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DAMARES ALVES PRECISA PERDER O MEDO DE MENINOS BRINCANDO DE BONECA. E A ESQUERDA PRECISA CONVERSAR COM ELA.



Do Intercept, 8 de Dezembro de 2018

Por Tatiana Dias


A NOMEAÇÃO de Damares Alves para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos causou arrepios na esquerda. Advogada e ativista, ela é também assessora do ex-senador Magno Malta – que foi, ele próprio, cotado para a pasta, mas escanteado por Bolsonaro – e pastora evangélica. Para uma esquerda que até hoje condena Marina Silva por sua religião, o caminho natural seria jogar pedras em Alves pelo mesmo motivo. Foi o que aconteceu.

A recém-nomeada Damares Alves – segunda mulher a preencher a cota feminina da gestão Bolsonaro – já disse que “homens e mulheres não são iguais”, que “os meninos terão de entregar flores para as meninas na escola”, que “quer um Brasil sem aborto”, que “gravidez é um problema que só dura nove meses” e outras pérolas que despertam os sentimentos mais primitivos em qualquer um que defende, minimamente, igualdade de gênero.

Não faltam vídeos no YouTube com entrevistas dela, digamos, polêmicas para a ala progressista. Um dos primeiros que aparecem no Google, largamente explorado pela imprensa, tem pérolas de fácil viralização ditas pela agora ministra. “Eu gostaria de estar em casa toda a tarde, numa rede, balançando, e meu marido ralando muito, muito para me sustentar e me encher de joias e presentes. Esse seria o padrão ideal de sociedade”, ela declarou, para arrepios, com razão, do movimento feminista.

Sejamos honestos: Damares fala exatamente o que o seu público quer ouvir. Os conservadores estão aplaudindo sua escolha, cirúrgica para extirpar a “ideologia de gênero” nas escolas. Mas, para quem fica indignado com o que ela diz, dou a dica: entre as frases polêmicas, um esforço de empatia com a ministra evangélica consegue encontrar vários pontos convergentes com o que a ala progressista pensa.

Em uma fala razoável que evidentemente foi cortada na edição lacrativa de uma entrevista, Alves diz que é possível “o homem dividir as atividades com a gente”. “Isso já acontece. Os homens já estão participando das nossas atividades, dividindo. É possível nesse mundo moderno, que está imposto, que está aí, conciliar a vida profissional com a vida doméstica. Especialmente com o papel de ser mãe”, ela disse. “Dá para a gente ter carreira, dá para a gente competir, dá para a gente entrar no mercado de trabalho, mas também dá para a gente ser mulher e mãe.”

Não é fácil superar a indignação e olhar para o discurso de Damares Alves procurando seus pontos fortes – mas essa técnica argumentativa é importante para criar canais de diálogo com o novo governo. A ministra soa razoável no trecho suprimido do vídeo. Seu discurso conversa com muitas mulheres e mães brasileiras. O problema é que sua premissa está errada: sua visão de maternidade é romântica e passa longe da realidade de grande parte das mães, que são desassistidas pelo estado, pelos empregadores e pelos próprios pais de seus filhos.

Se a infância e a maternidade forem mesmo uma pauta central da nova ministra, e levadas a sério, com políticas públicas baseadas em evidências, sua gestão vai precisar superar o fundamentalismo evangélico – e tocar em feridas que atormentam homens que não gostam de limpar a casa. É aqui que a ala progressista pode mostrar o caminho (se conseguir conversar com o governo, é claro).
Louça lavada

A divisão de tarefas domésticas é uma bandeira feminista. E, olha só, parece ser também de Damaris Alves. Só que a ministra, quando diz que os homens estão ajudando em casa, está errada. No Brasil, as mulheres trabalham 72% mais do que os homens em tarefas domésticas. Em média, nós passamos 20 horas semanais cuidando da casa e dos filhos – contra 11 horas deles. O invisível trabalho doméstico não é remunerado e é ao mesmo tempo causa e consequência da menor inserção das mulheres no mercado de trabalho. Já que a gente não vive na sociedade em que – suspiros – as mulheres ficam na rede enquanto os maridos as sustentam, precisamos educar os homens a lavarem a própria louça. Caso contrário, continuaremos trabalhando mais e ganhando menos, mesmo estudando mais.

Como se faz isso? Discutindo papéis de gênero (ops) desde cedo, oras. Na escola. Sim, escola. Dando cozinhas de brinquedo e panelas para os meninos. Ensinando que esse tipo de coisa não é “de menina”. Coisa que Bolsonaro já declarou que não quer, e que Damares Alves e seus colegas evangélicos costumam combater com veemência.

