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As razões e afetos do “populismo de esquerda”


Foto: Telefe Notícias

Do GGN, 22 de Dezembro, 2018
Entrevista a Sebastián Abrevaya, no Pagina 12
Tradução de Antonio Martins, do Outras Palavras



Depois de visitar a Argentina pela última vez em 2015, a cientista política belga Chantal Mouffe voltou esta semana ao país, para apresentar seu novo livro e participar do Fórum Mundial do Pensamento Crítico, organizado pela Clacso. Diferente de suas obras prévias, “Por um Populismo de Esquerda” não é um texto de teoria política, mas uma interpelação direta aos distintos setores da esquerda, diante do que denomina “o momento populista”, iniciado com a crise do modelo neoliberal. Professora da Universidade de Westminster (Inglaterra) e esposa do falecido Ernesto Laclau – um dos intelectuais argentinos mais destacados no mundo – Mouffe adverte sobre a possibilidade de que a saída desta “crise de hegemonia” se dê através de um populismo de direita, encarnado por políticos como Donald Trump ou a francesa Marine LePen. No entanto, e em uma reivindicação do populismo como forma de articulação política, propõe saída por meio de um populismo de esquerda, que produza a “radicalização da democracia”, baseada nos pilares da igualdade e justiça social. Em uma extensa entrevista com “Pagina12”, e embora o eixo de seu pensamento seja a Europa Ocidental, Mouffe também se refere à Argentina e ao presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, a quem qualifica claramente como “fascista”.
A que você se refere, quando diz que este é um “momento populista”?

Vivemos uma crise da hegemonia neoliberal. Esta crise pode abrir espaço para várias saídas. Uma delas aponta para governos mais autoritários, que restringirão a democracia: é o caso, quando ganha o populismo de direita. No entanto, abre-se a possibilidade – que não é certa – de uma ampliação da democracia. Depende da atitude das forças de esquerda, as forças progressistas. Sou fortemente contrária a considerar os populismos de esquerda e de direita como duas faces da mesma moeda antidemocrática.

Você desenvolve, no livro, o conceito de “pós-democracia”, e afirma que atualmente ele gera resistências múltiplas. Que significa a ideia de pós-democracia?

A situação da pós-democracia tem dois componentes. Um mais político, que em 2005 denominei “pós-política”. Naquele momento, dizia-se que a distinção direita-esquerda estava superada e que a democracia havia se tornado mais madura. Mas, ao contrário do que diziam todos, isso não significou um progresso, e sim que os cidadãos, quando votavam, já não tinham nenhuma possibilidade de intervir. É por isso que os partidos social-democratas, quando chegaram ao poder, não geraram uma alternativa – apenas vivenciaram de um modo um pouco mais humano a globalização neoliberal. O outro componente da pós-democracia é de tipo econômico. É o fenômeno da oligarquização das sociedades europeias, que se produz mais rapidamente desde a crise de 2008. É uma situação em que há um grupo cada vez menor de super-ricos e, por outro lado, as classes populares – e também as classes médias – vivem cada vez pior. Fala-se de despossessão e de desaparição das classes médias. Poderíamos dizer que se trata de um processo de latinoamericanização da Europa Ocidental. É uma consequência do domínio do capitalismo financeiro. É o que chamo de pós-democracia em seus dois lados, o econômico e o político.

Voltemos ao básico. O que é o populismo?

Eu sigo a definição de Ernesto Laclau em A Razão Populista. Não é uma ideologia, é uma estratégia discursiva de construção política. É uma construção sobre a base da fronteira povo-oligarquia. Evidentemente vocês, na América Latina, já o tiveram antes, mas agora se vê precisamente este tipo de populismo na Europa. A grande diferença entre populismo de esquerda e de direita é como se constrói este povo. Porque o povo não é a população, não é um referente empírico, o povo é uma construção política.

Por que é preciso caminhar rumo a um populismo de esquerda?

Estou convencida de que a única maneira de lutar, de impedir o crescimento de direita, é desenvolver um populismo de esquerda. Os partidos tradicionais europeus estão tão ligados à manutenção da ordem estabelecida que não oferecem a possibilidade de canalizar uma corrente democrática, progressista, que para mim consiste em expandir a democracia – porque isso implica romper a ordem neoliberal. Não há maneira de sair da crise se não se coloca em questão o modelo neoliberal, e isso evidentemente é o que faz o populismo de esquerda. Não devemos aceitar a ideia de que, para defender a democracia contra o populismo de direita – cujas tendências autoritárias são evidentes – temos de defender também o status quo.

Como explicar o avanço do populismo de direita?

Uma das críticas que faço no livro é à ideia de que aqueles que votam pelo populismo de direita são gente intrinsecamente racista, sexista, etc. Por exemplo, no caso da França creio que há muita gente das classes populares que se sentiu abandonada pelo Partido Socialista, dedicado unicamente às classes médias. Estas pessoas não são fundamentalmente racistas, mas se constróem vendo o imigrante como o responsável por seus problemas. Creio que originalmente o que esta gente quer é ter uma voz. Algo de que sempre gostei, no movimento dos Indignados espanhóis, é que eles diziam: “nós temos voto mas não temos voz”. É exato: no sistema pós-politico, você tem voto, mas não tem voz. A origem destes movimentos populistas é o pedido de “que nos escutem, que nos deem dignidade, que nos reconheçam”. E consideram que os partidos tradicionais não o fazem. Por isso, estão atraídos pelos partidos de direita.

Certos setores denominam estes populismos de direita defascistas. São formas de fascismo?

