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A tolice da inteligência brasileira já foi longe demais, por Franklin Jr.

Do GGN, 15 de Outubro, 2018



“Faz escuro, mas eu canto por que amanhã vai chegar” (Thiago de Mello)

A tolice da inteligência brasileira já foi longe demais

É espantosa a cegueira que consome a inteligência brasileira, cuja capacidade de reflexão e debate, e de aprender com a vida, foi reduzida ao mínimo, tornando-nos, conforme escreveu Jessé Souza (2015), “um país de pessoas inteligentes em uma multidão de tolos manipulados”.

O surto de violência política registrado apenas na primeira semana do segundo turno das eleições (mais de meia centena de episódios, inclusive com vítimas fatais), tendo como alvos principais pessoas que se enquadram nos perfis de minorias historicamente discriminadas e dos considerados ideologicamente diferentes, reflete a escalada de um messianismo febril e atroz que emoldura o grave quadro de insanidade social no qual estamos mergulhados, fazendo o mundo olhar para o Brasil com perplexidade e preocupação.

Os sinais dessa onda regressiva também estão, como diz o amigo Luiz Ferraro (em conversas recentes sobre a conjuntura), “na impossibilidade do diálogo, na construção de dogmas brutais impermeáveis, na adesão massiva e no evidente crescimento de eventos de intolerância e violência”, mas também, entre muitos de nós, “na nossa reação vacilante, na adaptação ao medo, no cuidado extra com as palavras, com as cores das roupas que usa”.

Conforme assevera Leonardo Avritzer (2018), “vivemos no Brasil um aggiornamento da tese arendtiana ou uma reintrodução pela porta dos fundos da prática da violência pelo homem comum”.

Também é grave a omissão deliberada da imprensa hegemônica nacional, que, no lugar de se dedicar à produção de séries de reportagens denunciando as atrocidades, alertando e educando a população, o que ela faz é botar ainda mais lenha na cegueira da banalização do mal.

Matéria do jornal espanhol “El País” denuncia a omissão dos democratas brasileiros, com as afirmações (de Fernando Limongi) de que “está em jogo a barbárie” e que “líderes responsáveis não têm o direito de se isentar diante da insanidade de Bolsonaro”.

A fala de Guilherme Boulos no último debate do primeiro turno, na qual ele alerta para o perigo da tirania, é um exemplo pedagógico do que os líderes políticos comprometidos com a democracia devem fazer (confira aqui).
Crise, encruzilhada, crítica e autocrítica

“A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer; neste interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem” (Antonio Gramsci)

Este espírito reverso do tempo foi gestado por uma confluência perversa de situações relacionadas, dentre outros fatores:

> à produção da pós-verdade (usina de desinformação midiática, fake news e bombas semióticas),

> à cultura do ódio aos pobres e da intolerância com os diferentes e as minorias,

> à expansão do fundamentalismo religioso,

> ao ardiloso processo de sequestro da soberania popular e atalhamento da democracia (impeachment fraudulento),

> às investidas do sistema de dominação e opressão (oligarcas e plutocratas nacionais) a serviço de saqueadores globais (corporações multinacionais e estados imperiais), a fim de relativizar a soberania nacional e alienar o patrimônio pertencente ao povo brasileiro.

Mas esse não é um fenômeno simples e completamente unilateral, pois ele também se nutre de desacertos conjunturais ou episódicos das esquerdas e de erros estruturais do conjunto do campo democrático e progressista, relacionados a omissões, tangenciamentos e capitulações.

O pensamento autocrítico é importante para compreendermos e nos desvencilharmos deste emaranhado movediço, mas, ao mesmo tempo, requer cuidado para bem dimensionar as circunstâncias e, nestes exercícios reflexivos, evitar a submissão a negacionismos niilistas, pois nos encontramos num momento sem margem de manobra para enveredar em lucubrações.

É preciso construir aprendizados em meio às contradições, importando não esquecer que os governos democrático-populares da última década se constituem como referência crível de potencial transformador, pois, mesmo aquém de expectativas, estavam inegavelmente no rumo do horizonte utópico (do pluralismo, da liberdade, da inclusão, da justiça social, da paz) e na trilha dos grandes desafios civilizacionais (dentre os muitos avanços, a retirada de aproximadamente 40 milhões de pessoas da pobreza extrema, o equivalente à população de 80 países como Luxemburgo, 40 países como o Timor-Leste ou, ainda, 8 países como a Noruega).

