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Os trens não vão sair no horário

Do Blog da Boitempo, 17 de outubro, 2018

Por Luis Felipe Miguel.

A eleição de Bolsonaro, não nos equivoquemos, é o prenúncio da ditadura. Resistir a um novo golpe, agora de caráter neofascista, tendo-o na presidência será muito mais difícil. Iludem-se aqueles que agem hoje pensando nas vantagens que poderão ter em 2022, simplesmente porque a própria continuidade do processo eleitoral está ameaçada.

O símbolo do governo de Mussolini, na Itália, era a pontualidade da rede ferroviária. Recado claro: com mais autoridade, com mais disciplina, com a mão forte do poder, tudo passava a funcionar melhor. O custo era perder algumas liberdades, mas, imaginava-se, valia a pena. Afinal, quem não quer os trens saindo no horário? Como escreveu Fernando Pessoa, sarcástico: “Os fascistas matam seu pai mas você tem a certeza que, metendo-se no comboio, chega a tempo para o enterro”.

Há algo dessa mentalidade no apoio a Bolsonaro. O Brasil, dizem, está uma bagunça e é preciso pôr ordem na casa. “Bagunça” é uma categoria elástica. Inclui corrupção, criminalidade desenfreada, desrespeito aos professores, serviços públicos insuficientes, casais de gays ou lésbicas andando de mãos dadas nas ruas, nudez em público, mulheres mandando em homens, bandeiras vermelhas em manifestações, polícia que mata de menos. Fatos e fantasias se misturam no mundo dos memes bolsonarianos, mas a resposta a todos os desafios é, sempre, mais autoridade.

Mas será possível esperar de um governo Bolsonaro algo próximo da “ordem” que ele promete?

É difícil. Apesar de todo o discurso de disciplina, a campanha de Bolsonaro não possui comando, sendo antes um espaço de permanente disputa entre personalidades e grupos que querem se impor uns sobre os outros – general Mourão, Paulo Guedes, Gustavo Bebianno etc. O líder não é capaz de pacificá-los. Sendo alguém tão limitado, desprovido de conhecimento sobre a realidade e com evidente déficit intelectual, Bolsonaro está condenado a ser um joguete nas mãos daqueles que lutam por influência dentro de sua entourage.

Na relação com o Congresso, certamente imperará o velho toma-lá-dá-cá. O homem da articulação política é Onyx Lorenzoni, legítimo representante da elite política corrupta de sempre. Mas e os novos quadros, a bancada de outsiders eleita pelo PSL e por bolsonarianos soltos em outros partidos, o que podemos esperar deles? Muitos analistas têm destacado o fato de que é um grupo mais ideológico e portanto menos maleável que a direita brasileira tradicional. Pode ser. Mas isso os torna menos predatórios? Pessoas como Kim Kataguiri, Joice Hasselman, Alexandre Frota ou o principezinho “imperial”, que já demonstraram tantas vezes uma completa ausência de sentido moral, certamente vão buscar todas as vantagens que puderem obter. Como cada um deles se vê como um herói da cruzada antipetista, julgam que o Estado brasileiro é seu merecido butim.

Com a política econômica ultraliberal já apontada por Paulo Guedes, elemento central do apoio que o grande capital hoje dá à deriva neofascista, as condições de vida das maiorias certamente piorará. Bolsonaro oferece a seu público um conjunto de bodes expiatórios – feministas, LGBT, “petralhas” – e a possibilidade de livre exercício da violência contra eles. As circunstâncias são muito diferentes, mas o paralelo que vem à cabeça é a campanha de ódio que levou ao genocídio em Ruanda, em 1994. Até quando essa violência compensatória anestesiará a base? Até quando será ignorado o efeito da destruição dos serviços públicos, da redução da renda, do aumento do despotismo nos locais de trabalho?

Os próprios estrategistas de Bolsonaro admitem que sua popularidade deve logo se esvair. Podemos esperar, então, um início de governo devastador, em que tentarão aproveitar o empuxo dado pela vitória eleitoral para destruir o que ainda houver de democracia e de direitos. Quem nos protegerá disso? As “instituições” que já se mostraram coniventes com o golpe de 2016? Um Supremo tão acovardado que seu presidente já se alinha com a defesa (por enquanto envergonhada) da ditadura de 1964?

A eleição de Bolsonaro, não nos equivoquemos, é o prenúncio da ditadura. Resistir a um novo golpe, agora de caráter neofascista, tendo-o na presidência será muito mais difícil. Iludem-se aqueles que agem hoje pensando nas vantagens que poderão ter em 2022, simplesmente porque a própria continuidade do processo eleitoral está ameaçada.

Nossos problemas não serão resolvidos em 28 de outubro. A besta fascista foi posta nas ruas e não se recolherá por causa de uma simples derrota eleitoral. Os efeitos do golpe de 2016 e dos retrocessos de Temer estão aí. Mas as condições da resistência são muito sensíveis ao resultado das urnas. Para todo o campo democrático, qualquer que seja o balanço que se faça do PT e de seus governos, eleger Fernando Haddad é essencial para que possamos sonhar em sair da defensiva e retomar a tarefa de reconstrução democrática do Brasil.

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Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê, que mantém oBlog do Demodê, onde escreve regularmente. Autor, entre outros, de Democracia e representação: territórias em disputa (Editora Unesp, 2014), e, junto com Flávia Biroli, de Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014). Colabora com os livros de intervenção Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil (Boitempo, 2016) e O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil (Boitempo, 2018). Seu livro mais recente é Dominação e resistência: desafios para uma política emancipatória (Boitempo, 2018). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

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