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A desconfiança juvenil e a decepção com a forma de fazer política.

Carmen de Oliveira
| Foto: Reprodução - Facebook
Entrevista especial com Carmen de Oliveira

Do IHU, 04 Outubro 2018 
Por: João Vitor Santos



Apesar do engajamento dos jovens nas manifestações de Junho de 2013 e nas ocupações das escolas nos últimos anos, “a desconfiança da política institucional está particularmente acentuada entre os jovens neste momento”, diz Carmen de Oliveira à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail. Esse tipo de reação, frisa, não significa que os jovens estão desinteressados pela política. Ao contrário, analisa, “eles estão decepcionados com esta forma de fazer política, apontam as suas imperfeições e distorções e isto é bom para a democracia”. Além disso, menciona, “o cansaço em relação aos partidos e políticos não é sinal de esgotamento da política. Foi o desencanto que levou os jovens às ruas em Nova York, Paris, Túnis, Cairo e outros lugares em outros momentos. Eles dizem as mesmas coisas: ‘Não acreditamos mais’, ‘Como fomos capazes de acreditar no que agora desmorona?’”.

Carmen também comenta a atuação dos jovens nas redes sociais e avalia que o uso das redes como meio de debate não é ruim, mas “o que preocupa é justamente a constituição de ‘bolhas virtuais’ que nem poderiam ser chamadas de redes, pois não agenciam conexões abertas e acentradas”, adverte.

No dia de hoje, 04-10-2018, Carmen de Oliveira estará no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, ministrando a palestra “As juventudes e o cenário eleitoral brasileiro. Possibilidades e limites”, às 17h30min, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU.

Carmen de Oliveira é graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, com especialização em Saúde Pública pela Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul, mestrado em Psicologia Clínica pela PUCRS e doutorado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como tem observado a participação dos jovens no debate acerca do atual cenário eleitoral brasileiro?

Carmen Oliveira - A nova geração de eleitores tem algumas peculiaridades. Certamente não se trata da mesma juventude da primeira década dos anos 2000, tampouco é o mesmo cenário eleitoral. Estes novos eleitores cresceram sob governos petistas, se acostumaram com uma certa calmaria econômica e melhor acesso a bens e serviços, aprenderam a discutir liberdades individuais sem travas, além de serem nativos digitais com participação ativa na revolução das redes sociais.

Nos últimos anos, esses jovens também protagonizaram várias mobilizações sociais marcantes, tais como a reivindicação pelo passe livre e a ocupação das escolas, que despertaram inclusive uma certa euforia política pelas possibilidades de deslocamento da apatia e do individualismo.

Estes motivos já nos fariam supor que haveria uma maior participação da juventude neste processo eleitoral no sentido de incidência na escolha sobre o projeto de país para os próximos anos. No entanto, a desconfiança da política institucional está particularmente acentuada entre os jovens neste momento. Esta é a primeira eleição majoritária pós-impeachment, em meio a uma insatisfação generalizada e uma polarização que leva a um descrédito sobre as possibilidades de construção de projetos coletivos para o futuro.

Contudo, não visualizo estas reações como sinais de que os jovens estão desinteressados da política. Eles estão decepcionados com esta forma de fazer política, apontam as suas imperfeições e distorções e isto é bom para a democracia. O cansaço em relação aos partidos e políticos não é sinal de esgotamento da política. Foi o desencanto que levou recentemente os jovens às ruas em Nova York, Paris, Tunísia, Cairo, Atenas. Eles dizem as mesmas coisas: “Não acreditamos mais”, “Como fomos capazes de acreditar no que agora desmorona? ”.

Não considero que são revoltas erráticas ou separadas, muito embora a maioria dos jovens brasileiros talvez ignore ou não perceba as conexões entre si dessa onda de levantes que se comunicam de maneira quase imperceptível. Não vivemos, portanto, uma crise brasileira mas uma crise generalizada do modelo econômico, do modo de governar e das democracias. Dar-se conta disto pode significar para os jovens eleitores o peso de sair do atordoamento e de se colocar em um outro nível de responsabilidade diante das urnas.

