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João Pereira Coutinho e a miopia conservadora


























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Do blog da boitempo, 10, julho,. 2015

Por Fabio Mascaro Querido

Quem acompanha suas colunas na Folha de São Paulo sabe que o escritor e jornalista português João Pereira Coutinho não esconde sua predileção conservadora, e que não hesita em defendê-la, se necessário, com a rispidez e a arrogância que caracterizam a “nova” direita contemporânea. Até aí, nada demais, muito pelo contrário: trata-se apenas de mais um representante de uma direita new-age que se acredita em luta contra a opressão gauchiste do politicamente correto, quando na verdade se configura como a ponta “vanguardista” da reprodução simbólica de um reacionarismo doravante bem estabelecido.

O problema aparece quando, na sua arrogância pretensamente desmistificadora, João Pereira Coutinho se revela incapaz de enxergar algo além daquilo que ele quer ver, tal qual se pode observar na sua coluna do dia 9 último na Folha (“Os horrores de Michael Löwy”, 09/06/2015). Ao que parece, Coutinho reprova Michael Löwy – sociólogo brasileiro radicado (por questões familiares, acadêmicas e políticas, e não apenas por “escolha”) na França há mais de 4 décadas – pela redução de todo espectro político e ideológico da direita ao que ele designara, em conversa com Eleonora de Lucena, como “modernismo reacionário”, que estaria na base da recente “onda conservadora” no Brasil.

Inventando um inimigo imaginário, não identificável na vida real, Löwy teria diluído as diferenças entre, por exemplo, a direita reacionária e/ou antidemocrática, e a “direita liberal”, “seja ela conservadora ou não”, acrescenta Coutinho, aquela “que procura resgatar para o Brasil os valores ‘liberais’ clássicos que são moeda corrente na cidade, no país e no continente onde, ironia das ironias, o ilustre sociólogo escolheu para morar”.

Enquanto a primeira seria de fato francamente hostil ao individualismo (e, no limite, às liberdades individuais) e, em muitos casos, a alguns aspectos do próprio sistema capitalista, a direita liberal, reivindicada por Coutinho, é abertamente defensora do capitalismo e, com sua “vocação antiautoritária”, “passou a marcar o ritmo das sociedades democráticas em que vivemos”. Ao misturar termos como “direita”, “conservadorismo”, “reacionarismo” e “capitalismo”, Michael Löwy teria recaído então em uma simplificação grosseira, incapaz de perceber que, no âmbito mesmo da direita, há divergências talvez ainda mais importantes que aquelas que demarcam a oposição esquerda-direita: a defesa ou a recusa do capitalismo e da democracia liberais.

Ora, a fim de forçar o argumento, Coutinho distorce as poucas afirmações de Michael Löwy reproduzidas pela jornalista. Ao sustentar que estaria em marcha no Brasil uma “onda conservadora”, ancorada em um “modernismo reacionário” no geral “favorável ao sistema capitalista, por mais que critique este ou aquele aspecto da vida política, como a corrupção e a má-administração”, Löwy não nega a inegável diversidade dos discursos políticos e ideológicos da(s) direita(s). Suasrecentes análises sobre a ascensão da extrema-direita na França e na Europaassim o comprovam.

No livro Revolta e melancolia (redigido em companhia de Robert Sayre), aliás, ora relançado no Brasil pela Boitempo Editorial, e o principal motivo da reportagem, mas o qual certamente Coutinho não se deu ao trabalho de ler, Löwy analisa as vertentes de direita do romantismo, revelando como o pensamento conservador pode assumir facetas tanto modernistas quanto românticas, a depender do autor, da corrente de pensamento investigada e, claro, do contexto histórico-político da época. A própria utilização da expressão “modernismo reacionário” deve ser compreendida à luz dos debates que se encontram nesse livro, que trata do romantismo como uma visão de mundo assentada em uma crítica cultural “moderna” da modernidade inspirada em valores pré-capitalistas ou pré-modernos, e que perpassa todo o espectro ideológico, da extrema-esquerda à extrema-direita.

Michael Löwy parece buscar, com a utilização do termo, sublinhar um processo político-ideológico concreto, caracterizado pela confluência no Brasil contemporâneo entre a direita “liberal” e a direita “conservadora” e“reacionária”, em uma articulação em torno de uma rejeição comum ao governo petista e de uma tentativa de retomar o controle do capitalismo brasileiro, recolocando-o nos trilhos da modernidade neoliberal (algo para o qual, na verdade, o próprio governo demonizado já se dispôs a fazer, em mais um paradoxo à brasileira). Os nostálgicos da ditadura militar que, sim, defendem a volta do regime de caserna e, ao mesmo tempo, são “favoráveis ao sistema capitalista”, seriam apenas – cito Löwy – “o aspecto mais sinistro” desse processo, nada mais e nada menos do que isso. São “modernos”, defensores do sistema, e reacionários, pois o fazem a partir de uma perspectiva autoritária e ressentida.

O que parece incomodar Coutinho, na realidade, é menos as eventuais imprecisões de Michael Löwy do que a insistência deste em afirmar algo que, em sinal invertido, o próprio jornalista português acaba por confirmar: o vínculo estreito entre as direitas (liberais, conservadoras, reacionárias e mesmo fascistas) e a defesa do capitalismo, ainda que em alguns casos esta defesa venha articulada a críticas pontuais a aspectos específicos da modernidade. Não é o próprio Coutinho quem, talvez num pequeno lapso, se regozija do fato de que até mesmo a “extrema-direita conservadora” (termo que ele imputa de forma irônica a Löwy, mas que aparece sem aspas na reportagem original) entendeu que, “historicamente falando, não existe ainda um sistema [como o capitalista] melhor para produzir riqueza e distribuí-la com a mesma eficácia”?

Em perspectiva oposta, é exatamente isso o que diz Michael Löwy: direitas e extremas-direitas estão unidas para “salvar” o capitalismo brasileiro e livrá-lo de uma ameaça imaginária, mimetizada na bandeira vermelha do PT, embora de vermelho este partido não tenha mais muita coisa, como bem destaca, aliás, o próprio Löwy, lamentando que outras organizações à “esquerda do possível” tenham, até agora, fracassado na imperativa necessidade de ocupar o espaço vazio deixado pela falência do projeto petista. Ousar apostar em uma saída diferente para a crise não apenas do capitalismo brasileiro, mas também internacional, é o que realmente irrita alguém como João Pereira Coutinho, aparentemente feliz e irredutível na sua resignação às benesses de um sistema que, “liberal” para os dominantes de turno, reserva sua violência (física ou simbólica) aos dominados.

Fabio Mascaro Querido, 29, é doutorando em Sociologia na Unicamp, com estágio realizado na École de Hauts Études en Sciences Sociales, na França.

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