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Claro como o Sol


Já estamos a léguas fora do que seria até mesmo uma democracia liberal


Da Folha de São Paulo, 2 de Novembro, 2018
Por Vladmir Safatle

Há uma diferença estrutural entre cinismo e hipocrisia.

A hipocrisia é uma operação de mascaramento de intenções. Ela é a utilização de proposições socialmente compreendidas como corretas para mascarar interesses inconfessáveis. Nesse sentido, ela precisa impedir que as reais intenções sejam enunciadas. Há uma contradição que deve ser escondida e continuamente negada.
Nesses casos, quando você expõe as reais intenções do enunciador, a hipocrisia é desvelada e as proposições entram em colapso. Foi assim que a democracia liberal funcionou até hoje.
Marcelo Cipis

Já o cinismo é uma operação de desvelamento das reais intenções na qual a contradição, mesmo sendo exposta, não produz nenhum efeito. Expor as contradições de nada adianta, pois as palavras estão lá para serem ignoradas. Nesses casos, todo regime autoritário tem traços cínicos.

Imagine, por exemplo, um recém-eleito à Presidência da República que diga algo como: "Sou totalmente a favor da liberdade de imprensa, mas há a questão da propaganda oficial do governo, que é outra coisa". Ou seja, ele afirma claramente que se serviria das verbas oficiais para pressionar setores da imprensa a publicar o que convém e deixaria de publicar o que o incomoda.

Pode-se dizer que isso sempre foi feito, mas algo muda radicalmente quando uma prática desempenhada em silêncio é claramente exposta. Fazer às claras significa que o poder não poderá mais ser questionado em seus interesses e privilégios.

O mesmo acontece quando um juiz mobiliza o país inteiro para a prisão do candidato mais popular de uma eleição, vaza informações de forma deliberada para influenciar resultados da campanha e, ao final, recebe do candidato vencedor —aquele que, por coincidência, foi o mais beneficiado por suas intervenções— um cargo de destaque em seu governo.

Ao final, ele poderá dizer que estará lá para dar continuidade a sua incansável luta contra a corrupção, sendo que a pior de todas as corrupções já foi feita por ele mesmo.

A corrupção que consiste em usar a Justiça para beneficiar explicitamente candidatos que a subjetividade do juiz entende como "não corruptos", mesmo que notícias mostrem o contrário.

Um processo de benefício pessoal tão corriqueiro, mas agora feito de uma forma tão explícita, apenas blinda o poder para, mais uma vez, não ser questionado em seus usos interessados do poder da Justiça.

Mas podemos ainda pensar em outro caso de cinismo nacional. Imaginem um país laico cujo novo presidente, assim que eleito, grita versículos da Bíblia e coloca o país diante de um macabro ritual de orações, em um desrespeito explícito às cidadãs e aos cidadãos que não comungam com sua fé e que nunca aceitariam ser submetidos por um poder que transforma suas liturgias em tentativa de justificação teológica de sua existência.

Como se fosse o caso de vender a ideia "estou aqui porque Deus quis". E qual o nome daqueles que se opõem aos desígnios de Deus para o povo brasileiro? Opositores ou infiéis a serem abatidos na próxima cruzada?

Boa parte dos governos ocidentais, a despeito de sua laicidade, servem-se do horizonte teológico para fundamentar o poder —eis algo que não impressiona ninguém.

Mas, à parte em um Estado teocrático (como o Brasil parece querer entrar), essa mobilização nunca é feita de forma explícita, com versículos repetidos na boca dos ocupantes do poder e orações em cadeia nacional.

Tudo isso demonstra como já estamos diante de um poder que acredita ser capaz de ignorar toda resistência contra sua soberania, que se vende como uma máquina que concentra uma força sem limites cujo verdadeiro objetivo é sua própria perpetuação.

Nós já estamos a léguas fora do que seria até mesmo uma democracia liberal, o que dizer de uma democracia efetiva de soberania popular.

Vladimir Safatle

Professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”.

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