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Transgredindo as fronteiras, por Alan Sokal

Do GGN, 29 de Dezembro, 2018
Por Alan Sokal [1], Enviado por Felipe A. P. L. Costa



Até que enfim a verdade vem à tona: meu artigo ‘Transgredindo as fronteiras: em direção a uma hermeneutica transformativa da gravitação quântica’, publicado na edição primavera/verão de 1996 da revista de estudos culturais Social Text, é uma paródia. É óbvio que tenho obrigação de apresentar aos editores e aos leitores da Social Text, assim como à comunidade intelectual em geral, uma explicação correta dos meus motivos e dos meus verdadeiros pontos de vista. Um dos meus objetivos aqui é dar uma pequena contribuição ao diálogo, na esquerda, entre humanistas e cientistas naturais – ‘duas culturas’ que, ao contrário do que querem fazer crer alguns pronunciamentos otimistas (principalmente da parte dos humanistas), nos últimos cinquenta anos estão provavelmente muito mais afastados mentalmente do que nunca.

Como o gênero que pretendia satirizar – uma miríade de exemplos podem ser encontrados na minha bibliografia –, meu artigo é uma mistura de verdades, meias verdades, um quarto de verdades, falsidades, falácias, e sentenças que, embora sintaticamente corretas, não têm, em absoluto, nenhum sentido. (Lamentavelmente, existe apenas um punhado destas últimas: tentei incansavelmente criá-las, porém acho que, salvo raros lampejos de inspiração, simplesmente não tive capacidade para tal.)

Empreguei também algumas estratégias que são consagradas (embora por vezes inadvertidamente) no gênero: apelo à autoridade em lugar da lógica; teorias especulativas que passam por ciência estabelecida; analogias forçadas e até absurdas; retórica que soa bem mas cujo sentido é ambíguo; e confusão entre o sentido técnico e o corriqueiro das palavras. (Mas todos os trabalhos mencionados em meu artigo são reais, e todas as citações são rigorosamente exatas; nenhuma foi inventada.)

Mas por que agi assim? Confesso que sou um antigo homem de esquerda, sem vergonha de sê-lo, que nunca entendeu verdadeiramente como se poderia supor que a desconstrução pudesse ajudar a classe operária. E sou um velho cientista chato que acredita, ingenuamente, que existe um mundo exterior, que existem verdades objetivas a respeito desse mundo, e que meu trabalho é descobrir algumas delas. (Se a ciência constituísse simplesmente uma negociação de convenções sociais sobre o que se convenciona chamar ‘verdadeiro’, por que haveria eu de me chatear dedicando boa parte de minha vida, de resto bastante curta, a ela? Não pretendo ser a Emily Post da teoria quântica de campos.)

Todavia, meu principal interesse não é defender a ciência das hordas bárbaras da crítica literária (nós iremos sobreviver muito bem, obrigado). Antes, meu interesse é explicitamente político: combater o discurso pós-modernista/pós-estruturalista/social-construtivista atualmente em moda – e mais genericamente a tendência para o subjetivismo –, que é, acredito, prejudicial para os valores e o futuro da esquerda.

*

Nota

[1] Alan Sokal (nascido em 1955). Extraído do blogue Poesia contra a guerra, o excerto acima integra o livro Imposturas intelectuais (Record, 1999 [1997]). A tradução é de Max Altman.

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