Isso, contudo, não basta. A encruzilhada que se avizinha delineia dois caminhos antagônicos e incompatíveis, sendo que um deles, como já se pode vislumbrar, é abismal e imponderavelmente violento.

Como alertou o historiador Fernando Horta (2018):

“O que está em jogo não é mais a "república", o "pacto federativo", o "projeto" do partido A ou B. O que está em jogo é a sobrevivência física de 50% da população brasileira. É a manutenção das liberdades conquistadas ainda na Revolução Francesa, no século XVIII. O que está em jogo, é a destruição completa e irrestrita do projeto fascista. Não é "polarização". Diante o que temos, esta palavra é um eufemismo. O que está em jogo é a sobrevivência do Brasil, mesmo imperfeito como o temos hoje”.

Por oportuno, transcrevo, aqui, trecho do categórico artigo do deputado pelo Parlamento Europeu, Francisco Assis (2018), publicado no jornal português “Público”, sobre o que está em jogo nas eleições brasileiras:

“Equiparar Haddad a Bolsonaro constitui um acto moral e politicamente inqualificável. Quem o faz torna-se cúmplice de Bolsonaro, da sua vertigem protofascista, da sua propensão para o culto da violência. É por isso que não pode haver hesitações neste momento da história do Brasil e, de uma certa maneira, da própria história da Humanidade. Haddad é um intelectual sofisticado, um democrata respeitador dos princípios fundamentais das sociedades abertas e pluralistas, um homem de reconhecida integridade cívica e moral. O PT cometeu erros nos anos em que governou o Brasil? Cometeu decerto, como todos os demais partidos que desempenharam funções governativas durante muito tempo em qualquer parte do mundo. Há, porém, uma coisa que é preciso afirmar enfaticamente nesta hora especialmente dramática: nem Lula, nem Dilma Rousseff alguma vez puseram em causa o Estado de direito brasileiro. Ambos pugnaram por um Brasil mais justo e contribuíram fortemente para o alargamento das condições de afirmação da liberdade individual de milhões de brasileiros a quem o destino aparentava não conceder outra vida que não fosse a miséria, o sofrimento e absoluta exclusão social.”

Os direitos humanos, o mundo ao avesso e o senso comum fascistizado

Em pleno aniversário dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) e dos 30 anos da Constituição Federal de 1988 (a Constituição Cidadã), ultrapassamos os limites da sanidade, chegando ao absurdo ponto da deslegitimação de pressupostos civilizacionais básicos e da naturalização dos discursos de ódio e intolerância (confundindo, maliciosamente, a ofensa com o direito à livre expressão), assim como do emprego da violência politicida, que visa à interdição, quando não a própria eliminação, de grupos opositores (adversários político-ideológicos) e indesejáveis, como as minorias, os pobres e os desassistidos.

Por outra parte, Boaventura de Sousa Santos (2018, grifo meu) pondera que

“o fascismo de massas nunca foi feito de massas fascistas, mas sim de minorias fascistas bem organizadas que souberam capitalizar nas aspirações legítimas dos cidadãos comuns a viverem com um emprego digno e em segurança.”

A falta de informação mais o excesso de desinformação, erodem as consciências e constituem um verdadeiro cerco que turva o espírito do tempo.

Este rescaldo, no entanto, advém de campos ainda mais profundos, como o campo da educação e do aprendizado, e de escalas de magnitude mundial, como aquelas apontadas pelo pensador pós-colonial africano Achille Mbembe, relacionada à crescente bifurcação entre a democracia e o capitalismo, como “nova ameaça para a civilização”.

De acordo com Achille Mbembe (2016),

“A difamação de virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade vai de mãos dadas com a crença, especialmente entre os pobres, de que ganhar é a única coisa que importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é, em última instância, a coisa certa. Com o triunfo desta aproximação neodarwiniana para fazer história, o apartheid, sob diversas modulações, será restaurado como a nova velha norma”.

