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Memórias de Morin


  
Morin: pensamento complexo.
Morin: pensamento complexo.
 
Eu nasci em Paris a 8 de julho de 1921, na rue Mayran, 9º arrondissement, ao pé da colina de Montmartre” – primeira frase das memórias de Edgar Morin, em livro recém-lançado pela Bertrand Brasil (trad. de Clóvis Marques), onde dá livre curso às suas lembranças centralizadas na capital de seu país – uma Paris que ainda não era “apressada nem estressada”; que só a partir de 1960 se rendeu à “civilização do automóvel”. Atualmente, com 94 anos, Morin continua firme e forte, lúcido até a medula.
 
Em “Minha Paris, minha memória”, o conhecido pensador francês (“não sou um cientista, para os cientistas, nem um sociólogo para os sociólogos, nem um filósofo para os filósofos, nem um escritor para os escritores”) vai de sua infância, “transportada pelo bonde”, à maturidade metroviária na bela cidade-luz – de bairro em bairro e de rua em rua (e como Morin mudou de endereço!).
 
Paralelamente às muitas mudanças locais e materiais, ocorreram também outras mudanças – profissionais, amorosas e ideológicas. Enfim, uma vida de buscas e de conflitos, de relações e realizações em meio à guerra (2ª Guerra Mundial; guerra da Argélia) e à revolta (Maio de 68) – vívida e vivida com a enteléquia sempre ativa.
 
Do Liceu à Sorbonne, a descoberta do mundo e das artes – música (“eu sabia de cor movimentos de sinfonias, tocava-os imitando com a voz os instrumentos”); cinema (Pabst, Lang, René Clair, Renoir… – mais tarde, em 1956, publicará “Le cinéma ou l´homme imaginaire”); teatro (a peça “A gaivota”, de Tchekhov, o marcou); artes plásticas (ia ao Louvre para ver pintura italiana do Renascimento; e também a dançarina de Degas); e, sempre, a literatura (Montaigne e Anatole France; Tolstoi e Dostoievski). Viveu e estudou também em Toulouse (onde conheceu Violette, sua primeira mulher) e Lyon.
 
Mais adiante vem a guerra e o engajamento na Resistência, numa Paris “sinistra sob o peso da Ocupação” – meio vazia, com letreiros e placas em alemão; mesmo assim a vida continuava nos teatros e cinemas; a França dividida territorialmente, mas também ideologicamente: colaboracionistas e resistentes; entre estes, várias facções e muitas ações clandestinas – Morin se filia ao partido comunista.
 
No pós-guerra vem o desencanto com o stalinismo e a expulsão do Partido; o nascimento das filhas (Irène e Véronique); a procura de trabalho; contatos com amigos e intelectuais de peso (entre os quais, Marguerite Duras); inúmeros artigos para jornais e periódicos; ensaios e livros (hoje são mais de 30 títulos publicados!); a intensa participação em grupos de estudos e debates; a entrada para o CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica); viagens diversas (inclusive ao Brasil); amores e desamores (separações); desvios e desafios teórico-vivenciais.
 
Corajosa e conflituada, a trajetória de Morin foi sempre perpassada por um olhar poético – marca de um pensador que enfrentou a complexidade do mundo e das ideias; suas memórias se misturam à sua cidade natal: “a Paris das minhas amadas mortas e dos meus amigos mortos que continuam e continuarão vivos enquanto me restar um sopro de vida”.

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