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Retrospectiva literária: os melhores livros de 2018

Da Carta Capital, 30 de Dezembro, 2018
Por CLARISSA WOLFF 



Eu amo listas de melhores do ano. Principalmente pela subjetividade das escolhas, pelo que elas implicam sobre a pessoa que as escolheu. Dispenso o elitismo literário ou a validação da crítica: o que essas listas me trazem, mais que tudo, é a vontade de compartilhar sensações maravilhosas que só são possíveis através da arte. Trago aqui, então, grandes leituras que eu gostaria de compartilhar.

Mas antes disso, menções honrosas: cinco leituras de outros anos marcaram meu 2018. A Ordem Vermelha, fantasia incrível de Felipe Castilho, se torna ainda mais importante no cenário sociopolítico atual. O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer, que me levou a uma sensibilidade literária maravilhosa. F, de Antônio Xerxenesky, que sempre surpreende com texto e tema que colocam a tal literatura brasileira de ponta cabeça. O pintassilgo, de Donna Tartt, que deixa qualquer prosador morrendo de inveja. E O dono do morro, de Misha Glenny, um exercício de empatia e um soco no estômago ao mesmo tempo, mergulhando em lógicas humanas muito além do que eu poderia experimentar na vida.
É preciso também falar sobre Sylvia Plath: Ariel, seu melhor livro de poemas, foi publicado pelo selo Verus do Grupo Editorial Record. Por se tratar de minha escritora favorita, seria injusto colocá-la em qualquer lista. Deixo aqui registrado que essa publicação não passou despercebida – pelo contrário, sua chegada ao Brasil foi muito comemorada.

Finalmente, sem mais delongas, minhas melhores leituras de 2018:

#13 Afiadas, Michelle Dean (Todavia Livros, 416 páginas, tradução de Bernardo Ajzenberg): mais que uma leitura agradável ou que um mergulho na história e da mente de mulheres que mudaram a crítica (e o mundo), Afiadas é uma contribuição histórica. De autoras que já amo e admiro – Joan Didion, Janet Malcolm e Dorothy Parker – a outras em que ainda não tinha mergulhado com a profundidade merecida – Renata Adler, Rebecca West, Pauline Kael – o livro mapeia grandes vozes ensaístas dos Estados Unidos fazendo um retrato rápido e completo na mesma tacada.

#12 Infiltrado na Klan, Ron Stallworth (Seoman, 216 páginas, tradução de Jacqueline Damásio Valpassos): perturbadamente baseado em fatos reais, o livro traz na capa a chamada “desmascarando o ódio”. Contando a história de um detetive negro que se passa por supremacista branco para, como o título indica, infiltrar a Ku Klux Klan, ele nos coloca frente a frente com o pior do ser humano. De sentir raiva, tristeza e desesperança, é uma história que merece ser contada, lida e comentada.

#11 O corpo dela e outras farras, Carmen Maria Machado (Planeta de Livros, 240 páginas, tradução de Gabriel Oliva Brum): roubando técnicas narrativas e temas das séries de TV, o livro mistura fantasia e ficção científica para discutir feminismo, socialização e tudo o que representa ser mulher no mundo hoje. Destaque para o conto que abre o livro, O ponto do marido.

#10 A morte da verdade, Michiko Kakutani (Intrínseca, 272 páginas, tradução de André Czarnobai e Marcela Duarte): há anos se fala do fenômeno da eleição de Trump, das técnicas de manipulação da verdade emprestadas de Putin que permearam sua candidatura e invadiram terras tupiniquins com a campanha de Bolsonaro. Nesse livro, a fantástica Michiko Kakutani, crítica literária do The New York Times por quase quatro décadas e vencedora do Prêmio Pulitzer, investiga como o cenário mundial propiciou a multiplicação das fake news e a inauguração da pós-verdade.

#9 Flores para Algernon, Daniel Keyes (Aleph, 288 páginas, tradução de Luisa Geisler): um marco da ficção científica que resgata questões inauguradas em O mito da caverna, de Platão. Keyes conta a história sob a ótica humana carregada de sentimentos, que envelopam as questões filosóficas de formas capazes de partir o coração do leitor. Até Chandler, de Friends, ama.

#8 De espaços abandonados, Luisa Geisler (Companhia das Letras, 416 páginas): um experimento ousado, angustiante e bem humorado ao mesmo tempo, sobre imigração, Dublin, família, escrita, relacionamentos, solidão. Sem nenhuma dúvida uma das vozes mais fortes da literatura brasileira atualmente.

#7 O que acontece quando um homem cai do céu, Lesley Nneka Arimah (Editora Kapulana, 167 páginas, tradução de Carolina Kuhn Facchin): coletânea de contos que são impressionantes do tema à capacidade literária. De histórias cruelmente reais (“Acidental”, “Descontrolada”) a metáforas muitíssimo bem feitas (“Quem vai te receber em casa”, publicado originalmente na New Yorker), o livro promete mais uma grande escritora contemporânea.

#6 A guerra, Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias (Todavia Livros, 344 páginas): um retrato competente sobre o PCC, elogiado por Drauzio Varella e Misha Glenny, consagrados autores sobre o mundo do crime brasileiro.

#5 Praia de Manhattan, Jennifer Egan (Intrínseca, 448 páginas, tradução de Sergio Flaksman): o mais recente romance de umas das melhores escritoras contemporâneas é também seu primeiro histórico, voltando a uma New York dos anos 40 em plena Segunda Guerra Mundial, com mergulhadores profissionais, gangsters, relações familiares, mistérios e personagens, como era de se esperar, muito bem trabalhados.

#4 Com armas sonolentas, Carola Saavedra (Companhia das Letras, 269 páginas): minha primeira experiência com essa escritora que me tirou o fôlego. Um livraço sobre família, maternidade, gerações de mulheres ao redor do mundo, pertencimento, enfim – potente, poético, profundo, uma delícia a cada página.

#3 Nix, Nathan Hill (Intrínseca, 672 páginas, tradução de José Francisco Botelho): um livro tão bom que é quase inacreditável o fato de ser um romance de estreia. A relação entre o protagonista e sua mãe, o fim dos políticos anos 60, jogos de computador, relações de aparências, abandono, publicidade, ascensão política, tudo isso é trabalhado de forma magistral nessas centenas de páginas, com poderosas metáforas e imagens sobre as relações humanas.

#2 Tudo que é belo, The Moth (Todavia Livros, 384 páginas, tradução de José Geraldo Couto): uma esplêndida coleção de histórias lindas, tristes, fortes, engraçadas, perturbadoras, e sempre bem contadas. Todas reais. Todas extremamente emocionantes.

#1 Ritmo Louco, Zadie Smith (Companhia das Letras, 528 páginas, tradução de Daniel Galera): largue tudo o que estiver fazendo e pegue agora esse livro para ler. Com a prosa sublime de Zadie Smith, o livro desnuda histórias de amizades, racismo, caridade, superstars da música, viagens pelo mundo, relações entre mãe e filha. É absolutamente maravilhoso – um dos melhores para a vida toda.

Imagens: À esquerda, Lesley Nneka Arimah. À direita, Zadie Smith. Crédito: Emily Baxter e Dominique Nabokov/Reprodução

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