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Promessas de Ano-Novo, por Jean Pierre Chauvin

Do GGN, 29 de Dezembro, 2018
Por Jean Pierre Chauvin



Nos últimos anos de vida, meu pai adquiriu o hábito de relembrar "onde estávamos", exatamente um ano atrás. Em sua concepção de mundo, em geral otimista - mas determinista -, ressoava a ideia de que o esforço (re)compensava e de que a tendência do ser humano era evoluir (ou, em versão mais rasteira, "seguir em frente", "sempre em frente", como repetem os adeptos do "futuro" do Brasil).

Descontadas eventuais ressalvas (deste, que desconfia da noção de "progresso vertical", como a definiu Herbert Marcuse) nunca lhe fiz emendas. Achava o experimento rememorativo interessante. A questão é que, empolgado, ele mesmo se encarregava de resumir a sina de cada um (a dele, a minha e a de sua neta), de modo a chegar, quase sempre, à "conclusão" de que estávamos melhores que doze meses antes.

Desde que ele faleceu, há cinco anos, não é que comecei a fazer algo parecido? A diferença maior é que não aplico o mesmo procedimento às demais pessoas; tampouco lhes tiro a voz. (que, salvo engano, é o que nos cura, como ensinou Freud; nos constitui como sujeitos, como demonstrou Lacan; nos liberta, como disse Paulo Freire; contrapõe-se a nossa exclusão, como defendeu Foucault; emancipa-nos para além da sala de aula, como propôs Jacques Rancière).

Então, começo: no final de 2017, acompanhava atento os comícios organizados por gente que se opõe aos defensores do neoliberalismo e da onda neoconservadora (se é que pode haver "neo" em retrocessos). Àquela altura, ainda estava sob os efeitos do Impeachment de Dilma Roussef e as mazelas levadas à perfeição pelo Ilegítimo e sua equipe. Não cogitava ser possível a prisão de Lula, supondo que o fato de ser Ex-Presidente (o mais popular do país e o mais festejado presidente brasileiro no planeta) e a falta de provas materiais impediria sua reclusão.

Veio 2018 e vimos que a ladeira não parece ter fim. Não bastava criminalizar os movimentos sociais, planificar a Terra, atribuir sintomas de esquerda ao Nazismo ou reproduzir o que tenho chamado de "mito de Eva" (o de que a mulher seria a "responsável" pelos assédios dos homens etc). A onda é ser cínico e mau caráter, o bastante para alegar retidão ética, moralidade, decoro e patriotismo, enquanto se faz e promove justamente o contrário.

Disso não escaparam megaempresários, mitos criados via grupos no celular, nem herois fabricados pela "grande mídia": gente "ilustre" que alega retidão ética, moralidade, isenção partidária, pertencimento a Deus, patriotismo e ordem, enquanto procede em sentido contrário, a confundir ainda mais as esferas de atuação dos Três Poderes. A quem essas madames e esses senhores servem? Procure se informar: estamos a padecer com a reedição da Operação Condor. Antes éramos chamados de teóricos da conspiração (adivinhe que país cunhou esta expressão?); agora, melhorou: somos o pessoal do "mimimi". A evolução não chegou a todos os intelectos dos "direitistas".

Mas, alto lá!

2018 ainda não acabou. Ainda temos três dias inteiros para gozar a ilusão de alguma liberdade para nos expressarmos nas ruas ou nos ciberespaços, em nome da democracia, das igualdades, dos direitos do trabalhador, do acesso ao ensino público, gratuito e de qualidade, da boa saúde, extensiva a todos (mesmo aqueles que detonam o SUS e favorecem a indústria farmacêutica, que nasceu e durante o Nazismo e enriqueceu com os países-cobaia, feito o "nosso"), da moradia digna, do acesso ao saneamento básico, à energia elétrica e, se possível, aos livros, ao esporte e à internet..., dentre outras quimeras.

No geral, sinto-me melhor que ao final de 2017. Enfrentei um câncer em 2016 (os últimos exames de 2018 sugerem que não há mais vestígios). Aprimorei as leituras. Dei aulas um pouco melhores. Fui chamado mais vezes para falar sobre assuntos que me dão prazer. Fiz novos amigos, a despeito do egocêntrico e vaidoso mundinho acadêmico. Li mais. Escrevi mais. Estou menos endividado financeiramente; e em débito com alguns amigos, especialmente os antigos. Tentei ser um pai melhor, sem mimar a filha que já é moça feita.

Promessas para o ano-novo? Vejamos: gastar menos (especialmente com livros) e ser mais solidário para com as pessoas, os animais ditos irracionais, os minerais e as plantas. Reforçar a resistência contra a onda ultraliberal - tenebrosa, mas saudada com aparente alegria (e desfaçatez) por um punhado de patrões, uma parte do Executivo, outra porção do Judiciário e um grupo bem tosco e mau do Legislativo, que não se cansa de tripudiar sobre nós, professores.

Não incluo, no rol, parentes e amigos que acreditaram na promessa do país que progride verticalmente (e quase nunca na horizontal, como propuseram Marcuse e, mais recentemente, David Harvey), pois nosso caminho é divergente e não há mediação possível. Acima de tudo, espero ter voz própria e me pronunciar em defesa daqueles que a perderem, desde que me autorizem, claro esteja. Civismo não é lamber botas de Israel, sucursal dos EUA; é ser capaz de autocrítica.

Hoje me sinto "desterrado na própria terra", para me referir a Sérgio Buarque, pai do Chico. Talvez seja esse o desejo maior: sentir-me orgulhoso deste lugar e deste tempo, como ensinaram os governos mais inclusivos que experenciamos. Nós avisamos. Nós avisamos. Nós...

Nota 1

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