Ministra, por favor, de mulher para mulher: a gente só vai conseguir conciliar vida profissional com a doméstica se os homens aprenderem que precisam limpar depois de sujar.
Para muitos homens brasileiros, criança é assunto de mulher.

Na mesma entrevista que serviu de material para a revolta da esquerda, Damares Alves fala, com brilho nos olhos, sobre ser mãe. Vítima de abuso quando criança, e incapaz de gerar um filho biológico, ela adotou uma criança indígena. E diz que ser mãe é a tarefa mais importante de sua vida.

Não tenho como discordar. O problema, ministra, é que ter um filho é muito difícil em um país como o Brasil. Primeiro, a gravidez: a mortalidade materna, depois de uma forte queda, tem subido nos dois últimos anos. Mães pobres e negras são as que mais sofrem em consequência de problemas gestacionais – e 90% deles poderiam ter sido evitados. Essas mulheres, vale lembrar, também são as que mais morrem em consequência de abortos ilegais.

Depois, ao contrário do que você diz, os problemas não terminam quando o bebê nasce. Eles começam. Com o filho nos braços, as mães brasileiras têm de enfrentar outra dificuldade crônica: não conseguem vagas em creches. Uma em cada três crianças entre zero e 3 anos não tem assistência do estado, segundo dados do IBGE deste ano. Isso implica que a mãe deixe de trabalhar para ficar com seu filho, que outra mulher assuma esse papel ou que a criança acabe nas mãos de um parente ou vizinho – com riscos que Damares, como militante contra a violência e abuso sexual de crianças, certamente conhece bem.

A falta de assistência pública para a primeira infância nos leva a outro problema que está sob a alçada do novo ministério: a questão salarial entre homens e mulheres, um problema que a nova ministra já avisou que não vai tolerar. Bom, então Damares Alves precisa saber que inúmeras pesquisas mostram que a maternidade é determinante na redução salarial das mulheres. Sim, a maternidade, essa bênção, é o que puxa os salários das mulheres para baixo. No Brasil, em média, homens ganham 30% mais do que mulheres, segundo dados divulgados nesta semana pelo IBGE.


Esse gráfico mostra a evolução nos salários de homens e mulheres no Brasil. A subida é estável até chegar na idade fértil, quando mulheres se estagnam e homens continuam crescendo.

Reprodução/Fipe

Enquanto eles crescem na carreira de forma estável, as mulheres têm de fazer uma pausa – ou, pelo menos, deixar de ascender. Isso acontece porque as mulheres param o que estão fazendo para ter filhos e os homens não (só os ridículos cinco dias de licença-paternidade). Uma possível saída seria rever as políticas brasileiras de licenças parentais, ampliando o tempo e estendendo o benefício aos homens. Damares Alves é defensora da proximidade entre pais e filhos – e os benefícios da presença, especialmente na primeiríssima infância, estão muito bem documentados. Só que, sejamos realistas, um governo que quer flexibilizar direitos trabalhistas no nível da gestão Bolsonaro dificilmente aceitaria qualquer tipo de extensão de licenças. É, deixa as crianças para lá.

Então, quando a ministra fala que “nenhum homem vai ganhar mais que uma mulher nessa nação desenvolvendo a mesma função”, precisa levar em conta o sistema que provoca essa desigualdade e que impacta em questões fundamentais da primeira infância. Se Alves vai mesmo criar um grande pacto de proteção à infância, como anunciou em sua primeira entrevista como ministra, precisa garantir assistência integral para as mães e seus filhos – e isso inclui perturbar o empresariado e seus colegas ministros ultraliberais sobre os problemas decorrentes da precarização no trabalho, por exemplo.
Medo de boneca

Em um debate presidencial no primeiro turno, Jair Bolsonaro disse que não queria “filho seu brincando de boneca”. A própria Damares Alves, em um culto, mostrou indignação com um livro chamado “Menino brinca de boneca?”, recomendação do Ministério da Educação. Ela mencionou a existência do livro e contou a história de uma professora que teria um aluno de três anos que estaria, em suas palavras, “chupando o pipi” do coleguinha e que teria sido repreendida pela diretora da escola que disse que isso é uma “manifestação homoafetiva”.

Eu tentei, mas não consegui entender a lógica de insinuar que, por brincar de boneca, um menino seria incentivado a ser gay – ou mesmo que isso seria um apelo à erotização precoce. Essa é uma falácia muito defendida pelo conservadorismo, e que, infelizmente, reforça os papéis de gênero (eu sei, eu sei) na sociedade – e, com eles, as consequências que o machismo estrutural acarreta na vida das mulheres, crianças e famílias.