IHU On-Line - Podemos afirmar que os jovens estão mais engajados no debate eleitoral de 2018 se comparado com algumas eleições passadas? Por quê?

Carmen Oliveira - A resposta poderia ser negativa se levarmos em conta o número de adolescentes entre 16 e 17 anos que se registrou no sistema eleitoral para fazer uso do voto facultativo. Segundo dados do Supremo Tribunal Eleitoral esse número caiu 14,5% em relação a 2014 (ano da última eleição majoritária) embora na população geral tenha crescido 3,14%. Essa queda não pode ser explicada pela curva demográfica observada na faixa etária pois é o dobro do que se observou no mesmo período. No RS a redução foi maior, em torno de 20%. No Amazonas o número de adolescentes cadastrados diminuiu pela metade. E em Minas Gerais o número registrado desses eleitores foi o menor nos últimos 29 anos, com uma queda de 73% em relação a 1989.

Mas o engajamento no debate eleitoral não pode ser medido apenas por este indicador. Se levarmos em conta que os jovens utilizam as redes sociais como o principal espaço público para a informação e discussão de ideias veremos que eles estão muito ativos neste processo.

IHU On-Line - Qual o peso das redes sociais no engajamento dos jovens no debate político? E até que ponto eles rompem com a “bolha virtual” e empreendem suas ações políticas no mundo não virtual?


O que preocupa é justamente a constituição de “bolhas virtuais” que nem poderiam ser chamadas de redes, pois não agenciam conexões abertas e acentradas - Carmen Oliveira Tweet

Carmen Oliveira -

Não vejo como problema que a principal esfera pública para o debate entre os jovens sejam as redes sociais. O que preocupa é justamente a constituição de “bolhas virtuais” que nem poderiam ser chamadas de redes pois não agenciam conexões abertas e a-centradas. Seu nucleamento se dá por algoritmos, determinando uma partilha mínima para além do território configurado, ou seja, um compartilhamento entre iguais.

Também é equivocado afirmar que existe maior privacidade e liberdade de expressão nas redes sociais. O exército virtual em torno de fake news, hackers, perfis falsos e bots (robôs) é um recurso conhecido de manipulação da opinião pública. Uma investigação recente realizada pela BBC Brasil identificou este tipo de ações no processo eleitoral de 2014.

A principal estratégia que vem sendo usada é o que chamamos de “comportamento de manada”, expressão usada em referência ao comportamento de animais que se unem para se proteger de um predador. No senso comum isto equivale ao “Maria vai com as outras”. No caso da juventude haveria maior suscetibilidade a este tipo de agenciamento pois este ciclo vital se caracteriza por uma maior demanda ao reconhecimento do outro e também de identificação com pessoas ou grupos vistos como referências.

Voltando às “bolhas”. No plano “real” também se observa que a juventude está sitiada em muros invisíveis, que a separa em guetos voluntários (como os condomínios das elites) e guetos involuntários (como os bairros “destinados” à periferia empobrecida). Na medida em que os diferentes mundos não são mais partilháveis o reconhecimento do outro não se dá mais pelo convívio direto, mas por meio de representações, ou seja, por imagens pré-configuradas quase sempre forjadas em estigmas. Do desconhecimento à indiferença e da indiferença à intolerância são apenas alguns passos a mais que nos levam ao caminho da barbárie social.

Por isto, as manifestações que convocam a presença de jovens e velhos rebeldes de diferentes matizes nas ruas e praças podem ser vistas como um sinal promissor pelas possibilidades de derrubar as barreiras de geração e de reconquistar de maneira coletiva e pacífica os territórios urbanos demarcados por uma lógica privatista. Não sabemos ainda até que ponto tais experimentações podem ressignificar o cotidiano de cada um de nós, mas sem dúvidas abrem caminho para o contraponto ao extremismo conservador diante de um caldo ameaçador de fascismo político.