Mbembe denuncia que o que já se encontra em formação é um novo tipo de ser humano, que

“será constituído através e dentro das tecnologias digitais e dos meios computacionais. [...] A linguagem se deslocou. O conteúdo está na forma e a forma está além, ou excedendo o conteúdo. Agora somos levados a acreditar que a mediação já não é necessária. [...] Isso explica a crescente posição anti-humanista que agora anda de mãos dadas com um desprezo geral pela democracia”.

É bastante ilustrativa disso a turnê de Roger Waters (ex-Pink Floyd) pelo Brasil, ao protestar contra a ameaça fascista no país (e ser vaiado por parte da plateia). TT Catalão narra que

“quando vaiam Roger Waters por se posicionar contra a tirania, a ditadura e o déspota com potencial para monstruosidades contra a liberdade, demonstram porque votam no fascismo: adoram a forma sem saber do conteúdo... é a lavagem cerebral whatzapiana produzindo zombies analfabetos emocionais que só atuam no sensorial sem chegar ao sentimento”...



Diante desta crise civilizatória, agudizada pela “razão neoliberal”, Rubens Casara (2017) constata que “nós perdemos a capacidade de identificar determinados valores como inegociáveis”.

Infelizmente, o Brasil materializou-se como sendo um exemplo radical de “escola do mundo ao avesso”, aquela em que “o chumbo aprende a flutuar e a cortiça a afundar”.

Como explica Eduardo Galeano (2009), é neste mesmo mundo ao avesso que

“os países responsáveis pela paz universal são os que mais armas fabricam e os que mais armas vendem aos demais países. Os bancos mais conceituados são os que mais narcodólares lavam e mais dinheiro roubado ganham. As indústrias mais exitosas são as que mais envenenam o planeta, e a salvação do meio ambiente é o mais brilhante negócio das empresas que o aniquilam. [...] O mundo ao avesso nos adestra para ver o próximo como uma ameaça e não como uma promessa [...] nos ensina a padecer a realidade ao invés de transformá-la”.

E, neste país surrealmente invertido (um dos mais ricos do planeta, mas campeão mundial em desigualdades), os direitos humanos, tais como os direitos à liberdade, igualdade, dignidade, vida, proteção contra a discriminação, presunção da inocência, opinião e expressão, lazer etc, foram deturpados, sonegados e reduzidos, pela narrativa capturada pelo senso comum fascistizado, ao “direito de proteger bandido”.

Por uma educação pós-totalitária, ainda que tardia, desde já!

Também causa apreensão, desde o primeiro turno, conforme as pesquisas de opinião mostravam, o nicho do eleitorado brasileiro composto por ricos e por pessoas com elevado grau de escolaridade, que, majoritariamente, apoia a candidatura vinculada a um projeto de inspiração fascista (que faz apologia à tortura, à pena de morte, ao uso de armas letais e à violência contra opositores).

Candidatura esta que se envolveu no ardil do golpe, foi fiel ao governo ilegítimo; que apoiou a PEC da Morte (atual EC-95), a qual congelou (por 20 anos) os gastos em educação, saúde e assistência social, jogando uma pá de cal no futuro do país; que foi contrária aos direitos dos trabalhadores, apoiando a reforma trabalhista e a terceirização irrestrita; além de apoiar toda a sorte de maldades perpetradas pelo golpe contra o país e contra o povo (o entreguismo, o pacote do veneno, o austericídio e outras barbaridades econômicas e sociais).



Intrigantes e sintomáticos, estes dados suscitam hipóteses a respeito do grau de efetividade democrática e pedagógica do sistema escolar e, sobretudo, do processo de aprendizagem no Brasil.

Uma delas, é que o nível de escolarização não corresponde, necessariamente, ao grau de politização, humanização e cidadania dos educandos. Por demais, desvela que a escolarização no Brasil é essencialmente instrumental, mecanicista e tecnocrática. Esta escolarização se mostra precária para enfrentar o analfabetismo político. Como escreveu Brecht, “O analfabeto político é tão burro que se orgulha, e estufa o peito dizendo que odeia a política.”

Para Pedro Demo (1998), a escolarização não é sinônimo de aprendizagem. Ele defende que a aprendizagem “supõe pelo menos dois componentes interligados: o primeiro, é o esforço reconstrutivo pessoal do aluno; o segundo, é uma ambiência humana favorável”.

