino gesto deva-se arrancar a boa consciência agradecida do sargento-carcereiro-apaixonado. Que mesmo de um opressor há de se colher um botão de flor, um olhar comedido, um carinho suspenso. Isto o filme de Brechner quase sugere. Ou me equivoco?

Em síntese, gostaria de concluir que, entre o tanto que falta ao filme de Álvaro Brechner, algo que é absolutamente imprescindível é o punhado de história viva. Concreta, material, suja, aberrante, aterradora, mas real. Ao filme parecem faltar os silogismos variados e incontornáveis da luta de classes, condição motora desta história que ele escamoteia. Porque se houve o que ele descreve, o cárcere, o deserto, o matadouro, o arbítrio, a questão que permanece em aberto é: por que houve o que se deu? Qual o porquê da violência que parece gratuita e desmedida (no filme), mas que, em definitivo, é eivada de razões. Violência que é resultado de cálculos, de planificações, de estratagemas, de jogos institucionais, de atores impregnados de interesses e intenções.

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