IHU On-Line - A campanha eleitoral de 2018 vem sendo marcada, entre outros fatores, pelo ódio e por ataques contra quem discorda do “seu” posicionamento, seja ele qual for. Como vê a atuação dos jovens nesse ambiente de intolerância e como esses sentimentos podem reverberar na vida em sociedade?

Estamos enredados no jogo da culpabilização, entre a exigência de um mea culpa e a acusação ao outro: minha culpa, tua culpa - Carmen Oliveira Tweet

Carmen Oliveira -

É importante compreender melhor os movimentos de rebelião que implicam na negação do outro, como podemos constatar no “Fora Temer”, no “anti-petismo” ou no “#elenão”. Na Argentina, o desejo de supressão foi ainda mais radical: “Que se vayan todos!”. Será que nada parece nos unificar a não ser o ódio em comum?

Estamos enredados no jogo da culpabilização, entre a exigência de um mea culpa e a acusação ao outro: minha culpa, tua culpa. Esta é a trama do ressentimento que, segundo Nietzsche, é uma herança da tradição metafísica. É uma forma arcaica de lidar com o mal-estar diante do desabamento de mundo e da perda de ancoragem: se algo ruiu, alguém é o culpado. Em ambas situações - quando o ressentimento se volta contra o sujeito ou quando é dirigido ao outro- o sujeito ressentido fica paralisado ao perceber que o mundo tal como ele é não deveria ser, ou de que o mundo tal qual ele deveria ser não existe. Nietzsche alerta de que isto pode levar ao fim do otimismo ou ao refúgio na crença e na veneração. Para ele, são faces da mesma moeda do niilismo, são sintomas do adoecimento da vontade.

Por isto, ele nos fala que a mutação não pode emergir do ódio do malogrado e do enjeitado ou do veneno do ressentido mas deve ser a consequência necessária de uma vontade afirmativa. Como refere Zizek, saber contra quem se luta é um começo, mas não basta saber o que não se quer, é preciso saber o que se quer. Ou seja, este tipo de protesto pela negação ao outro é insuficiente para uma pactuação de maior alcance. Em tempos de incerteza, os debates abertos precisam de respostas concretas: que tipo de organização social queremos? De que tipo de novos líderes precisamos? E que tipo de institucionalidade seria necessária para sustentar este pacto social?

IHU On-Line - Quais os desafios para a formação de jovens eleitores conscientes, preocupados com o seu futuro, mas também com as questões sociais e coletivas?

Carmen Oliveira - O TSE, juntamente com os Tribunais Regionais Eleitorais, desenvolve programas de informação em escolas municipais, estaduais e federais, atingindo atuais e futuros eleitores. São realizadas palestras e rodas de conversa, com apresentação de vídeos educativos e distribuição de cartilhas.

Tais iniciativas são necessárias, mas insuficientes, em especial porque são focais e datadas. Precisamos pensar a formação para a cidadania como parte do percurso formativo e não como algo secundário ou que deva ser impedido pois é visto como perigoso para a sociedade, como no caso daqueles que apregoam uma Escola sem Partido.

As mordaças nunca construíram a autonomia, cuja operação psíquica é considerada pela psicanalise como a principal tarefa na adolescência e juventude. As mordaças nunca fortaleceram a democracia tampouco impediram que as ideias circulassem. Ainda bem, pois como sinaliza Vladimir Safatle, precisamos da circulação de ideias para confrontar as pseudo certezas que limitam a produtividade do pensamento e, desta forma, sair das palavras de ordem, reconstruir problemas e recolocar hipóteses na mesa. Talvez seja isto que mais desperte o temor para aqueles acostumados a selecionar alternativas já postas à mesa.