Estudiosa deste eleitorado, a pesquisadora e cientista social, Esther Solano, detectou como denominador comum dos simpatizantes da referida candidatura de extrema-direita, a “incapacidade cognitiva, emocional de entender a pluralidade do mundo, sua riqueza social, suas complexidades, de ver o outro como possibilidade e não como inimigo”. Solano afirma que “a falta de educação e conhecimento críticos, políticos, democráticos contribuem para esta incapacidade”.

Vale recordar que as linhas gerais do projeto educacional vigente no Brasil (CHAUÍ, 2018) foram traçadas à época do regime de exceção, pelo Acordo MEC-USAID, de características reducionistas (mercantilistas, gerenciais e burocráticas).

Talvez uma das grandes falhas do processo de redemocratização do Brasil corresponda, exatamente, à ausência de estratégias e de um processo vigoroso e massivo de educação pós-totalitária, à luz do que Theodor Adorno chamou de educação pós-Auschwitz.

Ao advogar uma educação crítica e emancipatória, Adorno (1995) diz que

“é preciso romper com a educação enquanto mera apropriação de instrumental técnico e receituário para a eficiência, insistindo no aprendizado aberto à elaboração da história e ao contato com o outro não-idêntico, o diferenciado”.

Neste sentido, o Brasil carece de uma educação pós-totalitária, também entendida como educação crítica, humanista, cidadã, democrática, libertária e emancipatória, que se destine, conforme Nair Bicalho de Sousa (2016, grifos meus), à formação “de sujeitos de direito”, ao “empoderamento de atores sociais” (especialmente os grupos sociais discriminados e marginalizados), ao resgate da memória histórica de modo a “educar para o nunca mais”.

Sob o prisma da realidade histórica e cultural brasileira, este “nunca mais” pode ser traduzido por violência nunca mais, tortura nunca mais, ditadura nunca mais.

Desta maneira, uma educação pós-totalitária no Brasil pode ser também entendida como uma educação pós-colonial, pós-escravagista/racista, pós-patriarcal/misógina, pós-neoliberal e pós-LGBTfóbica, por exemplo.

Esta ligeira estruturação visa identificar algumas das causas mais profundas da situação em que nos encontramos, bem como parcela dos grandes desafios, das ações emergenciais possíveis e do potencial de médio e longo prazos, a depender do desfecho deste, mais do que conturbado, processo eleitoral.

É óbvio que não será em menos de 3 semanas que um grande contingente de cidadãos e cidadãs brasileiras irá suprir lacunas de 3 décadas de uma educação fundamentalmente instrumental, mecanicista e tecnocrática, por um lado, e escassamente humanística e democrática por outro.

Entretanto, os momentos de expressão da soberania popular, seja por meio do sufrágio universal (voto), da participação em plebiscitos e referendos ou por outros processos cidadãos, tendem a ser, no geral, portadores de virtudes cívicas e capazes de promover saltos no sentido da formação político-democrática.

Não obstante a atipicidade do atual processo eleitoral brasileiro (ocorrido sob a vigência do golpe, permeado por insegurança jurídica, lawfare, violência contra a soberania popular, por meio do banimento, no primeiro turno, da candidatura favorita de Lula, etc), paradoxalmente, ele foi capaz de dar ensejo a um inédito movimento de empoderamento feminino (o #EleNão) nas redes e nas ruas do país, em rechaço às ameaças representadas pela candidatura de extrema-direita.

Concomitantemente às eleições, acontecem atos e mobilizações de resistência ao obscurantismo e em de defesa dos direitos e da democracia, a exemplo do ocorrido no dia 10, em frente à Biblioteca Central (BCE) da Universidade de Brasília (UnB), em protesto contra a danificação de livros na temática de direitos humanos, atentando contra a memória, a ciência e a produção do conhecimento (saiba mais aqui e aqui).

Adversidades e emergências

“Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem”.

(João Cabral de Melo Neto)

O atual processo eleitoral também corre riscos associados à profusão de mentiras veiculadas nas redes sociais, a exemplo do que indica ter ocorrido contra as candidaturas de Dilma Rousseff e Eduardo Suplicy ao Senado Federal, ambos liderando as pesquisas de opinião de diferentes institutos, por larga margem sobre os demais candidatos, nos respectivos estados de Minas Gerais e São Paulo, porém tendo sido derrotados, conforme reportagem de Cynara Menezes, pelo “bombardeio de notícias falsas pelo whatsapp às vésperas da eleição” (confira aqui).