Os resultados desse tipo de ideia estão por aí. Para muitos homens brasileiros, criança é assunto de mulher. No Brasil, hoje existem mais de cinco milhões de crianças abandonadas pelos pais – uma epidemia social. Nos últimos 15 anos, o número de casas chefiadas por mulheres dobrou – hoje 40% dos lares brasileiros são compostos por mulheres que, além de cuidar dos filhos, precisam garantir comida no prato todos os dias.




Trecho do livro que, por alguma razão, Alves diz que incentiva a homossexualidade.

Foto: reprodução

Então, quando os evangélicos e apoiadores do Escola Sem Partido se horrorizam com a “ideologia de gênero” nas escolas, também precisam lembrar que grande parte das famílias brasileiras foge do padrão pai-e-mãe, e segue o padrão mulher-sozinha-sobrecarregada. Garantir que coisas fundamentais, como proteger o próprio corpo e criar limites, sejam discutidas na escola, é também garantir que as crianças sejam protegidas.

Damares diz que quer um Brasil que “priorize políticas públicas de planejamento familiar”, mas precisa lembrar que os brasileiros começam a transar aos 16 anos, em média – queiram as igrejas evangélicas ou não – e ensinar esses adolescentes a se proteger é, sim, dever do estado. Em um vídeo, a ministra reclamou de uma máquina de camisinha em uma escola, afirmando que aquilo incentivaria os adolescentes a transarem. Bom, a realidade não é a mesma das igrejas, e, se a ministra tentar nivelar a sociedade com a régua evangélica, vai falhar miseravelmente. As igrejas não vão controlar a natureza humana. Os adolescentes que quiserem transar vão transar. Mas sem camisinha se não forem ensinados a usá-la.
Onde as pautas se encontram

Esse mesmo vídeo motivou muitas risadas progressistas porque Damares Alves teria dito que o “ponto G” era invenção do PT. Não foi bem assim. A pastora reclamou de uma cartilha que mencionava a existência do ponto G e dizia que isso era desnecessário para crianças de dez anos. É um ponto de vista menos viralizante, eu sei, mas exagerar no posicionamento fundamentalista da ministra não nos ajudará a olhar para frente. Damares Alves é muito conservadora, parece ter pavor do autoconhecimento e de masturbação e acha realmente muito preocupante que as meninas conheçam sua própria vagina e que crianças saibam que existem pessoas que sentem atração pelo mesmo sexo. Essa é sua posição aberta – não precisamos exagerá-la.

O desafio de acompanhar o governo Bolsonaro é superar as declarações polêmicas. Convenhamos: não dava para esperar nada muito diferente para o ministério, que já estava nas mãos dos evangélicos – muitos deles, aliás, consideram Damares Alves avançada demais (sim). Nas críticas à ministra, a ala progressista parece ter esquecido que o país elegeu Jair Bolsonaro e o seu discurso reacionário. Mas vai precisar aprender a dialogar com esse governo.

O desafio de acompanhar o governo Bolsonaro é superar as declarações polêmicas.


Uma das técnicas para isso é chamada de “princípio da acomodação racional”: ela diz que precisamos tentar compreender o ponto de vista do interlocutor, buscar sua melhor interpretação e, inclusive, reconhecer a sua força. Damares Alves, que preferiu não ficar em casa sendo sustentada pelo marido, fala com propriedade sobre defesa da família e proteção de crianças. São brigas legítimas. Por mais que a ala progressista esperneie, seu discurso tem muito eco na população brasileira – o medo da mamadeira de piroca que o diga.

Muito do que Alves defende está, ou deveria estar, acima de qualquer polarização. Suas pautas – direitos das mulheres, combate à violência, proteção da infância e salários iguais para homens e mulheres – não são exclusividade do campo conservador. Também são bandeiras progressistas. Não buscar pontos de convergência significa permitir que apenas os conversadores (que é quem tem o poder nas mãos hoje) agitem essas bandeiras. Se Damares Alves pretende proteger a infância e as mulheres, então que leve em conta a realidade para isso. E é por aqui, nos caminhos para isso, que a ~resistência precisa atuar. Menos lacração e mais debate.

Com a inevitável realidade de um governo conservador, o papel da esquerda é mostrar que, sim, tudo o que ela diz defender sobre proteção à infância e às mulheres passa por discutir questões de gênero (última vez que eu escrevo “gênero” nesse texto, juro), os papéis de homens e mulheres e iniciativas que promovam igualdade baseadas na realidade.

Damares Alves precisa saber que não são os ideais evangélicos que vão proteger as crianças e mulheres, mas políticas pragmáticas e baseadas em evidências. Especialmente porque 60% das mulheres jovens – público que seu ministério terá de cuidar – rejeita Bolsonaro. A nova ministra vai precisar entender que vive em um estado laico e que, embora seus colegas de governo tenham medo de menino brincando de boneca, é esse tipo de política que traz os resultados que ela diz que vai buscar.

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