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Conceição Evaristo: a verdadeira imortal



Do GGN, 31 de Agosto, 2018
por Dário Neto



Eu entendo e me solidarizo às manas indignadas com o fato de Conceição Evaristo não ter sido eleita para a ABL. Contudo, toda vez que penso nesse museu, me lembro de Antonio Candido por dois motivos: primeiro, ele não compôs essa trupe. Enquanto Antonio Candido é presente como um grande pensador, analista e crítico do Brasil, a ABL é passado e depende exclusivamente da glória alheia - sobretudo a de Machado de Assis; segundo, em "Literatura e Subdesenvolvimento", Candido identifica esse movimento de fundar uma Academia aos moldes dos países europeus uma prática colonialista que até hoje vergonhosamente assassina a população negra e indígena no Brasil.

Com isso, Candido nos lembra que se tornar imortal nada tem que ver com esse colonialismo. Se o grande mestre Antonio Candido não coube na ABL para vergonha dela mesma, quanto mais Conceição Evaristo, muito maior que o mestre, pois tendo, semelhante a ele, a argúcia de ler o mundo, o supera por conseguir transformar esta capacidade analítica em poesia. Certamente Evaristo é muito grande para a ABL.

Os Acadêmicos tentaram várias vezes convencer Candido a se candidatar e ele sempre rejeitou gentilmente. Quando o mestre e amigo de Candido, Fernando Azevedo faleceu, o acadêmico Chico Barbosa procurou-o durante o velório para convencê-lo a disputar a cadeira vaga pela morte de seu mestre, o crítico alegou que não tinha espírito associativo. Em 1993, a ABL homenageou Candido com o Prêmio Machado de Assis, evidenciando a intenção de seduzi-lo a compor o grupo e novamente, ele rejeitou. A grandeza que buscavam para si com a associação deste grande crítico literário, certamente alcançariam com Evaristo. E por que não foram atrás dela ao invés de esperar que ela manifestasse interesse? E por que a rejeitaram quando poderiam ter laureado a coroa enferrujada dessa Associação? Pelo simples motivo de ela ser mulher e negra. Assim como aconteceu a Conceição Evaristo, também essa gente que há séculos se acham donas da Literatura Brasileira rejeitou a primeira romancista Maria Firmina de Menezes, a primeira poeta modernista negra Gilka Machado, rejeitaram Carolina de Jesus e tantas que ainda estamos descobrindo. Isso só mostra o quanto esta Academia é pequena, muito pequena.

Dário Neto é Doutor em Literatura Brasileira pela USP com a tese "A pena do cronista: a presença das crônicas nos romances machadianos", Professor Colaborador em Teoria Literária na UNESPAR e autor do livro de contos Candelabro.

Nota 1

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