Algo similar também houve no primeiro turno das eleições majoritárias nacionais e impulsionou a candidatura de extrema-direita. Possivelmente, se fosse num país de instituições fortes e estavelmente democráticas, tais ocorrências desleais poderiam até levar à anulação do pleito eleitoral.

O golpe parlamentar-midiático-jurídico de 2016 abriu a caixa de Pandora e as portas do inferno. Em meio ao assombro, ainda resta mais uma, talvez derradeira, oportunidade para remover o entulho autoritário, fechar as portas do mal e começar a derrotar o golpe, nas urnas, em 28 de outubro.

A tragicidade das circunstâncias exige capacidade para exercitar a escuta apreciativa, a paciência estratégica e o diálogo intercultural (baseado, conforme Boaventura de Sousa Santos, no aprendizado da incompletude intrínseca e da alteridade complementar). Requer mediação e boa fundamentação nas conversas e interações.

Aos que embarcaram/apoiaram a aventura golpista e se arrependeram, talvez seja uma chance para a remissão e a reconciliação com o ideário democrático e o futuro do país.

Como diz o Luiz Ferraro, “chegou um momento para aprendermos novas gramáticas, novos lugares, novas alianças, as mesmas lutas, mas com formas que ainda não imaginamos. Acho que elas começam já. Sinto que a humanidade do país se esvai, mas que não morre nunca, e que agiremos no nosso resgate, num otimismo trágico de quem salva a própria humanidade sabendo que a escuridão pode perdurar”. Mas ele também entende que esses “tempos riscosos”, podem ser um “aguçador dos sentidos e das inteligências; talvez seja o fim de uma síntese turva, lodosa, inercial, que dará lugar a polos claros, vivos e opostos, civilização ou barbárie. Importa que sabemos muito bem onde queremos estar, e importa sabermos que não estamos sós. A noite é escura, e cantamos juntos.”

Leonardo Boff nos lembra que nós, humanos, somos simultaneamente ‘sapiens’ e ‘demens’, que somos suscetíveis a agir de maneira sábia, com inteligência, harmonia e solidariedade, mas também de maneira demente, excludente e criminosa. Então ele diz que “é a parte sã do ser humano, a parte luminosa, que tem que curar a parte demente”. Desta maneira, se “não alimentarmos essa dimensão luminosa na construção coletiva de uma sociabilidade, há o risco de que sejamos demasiadamente autodestrutivos.”

Boff alerta e conclama, caso decidamos politicamente sobreviver, a desenvolvermos sabedoria, pois “a sobrevivência passa, hoje, por uma decisão política.”

Isso pode fazer muito sentido para quem tiver capacidade de desprendimento para analisar e tentar reverter, coletivamente, o círculo de regressividades. Muito sentido, especialmente, para quem se enquadra no contingente dos 100 milhões de brasileiros que teriam que trabalhar cerca de 20 anos para ganhar o que um super-rico recebe por mês (no Brasil, os 5% mais ricos têm a mesma riqueza que os 95% restantes).

É fundamental que as democratas e os democratas do país se associem para a mobilização de uma grande tessitura (ou frente) contra o obscurantismo, os retrocessos, a perda de direitos, a hecatombe social e ambiental, e em defesa das liberdades, da democracia e da sustentabilidade da vida.

Nesta perspectiva, agir politicamente é, como instiga Vladimir Safatle, ser causado

“por algo que é maior do que a soma dos interesses individuais, que não calcula como um indivíduo, que tem outro tempo, que faz ressoar múltiplas vozes e que, por ser ressonância contínua de multiplicidades, constitui sujeitos em ressonância infinita, como se tais sujeitos portassem em si uma pulsação que os constitui e os destitui em ritmo perpétuo, que lhes joga em processos de contínua reconfiguração. Por isso, é necessário perceber-se atravessado por uma pulsão para agir politicamente.”

