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Gotejamento versus pós-industrialismo periférico,


Do GGN, 3 de Novembro, 2018
Por JORGE ALEXANDRE NEVES


Gotejamento versus pós-industrialismo periférico

No início da década de 1990, quando cheguei para estudar nos EUA, fervilhava o debate sobre o “gotejamento” (trickle down, em inglês). Já fazia uma década que a “revolução neoliberal” iniciada por Ronald Reagan havia tido início. Processo este que não foi interrompido pelos presidentes democratas (Bill Clinton e Barack Obama) que vieram depois.

O “gotejamento” seria a expectativa de que as políticas neoliberais, ao gerarem o aumento da renda e da riqueza dos indivíduos e famílias no topo da distribuição, faria a riqueza gotejar, escorrer, para aqueles que estão abaixo. Não é isso, contudo, que tem ocorrido no longo prazo, a partir do início da “revolução neoliberal”.

A chamada “era de ouro” do capitalismo ocidental se deu entre o final da segunda guerra mundial em 1945 e a primeira crise do petróleo em 1974. Foram quase três décadas de crescimento intenso da renda, queda da desigualdade e da redução da pobreza, nos países desenvolvidos da América do Norte e da Europa ocidental.

No caso dos EUA, apesar do PIB per capita ter crescido de forma substantiva entre o início da década de 1970 e o início da atual década – a despeito de crises como a asiática, na década de 1990, e a maior crise recente do capitalismo, em 2008 – os indicadores sociais não acompanharam tais resultados. Mais especificamente, entre o início da década de 1970 e o início da atual década, nos EUA, a taxa de pobreza aumentou em 40%, a taxa de desigualdade de renda (medida pelo Coeficiente de Gini) aumentou em mais de 20% e a participação dos rendimentos do trabalho sobre a renda total caiu mais de 15%.

Outros indicadores vão na mesma direção, embora essas outras tendências sejam menos claras no longo prazo. A população vivendo na rua explodiu em estados do sul (Flórida e Louisiana), do sudoeste (Texas, Novo México, Nevada e Arizona) e, particularmente, na costa oeste, marcadamente na Califórnia.

Em 2015, logo após ser agraciado com o Prêmio Nobel de Economia, Angus Deaton, de Princeton, mostrou (em parceria com sua esposa e colega de universidade Anne Case) que a taxa de mortalidade estava crescendo para alguns grupos demográficos nos EUA, desde pelo menos o início da década de 1990. Não por acaso, esses grupos eram formados por aqueles mais afetados pelo processo de desindustrialização e transformação econômica em termos mais amplos, a saber, os brancos de meia idade da classe trabalhadora e dos estratos médios. Mais recentemente, as estatísticas oficiais dos EUA começaram a revelar aumentos da taxa de mortalidade e consequente queda de expectativa de vida para a média da população. Já são três anos seguidos de aumento da mortalidade: 2015, 2016 e 2017. Isso a despeito de crescimentos positivos do PIB em todos esses anos: 2,9% em 2015, 1,5% em 2016 e 2,3% em 2017. Além de uma queda continuada do desemprego, caindo de 5% para 4%, no mesmo período. Esses indicadores são um escândalo para um país com uma das 10 maiores rendas per capitas do mundo e com o maior PIB global.

No caso do Brasil, após 13 anos de interrupção da hegemonia neoliberal, voltamos a ela. Rapidamente, a situação social do país começou a se deteriorar. Tivemos acelerado crescimento da pobreza, da desigualdade e até um espantoso aumento da mortalidade infantil. Voltamos ao mapa mundial da fome, da ONU.

No longo prazo, o Brasil tem passado por um processo de desindustrialização, desde a década de 1980. A queda da participação da indústria no PIB foi de mais de 35%, embora a diminuição do percentual da PEA ocupada neste setor tenha sido de apenas 20%. Isso revela não apenas que temos passado por um processo de desindustrialização, mas que, marcadamente, a indústria que tem sobrevivido aqui tem um nível mais baixo de intensidade tecnológica e de capital e, consequentemente, menor produtividade.

O processo de desindustrialização do Brasil se manteve também durante os governos do PT. A presidenta Dilma tentou revertê-lo, porém fracassou em seu intento. Todavia, os governos do PT conseguiram, pelo menos, fazer retroceder o processo de informalização da PEA ocupada. Esse processo de crescimento do trabalho informal foi intenso na década de 1990. Na época, comecei a falar em um “pós-industrialismo periférico”, ou seja, em um processo de retração do emprego industrial que estava sendo substituído pelo trabalho informal no setor de serviços.

Hoje, a imprensa noticia que voltamos a bater recordes de crescimento do trabalho informal. Retomamos a trajetória de constituição de um “pós-industrialismo periférico”, após os governos petistas. Esse modelo hoje cresce de forma acelerada até em países desenvolvidos, como os EUA, onde tem como principal símbolo os motoristas de aplicativos. Uma das principais hipóteses sobre a aceleração do crescimento da mortalidade nos EUA em um ambiente de “pleno emprego” e crescimento significativo do PIB é justamente o da degradação do trabalho. Algo que, até agora, o governo de Donald Trump não parece estar conseguindo reverter, a despeito da promessa eleitoral de que o faria.

Há cinco meses, um casal montou uma barraca muito bem construída em uma calçada larga que existe na avenida onde moro, bem próximo à minha residência. Já conversei algumas vezes com o homem que ali reside hoje. Na nossa primeira conversa, na mesma semana na qual eles se estabeleceram lá, ele me pareceu um homem bastante centrado e comunicativo. Relatou-me que precisou ir morar na rua, pois era auxiliar de pedreiro e não conseguia mais trabalho suficiente para que pudesse se manter pagando o aluguel do imóvel onde residia. Fui percebendo que, pouco a pouco, esse homem – bem como sua barraca – foi mudando profundamente. Hoje, quando passo pela calçada, tento conversar com ele, mas já não é possível. Tornou-se outra pessoa, totalmente incapaz de se comunicar adequadamente. Parece estar sempre sob o efeito de algum tipo de substância. Na semana passada, vi outro morador da região tentando conversar com ele. Saímos (este morador e eu) caminhando juntos e eu disse a ele: “puxa, quando eles vieram morar aqui nesta calçada, ele era um cara tão centrado...”. Ele, então, me respondeu: “viver na rua é muito pesado, o cara não dá conta, tem que arrumar um jeito de fugir da realidade”. O neoliberalismo destruiu aquele moço!

O governo de Jair Bolsonaro, que tomará posse em janeiro próximo, deverá aprofundar nosso processo de mergulho no “pós-industrialismo periférico”. O que mudará para esse casal que está morando nesta calçada próxima à minha residência? Talvez um dia amanheçamos com os corpos dos dois carbonizados junto com todos os seus pertences! A única coisa que o enriquecimento dos mais ricos faz escorrer (ao ponto de desaparecer) é a base moral que mantém a coesão social!



Nota 1

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