Isso me parece perigoso, e sou contra dizer que são fascistas. Creio que há uma grande diferença entre o populismo de direita e os fascistas. Por exemplo, hoje – e não falo apenas no plano europeu, mas pensando na América Latina – só uma pessoa merece o título de fascista, e é Jair Bolsonaro. Seu projeto põe claramente em questão o Estado de Direito e as instituições da democracia pluralista. Mas não vejo nenhum outro, realmente, no mundo ocidental, que vá tão longe. É perigoso, porque diante do fascismo o único que se pode fazer neste caso é proteger-se estabelecer um cordão sanitário para impedi-lo. Então [ao usar esta denominação], em primeiro lugar você não vai entender o que está ocorrendo, a razão por que as pessoas estão votando nestes partidos. E não vai entender como fazer para impedir que cresçam. Me parece uma atitude totalmente contraproducente

Trump, sim, seria um populista de direita?

A campanha de Trump é definitivamente de um populismo de direita, mas o governo de Trump não pode ser – porque o populismo não é um regime. O populismo é uma estratégia para construir um povo, para conseguir força política para intervir, para mudar. No caso do populismo de esquerda, para criar uma nova hegemonia – mas realmente, para mim, não tem sentido falar de um governo populista, porque todos os governos democráticos precisam se reivindicar do povo. Na verdade, há uma dimensão, que posso chamar de populista, necessária na democracia. Você não pode ter uma democracia sem povo.

Quais são as diferenças entre este populismo de direita e o de esquerda?

Uma das diferenças é que o populismo de esquerda compreende: o que está em questão é a globalização neoliberal – e tem, portanto, uma dimensão anticapitalista. Digo “dimensão” porque o populismo de esquerda não é exatamente uma esquerda marxista. Dentro do populismo de direita, não há uma dimensão anticapitalista. O que há, em certos casos, é uma dimensão anti-neoliberal, contra o modelo do capitalismo financeiro. Eles defendem, por exemplo, medidas protecionistas. No caso de Marine LePen, ela quer estabelecer um capitalismo nacional. É interessante observar como durante sua campanha, e mesmo antes, muitas das coisas que propunha tinham verniz de esquerda. Mais do que o Partido Socialista – porque, por exemplo, ela defendia o Estado de Bem-Estar. Mas apenas para os franceses: isso era o específico. Como está contra a União Europeia, também enfrenta o elemento de globalização do capitalismo.

Seu novo livro debate o papel dos novos movimentos sociais– como o ambientalismo, o anti-racismo e o feminismo. Na Argentina, o feminismo adquiriu força enorme. Como se inscrevem suas demanadas nesta ideia do populismo de esquerda?

Me parece um elemento fundamental. Meu argumento é que se trata de construir um povo. O povo não é algo já dado – resultará da articulação de demandas, em uma rede de equivalências. A articulação necessária é, porém, muito mais ampla, em consequência da hegemonia neoliberal, que criou muito mais antagonismos. Há hoje muito mais demandas heterogêneas, que precisam articular-se num momento de construção de nova hegemonia.São demandas que chamamos democráticas, vindas das classes populares, das classes médias, do feminismo, do anti-racismo. Obviamente, outro aspecto que estava presente, mas ao qual é preciso dar muito mais destaque, é o Ambiente. É algo absolutamente fundamental.

Um tema não tão presente no livro, mas que é chave para a ideia do populismo, é a figura do líder…

O povo precisa ser construído em articulação com demandas heterogêneas, e isso não é fácil, porque tais demandas não convergem naturalmente. É preciso fazê-las convergir, e para isso necessita-se um princípio articulatório. Contudo, há uma discussão sobre este princípio. Muitas das críticas ao populismo referem-se à centralidade deste líder carismático. Me parece que é um questionamento totalmente falso. Liga-se com outro elemento que me parece importante: o papel dos afetos na política. Quando falamos de criar um povo, na verdade propomos criar um nós, gente que se reconhece e se identifica como uma coletividade. Isso implica um elemento afetivo, não é uma questão puramente racional. E o líder cristaliza, como se vê na Argentina com Cristina Fernández e se via antes com Perón. Mas é claro que há aspectos problemáticos nisso, pois pode haver tendências autoritárias –embora não necessariamente. Pode ser um líder inter pares, não há necessariamente uma relação autoritária entre o líder e o povo. Mas vale notar outro aspecto: não é absolutamente necessário que haja um líder. O princípio articulatório também pode ser uma das lutas, que se converte em luta-símbolo. Na realidade, o necessário é que haja um símbolo da unidade do povo.

Esta luta poderia ser, por exemplo, o feminismo?

Parece-me muito interessante analisar se em alguns lugares o movimento feminista pode ser o princípio articulador. No caso europeu, este movimento está forte na Espanha. Ocorreu no último 8de Março e foi impressionante: a greve feminista, que é de fato um movimento completamente transversal, de todas as idades e grupos. E o interessante é que é uma luta das mulheres, mas não se limita a demandas específicas das mulheres – é uma luta que articula, na medida em que há mulheres trabalhadoras. Articula uma série de lutas. Além disso, revolucionou o país quanto aos valores. Teve impacto enorme no sentido comum. Por isso, pode-se pensar que o feminismo venha a ser o símbolo de todas as lutas para a radicalização da democracia. E me parece que talvez algo similar possa ocorrer na Argentina. O movimento Nem uma a menos também é muito forte aqui – e também, segundo entendo, é um movimento que articula múltiplas demandas.

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