Portanto, não é hora de titubear nem de esmorecer, é preciso sair das cavernas e das bolhas, o que está em jogo é bem maior do que apenas partidos e ideologias. É preciso, como alerta Boaventura Sousa, desarmar as bombas-relógio intertemporais.

O caminho para a travessia reside na ação coletiva, na mobilização das vontades e no engajamento das pessoas. Não se deve ficar à espera da atitude de lideranças políticas e nem de cúpulas burocrático-partidárias. É da ação articulada, horizontal, em rede e de base, nas múltiplas esferas (micro e macro) de convívio e atuação, que poderá surtir o molecular efeito tsunâmico da virada.

Neste momento limite, não existe meio termo, é votando à esquerda, na candidatura do campo democrático e progressista, que derrotaremos a ameaça fascista da extrema-direita.

Referências

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CASARA, Rubens. As práticas fascistas são fundamentais para a manutenção do modelo capitalista. Rede Brasil Atual, 2017. Disponível em: http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2017/09/as-praticas-fascistas-sao-fundamentais-para-a-manutencao-do-modelo-capitalista.

CHAUÍ, Marilena. Em defesa da educação pública, gratuita e democrática. Vol. 6. Ed.Autêntica, 2018.

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SOUZA, Jessé. As manifestações de junho e a cegueira política das classes. In: A tolice da inteligência brasileira. SP: LeYa, 2015.

Mapa da Violência Eleitoral

http://mapadaviolencia.org/

Vítimas da Intolerância

https://www.vitimasdaintolerancia.org/

Cartografia da Violência da Extrema Direita no Brasil

https://www.google.com/maps/d/u/0/viewer?ll=-20.463636348342007%2C-49.694040638811884&z=2&mid=1hNIxsASpLAxFjsWPMqFZtm-cuigr3jj9.

Observatório das Eleições

https://www.observatoriodaseleicoes.org/

Outras fontes consultadas

Manifestação na UnB repudia ataque aos direitos humanos. Disponível em: https://noticias.unb.br/publicacoes/112-extensao-e-comunidade/2552-manifestacao-na-unb-repudia-ataque-aos-direitos-humanos.

Alunos da UnB fazem protesto contra vandalismo de livros em frente à biblioteca. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/7080536/programa/.

Manifestantes protestam contra a destruição de livros na UnB. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2018/10/10/interna_cidadesdf,712015/manifestantes-protestam-contra-a-destruicao-de-livros-na-unb.shtml.

Bolsonaro tem melhor resultado no Datafolha entre ricos e escolarizados. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/04/1879995-bolsonaro-tem-melhor-resultado-no-datafolha-entre-ricos-e-escolarizados.shtml.

Limongi: “Líderes responsáveis não têm o direito de se isentar diante da insanidade de Bolsonaro”. Reportagem do “El País”, disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/10/politica/1539187153_593055.html?id_externo_rsoc=whatsapp.

Partido de Bolsonaro é o mais fiel a Temer. Disponível em: https://www.esmaelmorais.com.br/2018/07/partido-de-bolsonaro-e-o-mais-fiel-a-temer/.

Frei Betto: Vejo paralelo entre o momento atual e a eleição de Hitler na Alemanha. Disponível em: https://apublica.org/2018/10/frei-betto-vejo-paralelo-entre-o-momento-atual-e-a-eleicao-de-hitler-na-alemanha/.

JOGO SUJO: Em 12 horas, Haddad recebe 5 mil denúncias de 'fake news'. Disponível em: https://www.redebrasilatual.com.br/politica/2018/10/haddad-recebe-em-12-horas-por-whatsapp-5-mil-denuncias-fake-news.

Bolsonaro repete métodos de Donald Trump em sua campanha. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2018/10/04/bolsonaro-repete-metodos-de-donald-trump-em-sua-campanha/.

Guru da ultra-direita mundial e ex-assessor de Trump atua na campanha das redes sociais de Bolsonaro. Disponível em: https://www.revistaforum.com.br/guru-da-ultra-direita-mundial-e-ex-assessor-de-trump-atua-na-campanha-das-redes-sociais-de-bolsonaro/.

Anita Prestes: “O único meio de derrotar o candidato da direita é votar em Fernando Haddad”. Disponível em: https://nocaute.blog.br/2018/10/12/declaracao-de-anita-leocadia-prestes/.

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