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Cantata para um bastidor de utopias



Do Blog da Boitempo, quinta-feria, 02 julho, 2015

Federico Garcia Lorca, um poeta a ser abatido, como – aliás – parece ser o destino de muitos poetas que cantam o amor e a liberdade sob regimes totalitários.

Em 1936 Lorca foi covardemente fuzilado pelo fascismo franquista, esse mesmo fascismo que atravessando tempos, oceanos e agora modernizado pelos cabos de fibra ótica e satélites, anda se esgueirando por ruas, restaurantes, shoppings e hospitais brasileiros. Sem falar nos ninhos coalhados de filhotes da serpente espalhados pelas redes sociais, esse nome pomposo que pode servir de tribuna aos homens dignos, mas que vem se transformando no grande refúgio dos imbecis.

A obra poética e dramática de Lorca, espanhol da Andaluzia é densamente rica em sentimentos de amor e solidariedade entre homens e mulheres, carregada pela paixão ibérica dos amores trágicos, das castanholas, dos xales negros e flores nos cabelos e também do passo doble.

Bodas de Sangue, Yerma, A Casa de Bernarda Alba, em teatro, e o Romancero Gitano em poesia, são alguns marcos dessa caminhada do poeta, interrompida ainda enquanto jovem pelos falangistas espanhóis, naquela que foi uma das mais sangrentas batalhas entre irmãos, a guerra civil que marcou profundamente a Espanha.

Uma sua outra tragédia, ao mesmo tempo política e revolucionária, talvez menos conhecida entre nós, Mariana Pineda, foi encenada em São Paulo pela Cia. Do Tijolo, numa temporada que se iniciou em 2013 e a que ainda tive a felicidade de assistir em sua última noite no TUSP.

Um espetáculo soberbo em sua concepção cênica, onde o grupo presta comovente homenagem aos mortos e desaparecidos brasileiros vítimas da ditadura civil/militar de 64 no Brasil em forma de cantata. E através dos versos do poeta andaluz.

Cantata para um Bastidor de Utopias é uma criação coletiva que durante três horas e meia de espetáculo convoca o público a um passeio pela dignidade e pela luta de centenas de brasileiros, e não só, que perderam suas vidas na luta contra o arbítrio. E o faz com o sentido atento para os diálogos e os versos que cantam a epopéia de uma heroína espanhola do século XIX que, para não denunciar seus companheiros antimonarquistas é condenada a morrer na forca.

Paralelismo unido pela poesia e pelas utopias que forjam o progresso e as relações humanas. Apaixonada, Mariana Pineda borda a bandeira dos liberais em confronto com a monarquia espanhola. Age, ama e enfrenta o poder dos homens à sua volta, não cedendo ao desejo dos seus verdugos. Assim como muitas mulheres que enfrentaram a ditadura civil militar brasileira, como Iara Iavelberg, Heleny Guariba, Inês Etiene Romeu e tantas outras.

Sob a emoção de músicas e sons que misturam as terras brasileiras e ibéricas, fenômeno cultural já salientado por Ariano Suassuna em algumas de suas obras e palestras, nós espectadores rimos e choramos diante da tragédia anunciada, mas jamais dimensionada em seu significado individual, daqueles que lutaram e lutam coletivamente.

O espaço cênico, muito bem aproveitado, aproxima o drama de diversos passados ao real e ao presente de uma plateia que vive o dia a dia de um país desunido com alguma violência nos últimos dois anos. Nesse jogo de ideias e sentimentos que é o teatro, Federico Garcia Lorca é o anfitrião vestido de versos e gravata borboleta que recebe em sua obra o poeta brasileiro, ambos identificados pela dor dos que sofrem no amor e nas lutas políticas.

Sonhar mais um sonho impossível já cantavam os versos do também musical ‘O Homem de La Mancha’ que mostra a obra e a vida de outro escritor e poeta espanhol, Miguel de Cervantes. Entre os dois poetas, o Renascimento, o humanismo.

E de sonho em sonho caminhamos à procura do impossível. Caminhada difícil, desencorajadora para muitos, obsessiva para outros, mas que têm a capacidade de se renovar de tempos em tempos nos bastidores das utopias.

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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