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Como explicar a escalada de poder da bancada evangélica?

Consolida-se uma relação construída a partir da aproximação entre Bolsonaro e pastores neopentecostais.

Da Carta Capital, 28/11/2018 

por Magali do Nascimento Cunha 

Fernando Frazão/ABr

Bolsonaro frequenta cultos, mas continua a se declarar católico.


Em 21 de novembro, a bancada evangélica vetou a indicação do professor Mozart Neves Ramos para o Ministério da Educação do governo Jair Bolsonaro.

O porta-voz do grupo, deputado federal Sóstenes Cavalcante (DEM/RJ), declarou ao site Congresso em Foco: “Vamos interpretar a escolha do nome dele [Mozart, identificado como de esquerda] como uma afronta. Para nós, o futuro governo pode errar no que quiser, menos no Ministério da Educação. Vamos virar todos os talibãs”.

Ocorreu, então, um fato inédito no cenário político nacional. O veto foi sancionado pelo presidente eleito, que acabou por nomear o professor Ricardo Vélez Rodrígues para o cargo.

Bolsonaro declarou a jornalistas: "Essa pessoa indicada, pelo que eu sei, não é evangélica, mas atende aquilo que a bancada evangélica defende. São os princípios, valores familiares, respeito às crianças”.

Como explicar este poder incomum da bancada evangélica sobre o novo governo?

Cavalcante deu a resposta: “Nós nos sentimos no direito de vetar quem for de outro campo ideológico porque ajudamos a construir a candidatura de Bolsonaro. (...) Demoramos para chegar a um governo ideologicamente afinado conosco, não vamos deixar que o cérebro dele, que é o Ministério da Educação, fique com a esquerda”.

A bancada evangélica, de fato, ajudou a construir a candidatura de Bolsonaro. Ela é resultado de uma aliança consolidada em 2013, quando o Pastor Marco Feliciano, à época no PSC, foi alçado à presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, em um processo de oposição às pautas do governo Dilma Rousseff.

O deputado Bolsonaro, à época PP, integrante da comissão, declarou na ocasião: “Como capitão do Exército, sou um soldado do Feliciano. A agenda antes era outra, de uma minoria que não tinha nada a ver. Hoje, representamos as verdadeiras minorias”.

A aliança havia se desenhado em 2011, quando, no primeiro ano do governo Dilma Rousseff, as bancadas evangélica e católica pressionaram pelo cancelamento do material contra a homofobia nas escolas, preparado pelo Ministério da Educação, apelidado de “kit gay”. Bolsonaro foi um dos mais aguerridos combatentes nesta aliança. E o rompimento com o governo foi se aprofundando.

Os 'bons amigos' Feliciano e Bolsonaro (Foto: Lula Marques/Fotos Públicas)

Em 2015, o deputado Eduardo Cunha conquistou o maior cargo de um evangélico na política nacional, a presidência da Câmara. Foi uma guinada conservadora que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, maciçamente apoiado pela bancada evangélica, ainda mais fortalecida no período.

Com isso, a parceria de Bolsonaro com políticos evangélicos se ampliou. Em 2013, ele se casou com Michelle, fiel da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, presidida pelo Pastor Silas Malafaia.

Bolsonaro estreitou laços com Malafaia e se aproximou de políticos evangélicos que se destacavam no Congresso, como o ex-senador Magno Malta.

Esta trajetória levou o capitão a se transferir para o PSC, ocupado pelas Assembleias de Deus. Isto ocorreu em 2016, ano em que ele se declarou pré-candidato à presidência da República.

Estava explicitada a estratégia de conquista do eleitorado evangélico, confirmada no convite do então presidente do partido, Pastor Everaldo, para que o deputado se batizasse no simbólico Rio Jordão, em Israel. O ato foi realizado pelo próprio Everaldo e intensamente divulgado nas mídias religiosas com o discurso de que Bolsonaro havia “aceitado a Jesus”, o que na linguagem religiosa do grupo é o mesmo que se tornar evangélico.

Na prática, o presidente eleito não só continuou a se declarar católico (vide registro no TSE) como nunca corrigiu as notícias evangélicas de que ele seria um deles. A estratégia política de fazer uso da religião cristã, maioria no Brasil, e do nome de Deus, alcançou o efeito esperado.

Para isso, o capitão construiu uma identidade religiosa híbrida, ao se confessar católico (ainda o maior grupo religioso do País), e, casado com uma evangélica, ser frequentador das igrejas por onde ela passa (atualmente uma vertente batista) e receber o batismo pentecostal nas águas do rio onde Jesus foi batizado, segundo a Bíblia.

Assim Sóstenes Cavalcante afirma que seu grupo ajudou a construir a candidatura de Jair Bolsonaro à presidência. A cobrança da contrapartida do capitão faz parte desta lógica, bem como a recente indicação do pastor da Assembleia de Deus e delegado da Polícia Civil João Campos pelo PRB à presidência da Câmara.

Faz parte ainda, a apresentação que a bancada fez do documento “Brasil para os Brasileiros”, logo após o resultado das eleições. É uma agenda mínima para além da pauta tradicionalmente defendida pelos evangélicos, com ênfase na “modernização do Estado”, na “segurança jurídica”, na “segurança fiscal” e na “revolução da educação”. Quem lê o documento identifica o discurso de Bolsonaro e de seus ministros.

Vale lembrar que o deputado evangélico Onix Lorenzoni será o futuro ministro da Casa Civil e lidera a equipe de transição. Também, neste 27 de novembro, em reunião com a bancada evangélica, o presidente lhe deu o poder de indicar um nome para o futuro Ministério da Cidadania (que agregará Direitos Humanos e Desenvolvimento Social, incluindo o Programa Bolsa Família).

Políticos e lideranças evangélicas conservadores devem alcançar um poder sem precedentes entre religiosos no País. Isto vem sendo conquistado desde os anos 1980. No artigo da próxima semana, recuperaremos esta trajetória.

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