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A transparência e o obstáculo

Demolições são indissociáveis de nuvens de poeira, de neblinas nos espaços


Da Folha de São Paulo, 21 de Dezembro, 2018
Por Vladimir Safatle


"É muito significativo perceber, quando vemos todos esses eventos em conjunto, incluindo as exultantes picaretas sobre o muro de Berlim em 1989, o quanto os rituais iniciáticos do mundo contemporâneo —na verdade rituais de morte— são fenômenos de falência e demolição espetacular, e não gestos construtivos." Este é um trecho de "Dentro do Nevoeiro", de Guilherme Wisnik (ed. Ubu, 192 págs.).

Tal passagem se refere principalmente a eventos como o 11 de Setembro de 2001, em Nova York, assim como a cenas paradigmáticas de implosão e quebra que marcam a arte contemporânea e parecem expressar a crença no colapso do pretenso pacto modernista com o progresso.
Essa compreensão de como nossa época é marcada por eventos espetaculares de demolição não é simplesmente uma parte de alguma forma de ritual melancólico diante das falências da modernização esclarecida. O que faz a singularidade desse livro é certa compreensão, digamos, dialética da demolição, na qual uma nova forma de sensibilidade e existência pode emergir depois do nevoeiro.

Marcelo Cipis/Folhapress

Construindo uma profunda articulação entre reflexão estética e social, o novo livro de Guilherme Wisnik procura configurar a matriz estética de uma sociedade que se vê como sociedade da informação, mas é marcada por uma relação estreita com a falta de visibilidade plena.

As demolições são indissociáveis de nuvens de poeira, de neblinas que marcam os espaços. Que a metáfora fundamental da sociedade da informação sejam as nuvens, eis algo que não deveria nos surpreender.

Contrariamente à tópica modernista da transparência, tão presente no uso cada vez mais constante do vidro (Mies van der Rohe é um exemplo maior aqui), e nas tentativas de conciliação entre espaço interno e externo, entre arquitetura e vida social, a contemporaneidade viu a emergência de espaços arquiteturais marcados pela opacidade —espaços que decompõem certos regimes de visibilidade que nos são quase naturais, fotografias que captam a espectralidade do tempo e as formas liminares.

Tal emergência é uma das maneiras de nosso tempo compreender que as nuvens e neblinas podem ser a representação de um mundo no qual as forças de reprodução social do capital pairam por sobre as cabeças dos sujeitos.

Mas elas podem também ser mais que isso. Pois seria o pior de todos os erros querer contrapor a incapacidade de controle das forças sociais à afirmação enfim liberta de sujeitos transparentes para si mesmos, autônomos em sua capacidade de decisão e deliberação.

Não se sai da opacidade da nossa posição de suportes dos processos de reprodução material da vida apelando à reconstrução da transparência ligada à certa noção equivocada de emancipação.

Ao falar da arquitetura dos japoneses Sejima e Nishizawa, Wisnik encontra a figura desses espaços "que transmitem um sentimento de anonimato voluntário em um mundo narcísico e exibicionista. Espaços pouco hierarquizados, diáfanos e anoréxicos, que se revelam, no entanto, de um acolhimento sedutor".

Colocações como essas lembram Theodor Adorno a insistir que a burguesia havia pensado em uma arte voluptuosa e em uma vida ascética (ao menos na época da ética protestante do trabalho).

Melhor seria defender o contrário, ou seja, uma vida voluptuosa e uma arte ascética. Pois o ascetismo da arte é apenas uma estratégia de eliminar formas de visibilidade e de sensibilidade em prol do que ainda não sabemos como ver e sentir.

Esse anonimato voluntário que certa arquitetura parece produzir em nós talvez seja uma das mais importantes estratégias de realizar a força de emancipação da arte. E devemos ao novo livro de Wisnik a compreensão disso.

Vladimir Safatle

Professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”.

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