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BH, 121 anos: tão rara, tão igual, tão grávida

Capital planejada aos pés das montanhas, ela repete a desigualdade, a servidão ao automóvel e a rejeição da natureza que marcam país. No entanto, carrega em si outra cidade possível

Por Roberto Andrés| Imagem: Fabiano Diniz

De OUTRASPALAVRAS, 13 de Dezembro, 2018
Por Roberto Andres

Em 12 de dezembro de 1897, era inaugurada a nova capital de Minas Gerais. Inaugurada é um modo de dizer. Abundavam enormes lotes vagos, boa parte das ruas era de terra e os sapatos viviam enlameados. É curioso imaginar aquela cerimônia de cortar fitas em que sobrava pompa e faltava todo o resto.

Belo Horizonte nascia sob muitas marcas de violência e exclusão. O pequeno vilarejo que aqui existia foi eliminado sem deixar rastros. A comissão construtora chegou a sugerir que seus moradores fossem “realocados para seu local de origem”. Aqueles que construíram a nova capital tampouco puderam habitá-la.

Assim, a cidade planejada, com seu traçado geométrico que ignorava as agruras da natureza (topografia, solo, córregos), nascia cheia de vazios enquanto as primeiras favelas já se formavam nos arredores. O último país das Américas a abolir a escravidão seguia firme em seu projeto de segregação que ainda hoje nos marca.

Projetada para atingir 200 mil habitantes em seu centenário, a capital de Minas superou em dez vezes essa previsão. Hoje a população passa de 2,5 milhões no município e de 5 milhões na região metropolitana. É o 7º maior conglomerado urbano da América Latina.

Esse crescimento enorme se deu por duas vias: a cidade oficial cresceu moderadamente para atender à classe média e à elite, enquanto a maioria da população foi ocupando o restante como dava. Nessa cidade não oficial, que compõe a maior parte do território, asfalto, posto de saúde, escola e iluminação pública são resultado de anos de luta.



O boom automobilístico iniciado nos anos 1960 contribuiu para esvaziar o centro e espraiar a ocupação do território. Novas avenidas cobriram córregos, derrubaram árvores; a poluição, sonora e atmosférica, se alastrou. A cidade que era conhecida pela ótima qualidade do seu ar viu a escalada das doenças pulmonares.

A ocupação desordenada do território e a impermeabilização cada vez maior do solo fez acentuar, ano a ano, o problema das enchentes. Como demonstra o pesquisador Alessandro Borsagli, as obras para conter enchentes sempre eram sucedidas por tragédias ainda maiores nos anos seguintes.

O modelo rodoviarista fez com que abandonássemos o transporte sobre trilhos, que já cumpriu o importante papel de ligar cidades da região metropolitana. Hoje temos uma cidade abarrotada de veículos, uma linha de metrô precária, um sistema de ônibus caro e ruim e pouquíssimas ciclovias. A cidade está engarrafada e poluída.

Alguns podem estranhar que se faça um balanço crítico na data de aniversário da cidade. Mas celebrar não é esconder a sujeira sob o tapete. É expor o que somos na rua pública, para que os próximos 121 anos possam ser melhores.



Os desafios são imensos e demandam muitas mudanças de postura. Com o aquecimento do planeta, teremos impacto imenso nas cidades. Calor intenso e tempestades mais fortes são tendências certas. As tragédias que vimos recentemente tendem a aumentar.

Por outro lado, somos parte do problema. As cidades são responsáveis direta e indiretamente pela maioria de gases de efeito estufa que causam o aquecimento global. Ou seja, a mudança está em nós.

Conseguiremos implementar outra lógica de cidade em que todos tenham casas próximas às oportunidades de trabalho, serviços e lazer? Em que os deslocamentos sejam feitos em modais pouco poluentes (transporte coletivo, bicicleta, a pé)?

Em que os córregos e rios corram abertos e limpos, envoltos por parques ciliares na área de inundação? Em que o lixo seja compostado, reciclado e destinado corretamente? Em que os espaços públicos sejam abundantes e democráticos? Em que as periferias e os centros recebam os mesmos investimentos públicos?

Tudo isso pode parecer um sonho distante quando se olha para a inércia do poder público, mas salta como possibilidade real quando conhecemos iniciativas de tanta gente que luta por outra cidade possível. Ativistas sociais, ambientalistas, moradores das periferias, ciclistas, gente que despolui córregos, batalha por parques, constrói pracinhas, brinquedos e árvores de natal.

É com essa gente que vale celebrar os 121 anos de BH. E mirar algum futuro feliz nessas terras montanhosas e abundantes em água e minérios.

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