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A arte contra a barbárie

Da Carta Capital, 21 de Outubro, 2018
por Eduardo Nunomura, Jotabê Medeiros e Pedro Alexandre Sanches



Exposições com visões de ontem e de agora mostram estratégias de luta dos artistas em face da supressão da liberdade

Monumental exposição de Millôr Fernandes, em São Paulo, expõe trabalhos vetados pela ditadura civil-militar

Cartunista de um tempo de truculência, o carioca Millôr Fernandes (1923-2012) teve um longo histórico de relacionamento com a ditadura militar. Durante o período, acostumou-se a lidar com o sentimento de onipotência que perpassa o poder emanado dos quartéis, as idiossincrasias dos generais e o desprezo pela democracia, pela organicidade da vida social, além do fascínio pela ação subterrânea, dissimulada.

As observações do artista gráfico, caricaturista, cartunista, escritor, dramaturgo e jornalista sobre essa era aparecem logo na primeira sala da monumental exposição Millôr – Obra Gráfica, no Instituto Moreira Salles, em São Paulo.
Há um cartum em que um general todo medalhado mede olhares com um faisão, as cores e a pose de ambos destacadas como num concurso de beleza. Em outro, um médico examina o oficial. “O senhor está com excesso de soberania”, diagnostica.

Os efeitos colaterais da militarização espalham-se pelos desenhos: dos agentes infiltrados na sociedade à espionagem, da falta de transparência à censura, e sempre os indígenas são tratados como obstáculos ou inimigos dos militares. Um repórter tenta entrevistar um oficial da Tropa de Choque enfiado numa armadura: “Não sei, rapaz, sou totalmente apolítico”, responde o militar.

Um dos mais perseguidos pela censura, Millôr debocha dos perseguidores com o escudo do sarcasmo – a mostra expõe um bilhete de um editor ao artista lhe devolvendo “mais um” desenho censurado. Ele chega a desenhar a si mesmo à frente de um computador, tendo às costas um militar com um chicote.

Uma tesoura corta uma flor feita de jornais. Surdo à pressão popular, o general Figueiredo crê que os xingamentos de “jumento, burro, cavalgadura, quadrúpede, asno, besta e mula” destinam-se ao seu cavalo.

Com mais de 500 originais selecionados entre quase 7 mil desenhos, Millôr – Obra Gráfica é uma dentre muitas mostras em curso que permitem antever ou rever os perigos do autoritarismo. À beira de uma nova era militar, desta vez tingida pelas cores da ação miliciana, a resistência artística parece ser um dos poucos portos seguros.

Millôr era “desassombrado”, no dizer do curador da mostra, o também artista gráfico Cássio Loredano. Apesar de bater forte nos militares, não foi preso nem torturado, e Loredano acredita que só escapou porque lhe tinham respeito, além de tentarem manter alguma aparência de democracia.

“Golbery era uma águia. Havia desaparecimentos, torturas, exílio, mas com ele não mexeram. Foi até bom, porque tem esse farol que ele deixou, mostrando como era aquele regime”, afirma. “Que falta faz um cara desses neste tempo de crise, a imprensa minguando…”, lamenta o curador.

O libelo de Millôr poderia parecer extemporâneo, mas cai como luva para a atual realidade. “Há uma repetição muito perversa, que é a nostalgia do silenciamento, do autoritarismo e do Estado como máquina de perseguição dos seus cidadãos”, reflete Paulo Miyada, curador, no Instituto Tomie Ohtake, da exposição AI-5 50 Anos – Ainda Não Terminou de Acabar.

Essa mostra começou a ser planejada em agosto de 2017, próximo a episódios premonitórios: o cancelamento da exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença, em Porto Alegre, e a performance La Bête, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, ambas perseguidas por grupos paranoicos de direita.

