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Tarso Genro: prisão de Lula impede PT de debater futuro do partido

Para o ex-ministro da Justiça, porém, partido terá que enfrentar, cedo ou tarde, 'discussão profunda' sobre sua atuação política.
Da Carta Capital, 30/11/2018

por Marina Gama Cubas
Pedro Revillion/Palácio Piratini

Para Tarso Genro, modelo de união da esquerda portuguesa pode ser alternativa para a brasileira.

Às vésperas de um encontro de dirigentes petista em Brasília, Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul e ministro nos governos Lula, conversou com a CartaCapital sobre os pontos que considera mais urgentes para uma renovação do partido.

Genro é uma voz dissidente da corrente que hoje preside a legenda e não deixou de refletir sobre o futuro da esquerda e os caminhos possíveis para que o PT. Interlocutor de Fernando Haddad, tem dialogado também com pensadores e políticos estrangeiros e enxerga o modelo parlamentar português um bom exemplo a ser seguido no Congresso de 2019.

“A forma através da qual a esquerda portuguesa continua sua unidade foi não falando sobre suas divergentes e buscando sempre a convergência”, diz. Ele conta que os distintos partidos de uniram para trabalhar por uma agenda unitária, mesmo que pequena e, progressivamente, alargando o espectro de programas em comum.

O ex-ministro de Lula vê na postura defensiva que o PT teve que assumir nos últimos anos o impeditivo para que o PT possa pensar de forma profunda seu futuro. "O PT está num processo defensivo há muito tempo, desde o momentos que se iniciou um cerco conservador contra o governo da presidenta Dilma, e praticamente o PT não desenvolveu, nos debates que deveria ter desenvolvido, direcionamentos para se encontrar com o mundo atual", afirma.

Ressalva, porém, que a sigla perdeu oportunidades também. "Nos governos Lula, o partido passou por um período muito triunfalista, mas não fez nenhum esforço para desenvolver um pensamento crítico novo do sistema de dominação atual." Leia a entrevista a seguir:

CartaCapital: Um dos assuntos que o senhor considera central para a discussão dentro do PT é a definição do caráter da frente política que o PT deve apostar daqui para frente? Como deveria ser na sua opinião?
Tarso Genro: Acho que os partidos do campo da esquerda e centro-esquerda devem considerar, na sua estratégia política, na verdade um conjunto de frentes que irão se formar, em consonância com o desenvolvimento do processo político concreto: frente nos movimentos sociais reais, tratando de temas que serão diversificados segundo os conflitos em curso; frente no parlamento, que penso deva se formar a partir de uma agenda mínima positiva, em que os partidos poderão atuar unitariamente com um programa mínimo convergente (desbloqueamento do orçamento, defesa de recursos para educação saúde e segurança, propostas de alternativas às reformas da previdência e trabalhista etc.); e frente política, de partidos de esquerda e centro esquerda, para ir forjando, desde logo, um programa unitário estratégico para retomar o Governo nas próximas eleições e assim reencaminhar, no Brasil, o Estado Social.

Todas estas "instâncias" frentista se comunicam, no processo político, mas são espaços distintos de luta e de produção de ideias. Esta última instância frentista - a mais importante em termos estratégicos - não pode ser formada a partir do pressuposto de que algum partido seja automaticamente hegemônico.

CC: Nos últimos anos o PT se distanciou dos movimentos sociais. De que forma ele pode retomar esse vínculo?
TG: O PT não se distanciou dos movimentos, os movimentos mudaram. Hoje temos um conjunto de movimentos sociais que não tem nenhum partido que abranja de forma mais organizada e não tem diálogo mais permanente. Temos o Movimento dos Sem Terra, o movimento dos pequenos agricultores, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, os movimentos ambientalistas, os movimentos de gênero. Há uma variedade bem maior do que 20 anos atrás.

Os partidos de esquerda tem que considerar isso para saber se aproximar de uma forma mais íntima e menos controladora desses movimentos. Para alimentar politicamente esses movimentos, aprender com eles, e também ajudá-los a construir suas lutas de uma maneira autônoma em relação os partidos.

CC: Quando você fala em aprender com eles, acha que faltou humildade para ouvir esses movimentos? Porque eles estão ai já há alguns anos, firmes e fortes.
TG: Eles adquiriram importância muito maior agora do que há oito anos. Não se trata de mais ou menos humildade. Trata-se de uma necessidade de renovação da esquerda, em escala mundial, que ela compreenda que as estruturas de classe do capitalismo permanecem as mesmas - as desigualdades sociais, os confrontos de interesses de classe - só que adquiriram formas diferentes, com demandas diferentes. São demandas radicalmente economicistas ou demandas novas que não estão incorporadas na agenda dos partidos. Os partidos precisam ter programas mais adequados e contemporâneos à realidade que vivemos. As questões de interesse de classe permanecem latentes e fundamentais, mas não são mais as únicas.

CC: O PT está de braços abertos para receber essas novas demandas dos movimentos? O quanto isso pode ser solucionado de forma imediata?
TG: Nada é imediato. O PT está num processo defensivo há muito tempo, desde o momentos que se iniciou um cerco conservador contra o governo da presidenta Dilma, praticamente o PT não desenvolveu, nos debates que deveria ter desenvolvido, direcionamentos para se encontrar com o mundo atual. Essa defensibilidade prejudicou a produção desse pensamento crítico.

Nos governos Lula, o partido passou por um período muito triunfalista, mas não fez nenhum esforço para desenvolver um pensamento crítico novo do sistema de dominação atual. Agora, se essa direção vai encaminhar ou não essas questões na reunião, eu não sei.

