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O Professor Descolado

Do GGN, 7 de Agosto, 2018
Por Jean Pierre Chauvin



“[…] ao descobrir-me ingênuo, comecei a tornar-me crítico” (Paulo Freire)1

“[…] o esclarecimento abdicou de sua própria realização” (Theodor Adorno & Max Horkheimer)2

“[…] o campo das instituições de ensino superior (...) reproduz, na lógica propriamente acadêmica a estrutura do campo do poder" (Pierre Bourdieu)3

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Se há uma figura capaz de cair mais facilmente nas graças do alunado (e dos “gestores”) é a do “professor descolado”. Você já terá cruzado com um destes. Ele conhece “tudo” sobre as “novas mídias”; fala “de igual para igual” com os estudantes; reproduz os pseudovalores do empresariado. A linguagem é vazia, mas up to date: ele é o “líder” e os alunos são eufemisticamente chamados de “colaboradores”. Com um toque de condão, a “turma” vira “equipe”.

Esqueça o sócio construtivismo ou a hipótese mais realista, freiriana, que pressupõe a escuta pelo educador (do que aporta e diz o aluno) e a mediação do conhecimento para o aluno (pelo educador). A pedagogia do “descolado” “inova” no que Paulo Freire disse, sem nunca tê-lo lido: “atualiza” (mas nunca revoluciona, é claro) o teor do que nosso maior educador defendia.

Mas, alto lá! Engana-se quem acredita que o “professor descolado” limita-se aos níveis fundamental e médio. Ele está, há tempos, nas melhores universidades do país. Aprendeu, -- desde as primeiras reuniões estratégicas para “captar” matriculados -- que o estudante é cliente e que, para assegurar o emprego é preciso manter a melhor relação possível com eles.
O ciclo é vicioso e perverso, mas, a julgar pelo teor dos comerciais que circulam na televisão, no rádio e na internet, é a Faculdade que deve agradar ao Mercado… Fico a me perguntar: ok; mas, se o mercado cooptar a palavra daqueles que refletem, onde, como, por quem, com quem e para quem o pensamento será produzido? Qual será o seu lugar – supondo-se a aliança “benéfica” entre pragmatismo imediato e formação plena?

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Porém, faça reparo. O “professor descolado” não se confunde com o Sir Mark Thackeray, de Ao Mestre com Carinho (1967), nem com o Professor John Keating, de Sociedade dos Poetas Mortos (1989), tampouco com Merlí Bergeron, da série Merlí (2015-2018). Diferentemente das personagens interpretadas nas telas, o “professor descolado” confunde “revolução” nos métodos de ensino com subserviência aos seus estudantes.

O saldo é que os papéis de professor e aluno se confundem. Não se peça a um estudante que tenha mais discernimento que seus mestres... Ah, bem, esqueci-me de que a palavra “mestre” foi praticamente expurgada da Educação formal. Mestre, mesmo, só se pertencer à ordem dos Jedi, como defende a dita “cultura” geek.

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A questão ganha maior gravidade, se considerarmos outra acepção de “descolamento”. Refiro-me ao sujeito que, por algum motivo, continua a confundir a dignidade do seu ofício com a atitude arrogante. Neste segundo caso, o “professor descolado” age em descompasso com o mundo que o cerca.

Isso não quer dizer que ignore as mídias sociais, os novos suportes e tecnologias. Significa que, precarizado financeiramente, destituído de seu lugar honroso, dos “bons tempos” de cátedra, o professor lança mão de recursos toscos, de modo a ser percebido como sujeito vetusto, sério, repleto de saberes e domínios sobre os seus alunos.

Na universidade pública (que ainda tem algum prestígio, neste país) é bastante comum topar com o “professor descolado nível 2”. É aquele sujeito que se recusa a almoçar em qualquer lugar, vestir-se sem ostentação e passar mais de seis meses sem viajar – de preferência para o exterior.

Embora tenha incorporado o discurso da modernização e se diga deslumbrado pelas novas tecnologias, discorre fragmentariamente sobre os temas da “sua” aula; tem visível dificuldade para falar de algo não contemplado por “sua” tese de doutorado e costuma agir de maneira incoerente com relação ao que declara durante o horário de aula.

A essa turma de “professores descolados”, interessa-lhe destacar-se socialmente. Seu representante típico é aquele que não se considera autoritário feito um big boss, embora recorra aos alunos para suplementar a “sua” produção pífia. É aquele que anseia pelas formas de distinção social, nem que para isso precise inventar viagens que não fez e simule participar de eventos para os quais não foi convidado.

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O “descolado” da primeira espécie corresponde ao que Umberto Eco chamava de sujeito “integrado” ao sistema4. Ele não ensina a refletir; molda seus alunos para que atendam às expectativas do famigerado Mercado. O “descolado” da segunda espécie corresponde ao que Pierre Bourdieu chamava de homos academicus5 – vive em busca de índices de distinção, pois incorporou o conceito de “capital cultural”.

Por exemplo, ele acredita que não responder a e-mails enviados pelos alunos (inclusive os mais interessados) pode valorizar o “seu” passe e estimular maior respeito por parte de seus futuros pupilos.

Nem confundir as tintas, nem criar obstáculos para se relacionar com os demais. A primeira providência do professor universitário é declarar-se parte do povo (e não seu guia iluminado, capaz de conduzir as massas pelos desvãos da cegueira). Assumindo-se desta forma será mais fácil sentir a dor dos outros e desejar fazer algo para além dos muros da muy douta academia.

Alguém precisa avisá-lo de que a era do Iluminismo terminou mais ou menos entre os séculos XVIII e XIX.

Mas, porventura esse lembrete não seja suficiente, sugiro que o “deslocado” (re)leia A Dialética do Esclarecimento, de Theodor Adorno e Max Horkheimer. E, se isso não bastar, recomendo outro alvitre: perceber o seu lugar e o do outro, na luta contra o lucro -- instituído, pela menor parcela da sociedade, como razão da existência. “Valor” absoluto e universal.

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1. Pedagogia do Oprimido. 64a ed. São Paulo: Paz e Terra, 2017, p. 32.

2. Dialética do Esclarecimento. 1a reimp. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 45.

3. Homo Academicus. Trad. Ariel Dilon. Buenos Aires: Siglo XXI, 2008, p. 56.

4. Apocalípticos e Integrados. 6a ed.; 3a reimp. Trad. Pérola de Carvalho. São Paulo: Perspectiva, 2008.

5. Op. Cit.

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