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Em Minas Gerais, famílias produtoras do Café Guaií sofrem ameaça de despejo

Permanência dos sem-terra no Quilombo Campo Grande vai a julgamento nesta quarta-feira (7)

DOUGLAS MANSUR

por Redação RBA publicado 07 de Novembro, 2018


Entre 2017 e 2018, os sem-terra produziram mais de 8.500 mil sacas de café, 55 mil sacas de milho


São Paulo – Nesta quarta-feira (7), uma audiência no Fórum da Comarca de Campos Gerais (MG) pode decidir o futuro das 450 famílias sem-terra que vivem no acampamento Quilombo Campo Grande. Será julgada uma ação que ameaça retirar todas as famílias do local. Ações de solidariedade aos agricultores promovem hoje um "tuitaço" com a hashtag #SalveQuilombo.

As famílias moram na área de aproximadamente 4 mil hectares da usina Ariadnópolis, da Companhia Agropecuária Irmãos Azevedo (Capia), que encerrou suas atividades em 1996, após decretar falência. As dívidas trabalhistas da empresa ultrapassam R$ 300 milhões.

Amancio de Oliveira trabalhou a vida toda na usina e foi demitido durante o processo de falência da empresa. "Hoje a Campo do Meio está reerguendo graças aos assentados que compram na cidade. Toda hortaliça vende na cidade, colhemos café, torra e vendemos na cidade. Antes eu vivia trabalhando para fazendeiro, trabalhava cedo para comer de tarde, só tinha uma calça e uma camisa", conta o agricultor na página do MST.


Se antes o local produzia apenas cana de açúcar e álcool, hoje cria trabalho e renda para cerca de 2 mil pessoas, com cultivos diversificados. De acordo com um balanço do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entre 2017 e 2018, os acampados produziram mais de 8.500 mil sacas de café, 55 mil sacas de milho e 500 toneladas de feijão. As famílias produzem sem o uso de agrotóxicos, de forma agroecológica ou em transição.

Ocupando o espaço há 20 anos, o movimento já sofreu cinco despejos. Em setembro de 2015, o governo de Fernando Pimentel (PT) publicou o decreto 356, que desapropriava 3.195 hectares das terras. Porém, acionistas da empresa, apoiados pela bancada ruralista e latifundiários da região, não aceitaram o acordo e levaram o caso à Justiça contra o governo de Minas Gerais, pedindo anulação do decreto, que havia sido validado por dois julgamentos.

Por meio de uma operação jurídica, os empresários retomaram uma liminar de despejo de 2012 referente à falência da usina, que, na época, foi negada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas não extinta. Nessa última terça-feira (6), um dia antes do julgamento, o acampamento passou pela vistoria de um juiz.

"Está todo mundo muito apreensivo, não sabemos o que pode acontecer. Nós estamos vivendo um momento de golpe, mas estamos preparados. Na verdade, nós estamos otimistas, porque são 20 anos de luta, não são 20 dias. E, até o mês passado, nós tínhamos o decreto da terra. De 30 dias para cá que não temos mais", conta Débora Vieira Borges ao Brasil de Fato, dirigente estadual do MST pelo sul mineiro.

José Maria de Moraes nasceu e cresceu no acampamento Quilombo Campo Grande e, aos 18 anos, também trabalhou na usina. O agricultor acampado afirma que não consegue se imaginar em outro lugar. "Eu sempre gostei de trabalhar aqui, porque foi onde nasci, e nós temos o direito de nascituro. Juiz nenhum pode banir esse direito".

*Com informações do Brasil de Fato e MST

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