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Se o ecossistema não cresce...




Da página domtotal.com, sexta-feira, 18 de setembro, 2015
Por Marcus Eduardo de Oliveira

Toda vez que a economia científica (paradigma neoclássico) exige e acentua a necessidade de fazer a economia crescer, muito mais longe ficaremos da adoção de uma séria política de sustentabilidade, dificultando assim alcançarmos três fundamentais esferas em nosso modo de viver: i) o desenvolvimento das tarefas economicamente eficientes, pautadas no desenvolvimento tecnológico verde – edifícios, automóveis, cidades sustentáveis; ii) o estabelecimento de padrões socialmente includentes; e, por fim, iii) a conscientização ampla de passarmos a ter uma visão ecologicamente equilibrada em todas as nossas ações cotidianas.

Enquanto os modelos econômicos continuarem, pois, exercendo forte carga entrópica (pressão) sobre a natureza, enaltecendo o paradigma do crescimento (cujo modelo é extrair-produzir-descartar-poluir) como objetivo supremo das políticas públicas, sustentabilidade não passará de cristalina quimera conceitual.

Só haverá sustentabilidade, de fato e de direito, quando for posto em prática um modelo econômico que respeite os sistemas ecológicos, pautando-se na busca do equilíbrio ambiental a partir do estabelecimento de uma relação de parcimônia entre os sistemas econômicos e os sistemas naturais, notadamente os fundamentos ecológicos.

Sem essa condição, a busca pela sustentabilidade não passa de mera utopia, como aduzimos acima. Enquanto a economia neoclássica continuar não reconhecendo os indispensáveis elementos da natureza dentro da função produção será muito difícil fazer a reversão para um modelo de produção que aponte para a imprescindível necessidade de diminuir o ímpeto do crescimento econômico, condição essencial para o alcance do equilíbrio ecológico.

Além da eliminação desse modelo doentio de produção em excesso ora em curso, algumas etapas não menos importantes que a obtenção de uma política de sustentabilidade precisa ser cumprida e respeitada, para que se aprofunde o grau de consciência ecológica frente à total exploração desregrada dos recursos naturais.

Uma dessas etapas diz respeito a não ser mais possível entender o dinamismo de um sistema econômico que “funciona” de forma dissociada dos serviços ecossistêmicos, longe, portanto, do meio ambiente.

Para aqueles que respondem em nome de mais produção econômica para mais consumo, é preciso enfatizar que, para a obtenção dos objetivos econômicos, antes, faz-se necessário levar em conta a existência física de limites impostos pela natureza.

Dessa forma, é preciso então ter de forma clara a ideia corrente da economia ecológica que tenta pôr freio à expansão da economia, uma vez que é a natureza que determina os limites do aumento da produção física de uma economia.

Lamentavelmente, o único limite que a economia convencional enxerga para expandir sua sanha produtiva e, assim, atender aos ditames do mercado de consumo, é em relação ao capital monetário, nunca em relação ao capital natural.

Enquanto houver disponibilidade de recursos monetários, liquidez fácil, a produção física da economia continuará se expandindo, agredindo substancialmente os sistemas ecológicos.

E enquanto isso perdurar, não se pode ignorar uma realidade pontual: o sistema econômico continuará se desenvolvendo dentro do sistema ambiental, recolhendo da natureza matéria e energia e a ela devolvendo resíduos sólidos, líquidos e gasosos (lixo).

Portanto, o sistema econômico, desse modo, “operará” dentro do meio ambiente. Por isso é oportuno reiterar que a economia, que se assenta em fundamentos biofísicos, é um subsistema da biosfera que, por sua vez, “funciona” como suporte (base) para a própria economia.

Para que haja equilíbrio, o sistema de produção econômica não pode, em hipótese alguma, ultrapassar a fronteira e a possibilidade dos sistemas ecológicos em absorvê-los. Há limites a serem observados.

Assim, a “economia do crescimento” e o crescimento da economia, buscados ilimitadamente, são insustentáveis frente à limitação (finitude) dos recursos naturais não renováveis.

Tendo em conta que a população e a economia crescem, mas a natureza não, se torna simplesmente uma condição delirante manter ad aeternum um crescimento contínuo da atividade econômica. O raciocínio, nesse caso, é bem simples: se o ecossistema não cresce e é finito, também à economia, que faz uso desse ecossistema, fica impossível crescer indefinidamente.

Mudar essa lógica é de importância vital para se construir um novo modo de organizar a economia cuja prioridade maior seja o estabelecimento de uma parceria com o sistema-natureza.

Como fazer isso? Clóvis Cavalcanti, uma das vozes mais elevadas e, por isso, respeitadas em torno desse assunto assim se posiciona:

1) promover um crescimento imaterial, expresso em mais saúde, mais cultura, mais lazer, afeto, solidariedade;

2) promover o desenvolvimento sustentável, outrora denominado ecodesenvolvimento(conservação da natureza aliado à perspectiva de desenvolvimento cuja finalidade ímpar visa conduzir à melhoria – mais qualidade - no chamado bem-estar, lembrando que crescimento sustentável é impossível, mas desenvolvimento, não, uma vez que crescimento e desenvolvimento não são sinônimos, grifo nosso!).

Por isso que o desenvolvimento sustentável bate de frente com o crescimento econômico, uma vez que este é obtido partindo-se dos mecanismos de exploração e degradação socioambiental.

Enquanto essa “lógica” de mais produção, mais consumo e menos meio ambiente, portanto, de completa degradação ecológica, não for radicalmente eliminada, as palavras iniciais deste artigo continuarão válidas e pertinentes, ou seja, alcançar a sustentabilidade, proporcionando possibilidades de continuidade de vida às espécies, não passará de mera utopia. 


Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia do UNIFIEO e da FAC-FITO, em São Paulo | prof.marcuseduardo@bol.com.br

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