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Culturas negras ameaçadas

Ataques ao Centro “Mãe Sylvia de Oxalá” expõe a vulnerabilidade das tradições afro-brasileiras no atual contexto do País.

Da Carta Capital,  30/11/2018

por Pai Rodney 

Reprodução
Um espaço de preservação da cultura negra sob ataque.

Não é um fato isolado. Infelizmente, a perseguição às religiões de matrizes africanas e à cultura negra tem se intensificado nos últimos anos e recentes ataques a terreiros e outros núcleos de resistência denotam não só a gravidade da situação, mas o preocupante quadro que se desenha para os próximos anos.

O Centro de Culturas Negras do Jabaquara sempre esteve ligado ao Axé Ilê Obá, um dos terreiros de candomblé mais importantes de São Paulo, aliás, o primeiro a ser tombado como patrimônio do Estado.

Por força da Lei 663/2017, de iniciativa do vereador Eduardo Suplicy, o local foi reconhecido como um território da população negra, especialmente os afro-religiosos, passando a se chamar Centro de Culturas Negras do Jabaquara “Mãe Sylvia de Oxalá”, em homenagem à ialorixá que tanto contribuiu para sua fundação e preservação.

Em 20 dias, o centro cultural sofreu dois ataques. Trata-se de um espaço temático, voltado às questões e à luta do povo negro, que era identificado em suas três entradas com a placa “Centro de Culturas Negras do Jabaquara” desde meados de 2017.

Com a aprovação da lei e em atenção a diversas solicitações da comunidade, a nova coordenação refez, no entanto, a identificação em outubro de 2018, alterando as placas para o nome correto com a devida homenagem à mãe de santo.

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Menos de um mês depois da inauguração das novas placas, o centro cultural sofreu o primeiro ataque: marcas de bisturi por cima do nome de Mãe Sylvia de Oxalá e desenhos que sugeriam suásticas no banheiro feminino. Os banheiros foram restaurados rapidamente, mas em 20 de novembro de 2018, Dia Nacional da Consciência Negra, outra placa foi completamente destruída, exatamente na inscrição do nome da matriarca do Axé Ilê Obá.

Para os filhos do terreiro, os dois episódios em tão curto intervalo de tempo levam a crer que se trata de mais uma manifestação de racismo e intolerância religiosa, uma vez que só ocorreram após a troca da placa retificando o nome do espaço, que cada vez mais se reafirma como um núcleo de resistência de cultura afro-brasileira. Vale lembrar que durante o período de aproximadamente um ano em que o espaço foi genericamente identificado como Centro de Culturas Negras, nenhum atentado foi registrado.

Atualmente acontecem no local diversas atividades voltadas à difusão e valorização da tradição afro-brasileira, como aulas e rodas de capoeira, sarau e exibição de filmes sobre cultura negra, ensaios abertos de maracatu, rodas de conversa com estudiosos e pesquisadores, oficinas, peças de teatro e apresentações de música e dança.

Esse era o grande sonho de Mãe Sylvia de Oxalá, que nos anos 1990 lutou para que o Jabaquara tivesse um equipamento público destinado à manutenção e valorização da cultura do povo negro e das religiões de matriz africana.

O ataque à placa é muito simbólico e mostra o quanto é difícil para o povo negro preservar sua memória e garantir o reconhecimento de seus mestres e a valorização de sua cultura. Coletivos que utilizam o espaço estão se mobilizando para solicitar às autoridades maior policiamento na região, bem como a instalação de sistemas de monitoramento por vídeo, na tentativa de coibir novos casos de violação.

Para além, fica a certeza de que, sempre e cada vez mais, será necessário resistir para existir. Assim como Mãe Sylvia lutou pela cultura, outros agentes e a comunidade seguirão a trabalhar pela preservação de seu legado e engrandecimento de sua memória, que é um símbolo da importância de tantos homens e mulheres, negros e negras, que há anos enfrentam o desafio de manter esse quilombo urbano chamado Jabaquara.

Mãe Sylvia nasceu em São Paulo, na Liberdade, originalmente um bairro negro. Foi uma grande batalhadora das causas do povo de candomblé, com uma formação acadêmica multidisciplinar: enfermagem, administração e relações internacionais, além de empresária de sucesso.

Foi desde cedo preparada para ser ialorixá do Axé Ilê Obá e substituir Pai Caio de Xangô na importante função de preservar o modo de vida afro-religioso, lutando pela valorização do candomblé e contra o racismo e todas as formas de discriminação.

Trouxe também uma nova visão sobre a religião, mantendo e ampliando a suntuosidade de seu terreiro e se valendo de sua grande influência política para consolidar seu Axé como uma importante referência.

Mãe Sylvia (Arquivo)

De fevereiro de 1986 a agosto de 2014, Mãe Sylvia de Oxalá esteve no comando de um importante espaço, reconhecido como de utilidade pública e o primeiro Candomblé de São Paulo tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT). Um território de preservação das tradições dos Orixás, que alcançou prestígio e relevância social em razão do esforço dessa grande liderança religiosa.

Em seus 32 anos de dedicação total ao Axé Ilê Obá, Mãe Sylvia sempre buscou resgatar as tradições do povo negro e fortalecer os territórios de resistência, combatendo todo tipo de preconceito, discriminação e intolerância e promovendo o diálogo inter-religioso e a cultura de paz. Além disso, demonstrou a importância da sociabilidade do terreiro e da manutenção da identidade negra na cidade de São Paulo.

Tudo isso fez de Mãe Sylvia de Oxalá não só uma importante autoridade religiosa, mas também cultural e política. Sempre atuante na comunidade e preocupada em difundir os trabalhos desenvolvidos por meio de sua participação em palestras, conferências e congressos, com foco em seu grande compromisso de prevenir, combater e erradicar o racismo.

Foi idealizadora e fundadora do “Acervo da Memória e do Viver Afro-Brasileiro Caio Egydio de Souza Aranha”, importante território conquistado para preservar e divulgar nossa cultura, com respeito às características ligadas à oralidade e à ancestralidade, lembrando sempre que a comunidade negra deveria se apropriar do conhecimento e compartilhá-lo como forma de construir identidade e se fortalecer enquanto grupo. Esse espaço resultou no Centro de Culturas Negras do Jabaquara.

Graças a seus trabalhos em defesa das tradições afro-brasileiras e a sua atuação em obras sociais junto à comunidade, Mãe Sylvia recebeu inúmeras homenagens e prêmios no Brasil e exterior, como o Prêmio Luiza Mahin 2012, da Câmara Municipal de São Paulo; homenagem na exposição Raízes: Mulheres d´África 2012, do Governo do Estado de São Paulo e Secretaria de Cultura por sua atuação no combate ao racismo; Diploma de Gratidão de São Paulo, 1998; Medalha Anchieta, 1998; Prêmio Niños de la Calle, em Madrid; Prêmio Humanista, da Universidade de Ciências de Moscou, entre outros.

Sua última atividade pública foi no I Seminário Internacional para Preservação do Patrimônio Compartilhado Brasil – Nigéria, que aconteceu em Salvador, Bahia, de 26 de Julho a 1º agosto de 2014. Faleceu uma semana depois, em São Paulo, deixando uma herança de luta e resistência a todos que trabalham por igualdade, justiça e paz.

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