CC: Isso foi um erro, uma inabilidade ou uma situação imposta?
TG: Não estávamos preparados para enfrentar. Isso não é uma coisa só do PT, mas um conjunto da esquerda no geral. Nós, do PT, não soubemos enfrentar.

CC: Você fala de uma agenda positiva e convergente numa frente parlamentar. Considerando a cultura política do Congresso brasileiro, acredita ser possível construir isso nos próximos quatro anos?
TG: Nesse particular, temos que observar isso aí a partir do exemplo português: ter uma agenda mínima, pequena e unitária que poder trabalhar em conjunto e, então, progressivamente ir alargando o espectro da unidade. A forma através da qual a esquerda portuguesa continua sua unidade foi não falando sobre suas divergentes e buscando sempre a convergência. Se é possível ou não fazê-lo aqui depende da habilidade, da capacidade e da força dos agentes políticos que vão construir isso - direção dos partidos e pessoas mais preparadas que estão no parlamento.

CC: A luz do que ocorreu nas eleições deste ano, em que se tentou construir uma união da esquerda e partidos progressistas, não acha difícil conseguir trazer esse modelo ao Brasil?
TG: Isso aí foi determinada pela forma como as nossas grandes lideranças operam em momentos críticos como esse. Não é uma questão de cultura política do País. Em outros momentos houve grandes unidade para dar sustentação para determinados projetos. Claro que a situação agora é mais complexa, mas não é impossível.

CC: O PT prevê que haverá quatro anos críticos.
TG: Sim.

CC: Não foram justamente em momentos críticos que o PT ficou limitado para pensar novos rumos, como o senhor falou?
TG: Precisamos partir da premissa que a práxis ensina.

CC: Você está dizendo que é necessário ser otimista?
TG: Mais que otimista, a gente tem que ser ousado para sair dessa situação que estamos agora. Isso não é uma coisa fácil, mas se não tivermos ousadias e boas propostas o bolsonarismo vai destruir o país.

CC: Quando o senhor fala sobre o pressuposto de que algum partido seja automaticamente hegemônico, você fala do PT. É uma ideia enraizada dentro da sigla?
TG: É um discurso equivocado. A hegemonia é uma posição conquistada e as pessoas têm que entender que essas posições conquistadas são contingentes, não são estruturais.

A posição se torna uma posição hegemônica estrutural quando o ator político está no poder e exercer uma direção política consentida. Agora isso não existe. Essa direção política consentida tem que ser conquistada. Então o PT, como um campo da esquerda, tem que compreender isso e dar o exemplo para seus aliados, para que se possa montar um novo aparato político democrático.

CC: Como fazer a direção perceber que o hegemonismo político não é o caminho para os próximos anos?
TG: Tem que partir do debate político e tem que ser exemplado pelo PT esse debate por ser o maior mais forte. Essa é uma elaboração interna que O PT tem que fazer para se credenciar a partir disso e não a partir da sua força meramente eleitoral.

CC: Como, na sua opinião, deve ser a oposição feita ao governo Bolsonaro e quais as propostas que o PT deve apresentar para o futuro?
TG: A oposição deve atuar em dois níveis de luta bem claros, na minha opinião. Primeiro, bloquear as reformas que visam desmontar o que nos resta de Estado Social e, de outra parte, divulgar amplamente propostas concretas sobre cada tema em debate, para promover uma consciência majoritária na sociedade de que o liberalismo rentista não é o único caminho. Segundo, apresentar a proposta de um novo sistema de proteção social e laboral de renda mínima, para os "meia-jornada", intermitentes, precários e terceirizados de baixa renda, como tarefa central da esquerda pensante, para que estes trabalhadores não sejam levados à semi-escravidão e ao "apartheid" dentro do próprio mundo trabalho, que está sendo diluído e reconstruído pelas reformas". Sem isso, a esquerda vai colaborar, pela omissão, para uma desorganização profunda das massas assalariadas e para o aprofundamento da sua marginalização política.

CC: Quais relações internacionais devem ser privilegiadas para a construção de um novo projeto do PT em meio à crise de legitimidade dos partidos?
TG: Diversidade total de pontos de apoio no sistema global, negociando políticas e intercâmbio -comercial e cultural- com países e blocos que aceitem formas de cooperação interdependente com soberania, sem alinhamento prévio.

CC: Pode explicar melhor?
TG: As nossas relações internacionais não devem ter uma seletividade ideológica. A seletividade que devemos ter tem que estar fundada nas necessidades econômicas e políticas do País de maneira democrática, para se relacionar com todos os países que tenham interesse e relações de cooperação, seja os EUA seja a Coreia do Norte, aliás como todos os países fazem.

CC: Você disse que o temas mais urgentes não deverão ser discutidos com o aprofundamento que merecem. Por quê?
TG: Eu acho que o que prejudica muito a discussão interna do PT é que na verdade o Lula se tornou uma espécie de refém do projeto neoliberal do país. Isso leva a uma situação de indignação dentro do PT e dos setores que apoiam o partido que o impedem de fazer discussões mais livres e abertas neste momento em função da situação daquela pessoa que tem sido uma espécie de auditor das grandes ideias políticas do partido. Independentemente disso, mais cedo ou mais tarde o PT terá que fazer essas discussões de maneira profunda.

CC: O PT está tão limitado como antes?
TG: É uma limitação política que o PT não soube superar. É uma limitação expressiva e que se tornou mais fortes diante dos ataques que o presidente eleito tem feito em relação ao partido e contra a esquerda aproveitando o cerco midiático.

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