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Nascer mulher na nossa época

Ricas espezinham as pobres para não perder a doméstica de estimação


Mulher segura flor durante protesto contra violência doméstica em frente ao Ministério do Interior da Romênia, em Bucareste /Daniel Mihailescu/AFP



Da Folha de São Paulo 9 de outubro, 2018
Por Vera Iaconelli


Comemoro o fato de não ter nascido na Antiguidade romana. Casaria aos 10 anos para garantir ao marido que era virgem. Se tivesse sobrevivido aos partos, e depois de ter conseguido o mínimo de três filhos reconhecidos pelo pai, viraria matrona. Isso significa que a partir dos 20 anos de idade praticaria a abstinência sexual. Se fosse escrava ou concubina, serviria à vida sexual dos maridos das matronas e lidaria com as gestações indesejadas e os abortos decorrentes.
Deus me livre ter nascido em plena Idade Média, período em que se discutia obsessivamente se a Virgem Maria teria parido sem perder a virgindade. Enquanto os religiosos debatiam a vagina imaculada, mulheres não tão benditas eram torturadas pela Inquisição para confessar pactos com o demônio. Seria considerada bruxa se me atrevesse a proferir outros credos, conhecimentos, interesses sexuais ou divergências políticas. Iria para a fogueira diante de minhas filhas para lhes servir de lição.

Fico aliviada de não ser renascentista. Teria que casar com algum nobre desconhecido imberbe ou velho demais, para preservar os laços da realeza. Seria abandonada, cercada de filhos, por um marido interessado em passar décadas no mar atrás de fortuna no Novo Mundo.

Poderia ser a índia que ele encontraria ao chegar no que se chamou de Brasil, ser estuprada e morta. Também poderia ter sido presa, enquanto cozinhava para minha família, sendo transportada para um mundo inteiramente irreconhecível e vendida, sem nunca entender o porquê, como uma coisa para trabalhar, apanhar e servir sexualmente.

Tampouco posso reclamar de não ter nascido na Era Vitoriana. Teria um casamento por conveniência, no qual o sexo seria uma obrigação e os filhos, a única aspiração reconhecida. O espartilho oprimiria meus miolos e a minha leitura seria censurada. Caso me rebelasse, seria considerada histérica e internada por toda a vida em situação tão degradante, que talvez preferisse seguir em um casamento de abusos e frustrações. Talvez fosse musa de algum artista famoso, sem que pudesse eu mesma ser reconhecida como artista ou fugir de suas investidas sexuais. Prostituição seria a saída, caso não estivesse casada. Poderia ter sido uma operária com rotina de escrava. Não teria podido votar até que algumas mulheres morressem em nome dessa causa.

Aliviada de ser mulher em 2018?

Não temos direito sobre nossos próprios corpos e fazemos abortos sob risco físico, jurídico, psíquico e moral. Ganhamos menos do que homens que trabalham tanto quanto nós, para depois cuidarmos dos filhos e da casa de ambos sem “ajuda”. Não podemos sair à noite sozinhas sem correr sérios riscos.

Podemos ser molestadas no transporte público ou ser atacadas na rua, sendo culpabilizadas por isso nas delegacias que deveriam nos proteger. Nossas denúncias são desprezadas como “mimimi”. Mulheres de classe alta espezinham as mais pobres, com medo de perder a “doméstica de estimação”. Tememos o aumento da violência sem reconhecer que ela é o efeito de nossa violência imposta aos outros, que retorna contra todos nós, principalmente, contra as mulheres.

Todas as situações descritas acima, desde a Antiguidade, têm seus exemplos hoje, em todo mundo. 

Ao ver conhecidos, amigos, vizinhos, familiares e, principalmente, mulheres escolhendo um candidato que declara sua visão grotesca e inaceitável do que é uma mulher, testemunho, mais uma vez, quanto o nosso tempo tarda a chegar.

Vera Iaconelli

Diretora do Instituto Gerar, autora de “O Mal-estar na Maternidade”. É doutora em psicologia pela USP.

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