Reúne mais de 300 itens, entre obras de Hélio Oiticica, Cildo Meireles, Paulo Bruscky, Regina Silveira, Mario Pedrosa e outros, mostrando as dificuldades da expressão artística em meio à cassação dos direitos democráticos.

A sistemática dos regimes de força é sempre igual, mas houve uma mudança comportamental em 2018. “A situação é diferente, porque a opinião está hiperestimulada e hipervisibilizada, quase uma atrofia da opinião, com muita gente falando e poucos ouvindo, criando massas de replicadores de ideias preconceituosas e arbitrárias”, pondera Miyada.

Ele diz temer pelo que pode atingir o setor cultural, com dificuldades ainda maiores. “A tendência é de que a arte seja cada vez mais cerceada e vigiada, e se torne mais complexo fazer projetos que destoem dos consensos atuais. É difícil prever com que velocidade e nível de obscenidade esses retrocessos podem se dar”, defende.

Um dos espaços que ainda resistem à onda fascista está no Paço das Artes, do governo estadual paulista, que leva até dezembro a exposição Estado(s) de

Emergência, para a Oficina Oswald de Andrade, no Bom Retiro. A mostra aborda a ditadura civil-militar de 1964 e propõe uma ponte para o presente que faça repensar a violência, a censura e o preconceito nos dias atuais.

Priscila Arantes, diretora artística do Paço das Artes e curadora da mostra ao lado de Diego Matos, discorre sobre a gravidade do momento: “Percebe-se não apenas a utilização de discursos radicais, mas também falas mais amenas que relativizam o período da ditadura civil-militar no Brasil como ‘a ditadura não existiu’ ou ‘não é tudo isso que pintam’”, diz Priscila.

“Hoje, tudo ocorre dentro de nichos de consumo. Temos de lutar contra um retrocesso na cultura, mas também contra esse modo de produção, senão ficaremos confinados nessa estrutura de existência”, afirma Sérgio de Carvalho, vice-diretor do prédio da Maria Antônia e diretor do Tusp.

Carvalho pilota uma mostra que revisita um período de ferrenha resistência: em 1967, um grupo de estudantes universitários reuniu-se para produzir a peça Os Fuzis da Dona Tereza, menos conhecida, mas cuja importância para a resistência agora vem a público em uma das exposições abertas no Centro Maria Antônia.

A lendária peça Os Fuzis da Dona Tereza, dirigida por Flávio Império e montada no Teatro Ruth Escobar, chegou a ser mais elogiada que O Rei da Vela e Roda Viva, dirigidas por José Celso Martinez Corrêa.

É uma adaptação livre de um texto de Bertolt Brecht sobre a Guerra Civil Espanhola, mas que na montagem brasileira virou uma mola propulsora para a participação política. “Foi uma peça feita para estudantes politizados, que estreou antes do AI-5, mas o grupo acabou se dissolvendo depois dele”, explica Carvalho.

Para relembrar os 50 anos do AI-5, a USP criou uma comissão interna e um dos momentos-chave que logo emergiram nas discussões foi a famosa batalha da Rua Maria Antônia, em 2 de outubro de 1968, que resultou na morte do secundarista José Guimarães.

“O propósito não foi pensar nela apenas com a ideia de que a ‘batalha’ contrapôs estudantes do Mackenzie e da USP, os da direita versus os da esquerda, mas que houve questões mais amplas, como o recrudescimento da ditadura”, diz Lucia Barbosa, diretora do Centro Maria Antônia.

No espaço houve em outubro deste ano o evento Ecos de 1968 – 50 Anos Depois, que resultou em outras atividades ainda em cartaz, como as exposições Re Vou Ver, a partir de fotos de Hiroto Yoshioka, estudante da FAU, que registrou a “batalha”, Re Ve Lando, composta de imagens dos fotojornalistas Luiz Humberto e Orlando Brito, e Camadas – Narratividades Visuais da Violência, no qual o Coletivo Lâmina criou uma instalação imersiva a partir de imagens das manifestações de 2013.

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