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O que pensa o próximo presidente da Petrobras?

Pós-graduado pela Universidade de Chicago, Roberto Castello Branco é próximo de Guedes e um entusiasta da gestão de Parente na estatal.
Da Carta Capital, 24 de novembro, 2018

José Cruz/Agência Brasil

Castello Branco defende a saída da Petrobras quase que integralmente do setor de refino e de distribuição.

Anunciado na segunda-feira 19 pela equipe de transição do presidente eleito, Roberto Castello Branco será o próximo presidente da Petrobras a partir de 1º de janeiro de 2019. Ex-integrante do Conselheiro de Administração da companhia no segundo governo de Dilma Rousseff, a indicação foi sugerida por Paulo Guedes, o futuro ministro da Economia, de quem ele é um velho conhecido.

Ambos pós-graduados pela Universidade de Chicago, tradicional escola do liberalismo norte-ameriano, Castello Branco já foi presidente executivo do grupo educacional Ibmec (1981 e 1984), instituição de ensino da qual Paulo Guedes foi um dos fundadores.

Atual diretor do Centro de Estudos em Crescimento e Desenvolvimento Econômico da FGV (Fundação Getúlio Vargas), o currículo de Castello Branco apresenta experiência na direção de diversas instituições financeiras até assumir o cargo de economista-chefe da Vale do Rio Doce (atual Vale), empresa onde ficou por 15 anos.

No setor público, Roberto Castello Branco também já atuou como diretor do Banco Central durante o governo de José Sarney. Quando conselheiro, Castello Branco ficou marcado pelos seus recorrentes desentendimentos com a diretoria da empresa, à época sob comando de Aldemir Bendine. Duas das críticas que mais se destacaram foram, primeiro, em relação ao regime de partilha no pré-sal – visto como “danoso aos interesses da Petrobras” – e, segundo, à política de conteúdo local.

Ainda do ponto de vista estratégico, em recente texto publicado no Valor Econômico, em maio, Castello Branco defendeu a saída da Petrobras quase que integralmente do setor de refino e de distribuição, em função da baixa rentabilidade desses setores em relação ao de exploração e produção, e também por uma suposta ausência de “competência para ser a dona natural desses negócios”.

Em relação à gestão microeconômica, o futuro presidente da Petrobras afirmou que não seria adequada qualquer intervenção da Petrobras sobre os preços, ou seja, que não deveria existir nenhum tipo de política de preços. Sugeriu ainda que os players do setor, a partir da demanda de seus clientes, deveriam definir o preço sob a lógica do livre mercado.

No último ano, Castello Branco se mostrou entusiasta da gestão Pedro Parente no comando da Petrobras. No mesmo artigo publicado pelo Valor Econômico, o economista endossava o foco da gestão nos investimentos voltados para as atividades de exploração e produção de petróleo (E&P) e a política de preços de paridade com o mercado internacional.

A visão de Castello Branco demonstra, portanto, que a gestão da Petrobras deve seguir fielmente a estrutura montada por Pedro Parente. Isto é, deve progressivamente se fragmentar perdendo sua característica de empresa integrada, focando cada vez na E&P principalmente do pré-sal, bem como deve se comportar com um player privado, adotando políticas de preço e de investimentos que visem maximizar o retorno de curto prazo.

Mas, qual o problema desse arranjo?

O setor de petróleo é altamente complexo e a definição de preços relativos, custos e investimentos não obedecem somente à uma lógica de curto prazo e do livre mercado, mas sofre mutações em função das expectativas de longo prazo, das transformações geopolíticas entre outros aspectos.


A crise dos caminhoneiros explicitou os desarranjos da política de preços volátil (Marcelo Camargo/ABr)

Em função disso, a maior parte das grandes petrolíferas globais atuam de forma integrada (não apenas no E&P, mas também em refino e distribuição) a fim de atenuar movimentos dos preços do petróleo e das oscilações da demanda de combustíveis.

Além disso, muitas delas estão posicionadas em segmentos de insumos petrolíferos, o que gera uma flexibilidade na gestão dos recursos extraídos pelas empresas. O setor de fertilizantes e petroquímico, por exemplo, são alternativas para o uso do petróleo e do gás natural.

Por fim, ainda cabe lembrar que muitas delas estão ingressando em segmentos de energia renovável para se posicionar de forma privilegiada nas cadeias envolvidas com a transição energética.

Essas decisões não decorrem somente da capacidade de rentabilizar ao máximo os ativos das petrolíferas, mas de uma visão estratégica complexa que envolve a análise da evolução de vários mercados no longo prazo, das mudanças geopolíticas e da própria capacidade de produção de petróleo no futuro.

No caso da Petrobras, além de todas essas questões, a crise dos caminhoneiros e petroleiros explicitou que uma política de preços altamente volátil cria desarranjos logísticos importantes, tendo em vista a dimensão continental e o peso do transporte rodoviários para o abastecimento de vários produtos em território nacional.

Jair Bolsonaro tentará impor, mais uma vez, uma gestão privada de curto prazo na Petrobras. Mas, como sempre na história do setor petróleo, será obrigado, em muitos momentos, a lidar com desafios extremamente complexos, cujas respostas não estão na lógica do livre mercado ensinada nos livros de macro e microeconomia.

* Rafael da Costa é mestrando em Ciências Sociais pela Unifesp, pesquisador visitante do Núcleo de Estudos Conjunturais da UFBA e assistente de pesquisa do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).

Rodrigo Leão é mestre em desenvolvimento econômico pela Unicamp, pesquisador visitante do NEC-UFBA e diretor técnico do Ineep.

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