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Manter isso aí, mudar isso aí. A leitura das palavras e as 'coisas' em jogo

"Coisas” vagas ditas no parlatório, como socialismo, politicamente correto, ideologia, corrupção, PT, comunismo, terras indígenas, quilombolas fazem a massa urrar, porque elas traduzem “isso daí”

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Da RBA,13/01/2019

por Sirio Possenti

Diversas vezes comecei um curso sobre texto analisando o primeiro parágrafo de Halliday e Hasan em seu livro Cohesion in English (traduzido para a ocasião): “Se uma pessoa que fala inglês, ouve ou lê um trecho nesse idioma, com mais de uma sentença, pode normalmente decidir sem dificuldade se ele forma um todo unificado ou se é apenas um conjunto de sentenças não relacionadas. Este livro nos mostra a diferença entre os dois”.

A primeira coisa para a qual chamava atenção na aula era a interpretação de “nesse idioma” (todos se dão conta que é outra maneira de dizer “em inglês”; repetir ou não é uma questão de estilo; outra alternativa seria dizer “nessa língua”).

O teste, a demonstração de que é assim que o texto funciona, consiste em substituir “inglês” por “português” e verificar que, então, “nesse idioma” deve ser interpretado como “em português”. Na aula, aproveitava o dado para dar algumas informações teóricas e multiplicar os exemplos, incluindo a interpretação de “se ele forma”, em que “ele” retoma “trecho com mais de uma sentença” e de “ou se é”, que inclui uma elipse, já que a expressão deve ser lida como “ou se ele é”, em que “ele” retoma a mesma sequência anteriormente mencionada – “trecho com mais de uma sentença”.

Depois, lia o resto do parágrafo e pedia que os alunos interpretassem “este livro”. Em geral, silêncio. É que todos os casos anteriores dependem de uma volta sobre o texto para encontrar o elemento retomado (idioma = inglês etc.). Mas “este livro” não encontra nenhuma referência anterior. Como ler “este livro”? Em especial, o que significa “este”?

Os alunos só viam este parágrafo, eventualmente projetado, mas se davam conta de que o caso era de outra natureza. Eu lhes dizia, para facilitar, quando necessário: “Suponham que estão lendo isso no livro deles” (“eles” = Halliday e Hasan; “isso” = “este livro”). A questão ia ficando clara: “este livro” é o livro que você está lendo, que você tem em mãos, o livro do qual este texto é o prefácio.

Logo podia fazer uma distinção entre dois funcionamentos de certos pronomes, como “ele”, “este”, “isso”: podem retomar algo dito antes no texto ou podem remeter a algo que está fora do texto, no mundo, eventualmente sendo apontado com o dedo.

Em “Era uma vez um rei. Ele tinha uma filha”, “ele” é o rei introduzido na história. Mas se alguém está passando na rua e eu, da janela, digo a outra pessoa que também vê a rua “Ele é o prefeito”, “ele” designa a pessoa que está passando na rua (deve ser um homem etc. porque “ele” é masculino) e pode não ter sido mencionado antes na conversa, embora a expressão “o prefeito”, por causa do definido “o”, obrigue a dar como certo que há um prefeito.

Num caso, dizia aos alunos, trata-se de uma “anáfora”; mais precisamente, de uma endófora”. Isto é, a palavra remete a algo ou a alguém mencionado dentro do texto; no outro, de uma exófora, isto é, que remete a algo ou a alguém fora do texto (esse sentido tem a ver com “endo” e “exo”). À exófora também se chama dêitico: a dêixis é uma das características universais das línguas naturais: os melhores exemplos são “eu/tu”, “aqui” e “agora”, palavras que designam as pessoas que estão “conversando” e o lugar e o tempo em que o fazem.

Tudo isso ajuda a entender duas expressões: uma já foi quase esquecida; a outra anda vivíssima e ainda está sendo repetida. Michel Temer disse numa certa noite, no Jaburu, a um interlocutor, “tem que manter isso aí, viu?”. É um caso de endófora e, como tal, se interpreta considerando o que foi dito antes (parece que tinha havido menção a uma mesada para o ex-deputado Eduardo Cunha). “Isso” significaria “tem que manter (continuar fazendo) o pagamento desse valor mensal, viu”?).

A outra expressão é “... mudar isso daí” (ou “tudo isso daí”). Em geral, nada a que “isso (daí)” remete é mencionado antes na fala de Bolsonaro. Assim, a interpretação deve ser buscada na memória (na mídia, nas redes). Remete a uma série de “coisas” das quais ele de vez em quando fala.

Uma pequena lista de “coisas” foi explicitada no parlatório, no dia da posse: o socialismo e o politicamente correto, por exemplo. Mas se pode acrescentar a ideologia, a corrupção, o PT, o comunismo, a demarcação das terras indígenas e dos quilombolas etc.

Trata-se de referências meio vagas (sem contar a imprecisão do que é nomeado em cada palavra ou expressão, tal como ocorre com “socialismo”). E é exatamente isso (= a imprecisão) que faz a massa urrar, porque ela entende tudo – isto é, traduz “isso daí” como o conjunto das coisas que passou a abominar ou que lhe disseram que deve repudiar.

Os exemplos obrigam a pensar em como se interpreta. Há outras coisas em jogo, claro, mas uma questão é relacionar partes do texto a outras partes do mesmo texto (de “suas” partes) e outra questão é relacionar partes do texto a outros textos, eventualmente muito repetidos, a ponto de dispensarem sua rememoração no contexto. É um caso claro de apelo a uma memória.

Muitos outros textos, inclusive pequenos textos, ou frases destacadas, são lidos assim. Por exemplo, se se diz que agora são novos tempos e que menino veste azul e menina veste rosa, o sentido desta afirmação ou projeção decorre de uma ampla circulação da fala em um contexto histórico em que se discute se o gênero decorre da biologia ou de outros fatores. Ou seja, não é sobre cor de roupa, é sobre o que ela significa, e o que ela significa depende de tudo o que se tem dito sobre a questão. E, claro, da posição – ideológica e institucional – da pessoa que emite tal declaração.

* Sírio Possenti é professor no Departamento de Linguística da Unicamp

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