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PASCAL LAMY: BRASIL PERDE AO ADERIR À GUERRA DOS EUA CONTRA O MUNDO



Do 247, 3 de Novembro, 2018


O francês Pascal Lamy, ex-diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC), faz um alerta diante do cenário político que se alastra pelo mundo e que tem em Bolsonaro no Brasil, possivelmente, sua expressão máxima; ele diz que o fracasso de políticos pelo mundo em garantir progresso econômico e um governo limpo, aliado a velocidade tecnológica e desconfiança nas instituições, abriu espaço para o surgimento de populistas da extrema direita; para ele, o Brasil perde ao se alinhar aos EUA

247 - O francês Pascal Lamy, ex-diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC), faz um alerta diante do cenário político que se alastra pelo mundo e que tem em Bolsonaro no Brasil, possivelmente, sua expressão máxima. Ele diz que o fracasso de políticos pelo mundo em garantir progresso econômico e um governo limpo, aliado a velocidade tecnológica e desconfiança nas instituições, abriu espaço para o surgimento de populistas da extrema direita. Para ele, não há dúvidas: as democracias correm perigo.

Ele destaca, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, que políticos estão idealizando o passado e colocando o presente em risco: "sabíamos que Hitler e Mussolini foram de alguma forma eleitos e acreditávamos que a vacina tinha funcionado. Mas não é o caso quando olhamos para deslizes perigosos ou sinais na Turquia, Hungria, Filipinas ou mesmo no Brasil".

O ex-diretor da OMC faz um alerta a EUA e China: "ou eles cooperam e o mundo será um lugar melhor, ou um EUA nacionalista vai querer agressivamente conter a China, que vai se desglobalizar como reação, e o mundo vai ficar um lugar mais perigoso".

Sobre o multilateralismo - que pode garantir a paz no mundo - ele diz: "o sistema baseado em regras multilaterais ajudou a abrir o comércio e promover o crescimento na maioria das economias, inclusive no Brasil, por muitos anos. Agora, está sob ataque pelos EUA que elegeram em 2016 um presidente que fez sua campanha numa plataforma mercantilista. Em outros lugares, o protecionismo é frequentemente, mas nem sempre, parte do discurso populista nacional. Mas até aqui com pouco impacto no comércio. As razões para essa nova situação são tanto domésticas como internacional. Os sistemas sociais domésticos nos países desenvolvidos foram incapazes de lidar de forma adequada com as dores que a globalização traz com suas eficiências e maior concorrência, portanto mexendo com os sistemas de produção. Desigualdades também aumentaram muito. Tanto pelo fato de sistemas de bem estar serem fracos - como nos EUA – ou por conta de seu encolhimento depois da crise de 2008, na Europa. No nível internacional, os livros de regras da OMC não foram ajustados às grandes mudanças durante as últimas décadas, inclusive, mas não só, com o surgimento rápido da China com seu sistema de capitalismo de estado. A velha forma de equiparar o jogo do comércio está fora de sintonia com as realidades do século 21. Se o ponto de Trump é de que a OMC precisa de reforma, ele está certo".

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