Pages

O governo de Olavo de Carvalho

O ideólogo do bolsonarismo emplaca dois ministros, o da Educação e o das Relações Exteriores, e firma sua influência em Brasília.
Da Carta Capital, 24 de novembro, 2018

por Fred Melo Paiva — publicado 24/11/2018  
Reprodução
Carvalho, de astrólogo obscuro a Richelieu candango

Jair Bolsonaro acaba de escolher o professor colombiano Ricardo Vélez Rodríguez para o Ministério da Educação. É a segunda indicação de ministro feita pelo ideólogo do bolsonarismo, o autointitulado filósofo Olavo de Carvalho. O outro foi o futuro chanceler Ernesto Araújo, cuja retórica é muito semelhante àquela do padrinho. Assim como Rodríguez.

Bolsonaro chegou a cogitar para a Educação o executivo do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos. Embora filiado ao liberal Instituto Millenium, Ramos é crítico do Escola sem Partido e, diz Olavo, favorável à “ideologia de gênero”, uma obsessão de evangélicos e de bolsonaristas mais empedernidos.

“Mozart Ramos cotado para o MEC é palhaçada”, escreveu o “filósofo” no Twitter. A pressão, reforçada pela bancada de pastores no Congresso, funcionou. Rodríguez segue à risca a cartilha: abomina a tal “ideologia de gênero” e promete livrar a educação da “influência comunista”.

Em número de indicações para o futuro governo, Olavo só perde para o DEM, com três ministros. No tamanho de sua influência sobre Bolsonaros e “bolsominions”, seu sarrafo encontra-se muito acima dos demais. Ler o que escreve e ouvir o que diz são chaves para entender o momento atual. Na forma e no conteúdo, chega a ser engraçado.

No início de novembro fiz uma longa entrevista com Olavo de Carvalho. Foi uma conversa intrigante, embora, e até por isso, suas declarações me remetessem ao narrador de “A Lua Vem da Ásia”, de Campos de Carvalho, um personagem que pensa estar em um hotel quando na verdade está no manicômio.

Foi também um diálogo respeitoso, ainda que ele tenha uma estranha predileção pelas palavras “porra”, “cu” e “caralho”, com as vênias do leitor e a bênção de Sigmund. Pediu que, na edição final da conversa, não o classificasse como “fascista, filho da puta, assassino, matador de criancinha”.

Limitei-me a “Napoleão de hospício”. Mas Olavo, antes cordial, escreveu depois no Facebook: “O mínimo que tenho a dizer do repórter da Carta Capetal, Fred Melo Paiva, é que para chegar a ser um porco só lhe falta um pouquinho de QI (SIC)”. Para chegar a escritor, falta a Olavo dedicar-se às vírgulas.

Com o perdão daqueles que se encontram preocupadíssimos e com toda a razão, essa loucura começa a me parecer extremamente engraçada. Passeei pelos comentários do post de Olavo a rachar o bico. O jingle do Bozo se aplica à perfeição ao governo: “Sempre rir, sempre rir, pra viver é melhor sempre rir”.

No Brasil atual, Campos de Carvalho, adepto do realismo fantástico, seria tomado como autor de não-ficção. No Brasil atual, Olavo de Carvalho é um “pensador”. Eis algumas pérolas de seu pensamento vivo na conversa com CartaCapital:
“O PT é o criador de Hugo Chávez.”
“Banqueiros e grandes capitalistas sempre investiram no movimento socialista.”
“A linhagem fascista é apenas uma dissidência interna do socialismo.”
“Bolsonaro não é fascista, fascista é o cu da mãe.”
“Há mais de 50 anos, o empresariado brasileiro está vinculado à esquerda.”
“A esquerda trabalha para os banqueiros, mas é burra demais para perceber.”
“Gays pensam que seus gostinhos sexuais são superiores a todos os valores morais, religiosos, culturais, filosóficos. Agora vamos ter uma política baseada no gosto sexual?”
“Vamos supor que eu goste de transar com cachorro. Então vamos fazer um partido político baseado nisso? É um acinte!”
“Kit gay é coisa do Haddad, um mentiroso compulsivo que incentiva o incesto.”
“A Escola de Frankfurt defende a relação incestuosa entre mãe e filho como meio de derrubar o capitalismo. Esses caras são todos loucos!”
“Uma contraparente foi presa (na ditadura). Entre os esquerdistas dizem que foi torturada e perdeu um rim. Mas fui o primeiro a vê-la quando saiu. Estava muito melhor do que quando entrou, forte, saudável, bem alimentada.”
“Quem matou Herzog? O serviço secreto inglês.”
“Lenin acabou com a delinquência juvenil na Rússia matando todos. Isso não é um bom método?”
“Esse negócio de neoliberalismo é uma bolha de sabão que inventaram para uma ala da esquerda combater a outra, com a qual no fundo está aliada. Assim sobem as duas juntas ao poder. Exatamente o que se deu no Brasil (com PT e PSDB).”
“Eu não pertenço à direita brasileira nem sou ideólogo dela. Não faço planos para governo nenhum, e não estou dirigindo bosta nenhuma.”

Olavo de Carvalho foi astrólogo obscuro. Certa vez construiu no porão de casa uma barca egípcia e, trancando-se nela, planejava alcançar o universo paralelo. Acabou desembarcado numa clínica psiquiátrica pela família.

Agora, aos 71 anos, o guru de Bolsonaro quer ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos, onde vive na zona rural da Virginia a “passar fogo em urso, ou você acha que eu vou deixar comer alguém da minha família, ou mesmo o meu cachorro?”

Com a nomeação do fã Ernesto Araújo para o Itamaraty, é possível que consiga.

Nenhum comentário:

Postar um comentário