IHU On-Line - No mundo todo fala-se num esgotamento da esquerda e na necessidade de reinvenção de uma outra esquerda. O jovem militante de esquerda também sofre esse esgotamento? E em que medida tem se mantido ativo e disposto a pensar numa “nova esquerda”?

Carmen Oliveira - Destacaria duas questões. Em primeiro lugar, a constatação de que a geopolítica em tempos de globalização nos leva a reposicionar o locus das lutas. Há um deslizamento progressivo do campo social para o territorial. Isto é o que o Comitê Invisível denomina de “habitar plenamente”, isto é, criar a consistência do local, fazer existir o cotidiano dos territórios, inventar formas de viver, tomar conta dos mundos que edificamos. Este tipo de ação política envolve um tempo mais longo.

Outro ponto de virada na forma de fazer política pode ser definida da seguinte forma: nenhum “céu social” acima de nossas cabeças, nenhuma miragem de horizonte, nenhum viver para o amanhã. O que existem são os “nós”, o conjunto de ramificações que se conectam e se recompõem sem parar. A unificação é operada transversalmente e não pela verticalidade (uma velha forma militarizada de organização). Portanto, a força estratégica não estaria garantida pela filiação, pela coerência ideológica ou disciplina mas pela potência do contágio, da alegria que emana dessa experimentação conjunta, da densidade de afeto e delicadeza que sustentam a disposição a agir.

Não são pontos de viragem fácil pois, como alerta o Comitê Invisível, nunca faltam burocratas que saibam o que fazer com a potência de nossos movimentos, isto é, como fazer dela um meio para o seu fim. Também subsiste a degeneração dos coletivos em vanguardas ou “seitas.” Superar estas formas de fazer política é uma tarefa difícil, mas imediata. Mas as novas gerações já demonstraram que tem um papel importante para o rejuvenescimento da política.

IHU On-Line - Quais são, na sua avaliação, as demandas dos jovens brasileiros hoje?

Carmen Oliveira - O período pós-impeachment, em que vigorou a política neoliberal austericida do Estado mínimo, produziu demandas que afetam a juventude a médio e longo prazo, tais como o congelamento de investimentos na educação pública, a perspectiva de trabalho precarizado e a insegurança sobre a aposentadoria. A esses problemas se somam aqueles que já eram pesadelos sem o devido enfrentamento, como no caso do genocídio da juventude negra, da alta evasão escolar, da juvenilização da AIDS e do sistema penitenciário.

Apesar dos impactos na vida dos jovens e de suas famílias bem como o previsível ônus a ser gerado para o Estado na assistência a tais problemas, estas questões estão praticamente invisíveis na retórica dos candidatos e até mesmo nos seus programas de governo. Nestes casos, os jovens aparecem mais como marketing das campanhas eleitorais do que como prioridades.

É interessante observar que os partidos que apoiaram as diretrizes do governo Temer sinalizadas no documento denominado de Ponte para o Futuro são os mesmos que aprovaram o congelamento dos recursos para as políticas sociais, evidenciando posições distintas para duas diferentes juventudes. Tal medida assegurou a travessia na “ponte para o futuro” dos jovens bem-nascidos, enquanto a parcela da juventude brasileira marcada como “refugo social” se viu jogada para fora, abandonada à própria sorte diante da alta vulnerabilidade.

São vidas desperdiçadas, termo usado por Bauman para designar as parcelas da população vistas como “deslocadas”, “inaptas” ou “indesejáveis”. Para esta “geração desperdiçada” a “ponte para o futuro” se transformou em uma pinguela precária, jogando a maioria a um limbo visto como irreversível, em um cenário em que prevalecem a perda de postos de trabalho, o índice recorde de pessoas trabalhando sem carteira assinada e um mercado de trabalho com uma alta taxa de rotatividade, salários miseráveis e uma competição feroz diante de poucas vagas e de altas exigência. Qual será a resposta dada nas urnas pelos jovens eleitores que constituem esta “geração desperdiçada”?

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