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Fundação São Paulo acaba com eleição para reitor na PUC

‘Golpe contra a PUC vem, justamente, com movimentos conservadores da igreja que tentam afastar Papa Francisco’, avalia José Arbex Jr

Do GGN, 31 de agosto, 2018
Por José Arbex Jr 



Cardeal d. Odilo Scherer. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Jornal GGN - Na última quarta-feira (29) a reitora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Maria Amália Pie Abib Andery, foi surpreendida com um pacote medidas encaminhado pela Fundação São Paulo, mantenedora da instituição de ensino. Dentre as novas regras do decreto, está que, a partir da próxima gestão, o reitor não será mais eleito pela comunidade da PUC, assim como todos os cargos intermediários de chefia. O cardeal d. Odilo Scherer será o responsável direto pela escolha e, os demais cargos, serão definidos pelo reitor escolhido diretamente pelo líder da igreja Católica em São Paulo.

Em depoimento gravado em vídeo, o escritor, jornalista e professor da PUC-SP, José Arbex Júnior, destacou que a avaliação interna é de um levante dos setores de católicos conservadores contra o sistema democrático exercido pela instituição à décadas.

Pelas regras instituídas até então, alunos, funcionários e professores participavam diretamente da votação. Os três candidatos mais bem votados eram, então, submetidos à decisão do cardeal, arcebispo de São Paulo e presidente da Fundação São Paulo, d. Odilo.
"Na nossa opinião não é por acaso que esse golpe contra a PUC vem, justamente, em um momento em que os sistemas mais conservadores e fundamentalistas da Igreja Católica em todo o mundo, querem a demissão do Papa Francisco", pontuou Arbex Jr completando que, em São Paulo, o mesmo movimento se insurgem contra "espaços de liberdade que estão existindo hoje na igreja graças à militância do Papa Francisco".

Outro ponto preocupante do pacote é a aposentadoria compulsória de todos os professores com mais de 75 anos. Seria com o objetivo de apagar a sucessão da cultura história democrática na PUC-SP? Arbex lembra que, na instituição, já trabalharam nomes como o de Perseu Abramo e Paulo Freire.

"É difícil explicar, para quem não conhecer a história, a importância que tem a PUC. Durante a ditadura militar, quando a cúria aqui em São Paulo era comandada por Dom Paulo Evaristo Arns, a PUC representou um espaço importantíssimo de resistência à ditadura", pontuou o professor.

Há pouco mais de 40 anos, a PUC-SP protagonizou um dos eventos mais decisivos à derrocada da ditadura militar. Em 22 de setembro 1977, a mando do coronel Erasmo Dias, centenas de policiais, investigadores civis e tropas de choque invadiram a instituição de ensino, na ocasião em que ocorria o 3° Encontro Nacional dos Estudantes, e uma das pautas era a reorganização da União Nacional dos Estudantes (UNE), então proibida pelo regime.

Durante a invasão professores e estudantes foram atacados com cassetete e bombas de gás, vários estudantes foram pisoteados e queimados, alguns mortos e mais de 500 foram levados para um batalhão da PM, o Tobias de Aguiar, na avenida Tiradentes. A ação obrigou Dom Paulo Evaristo Arns a voltar com urgência de Roma realizando, nos dias posteriores, uma série de entrevistas contra a truculência dos militares. 

Com a decisão mais recente, Arbex acredita que a comunidade da PUC-SP terá que resistir e "fazer o que for possível para barrar mais essa medida autoritária".

"Vai ser difícil, mas com o apoio da sociedade brasileira eu acho possível barrar esse golpe", concluiu. Veja seu depoimento a seguir.

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