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As eleições e as comparações perigosas

Afinal, quem é o Trump brasileiro? Bolsonaro poderia ser equiparado a uma Marine Le Pen? Debaixo desse tipo de “comparação perigosa”, a que mesmo as esquerdas são convidadas, fica o ímpeto do desfoque de herança colonial. É como se para nos apoderarmos de nossa própria história precisássemos da comparações europeias ou, pelo menos, advindas do hemisfério norte.


Do Blog da boitempo, 9 de Agosto, 2018
Por Flávio Aguiar.


Acompanhando de longe, do ponto de vista do olhar, e de perto, do ponto de vista do coração, o processo surreal das eleições brasileiras, me vejo cotidianamente confrontado com o “reino das comparações perigosas”.

A mais recente diz que Fernando Haddad pode ser o Ivan Duque (presidente da Colômbia, tido como fantoche de Uribe) brasileiro.

Mas a mais perigosa é a que diz ser Jair Bolsonaro “o Trump brasileiro”. Bolsonaro não tem nada de Trump, do topete às atitudes intempestivas.

Nada em Bolsonaro é intempestivo. É tudo calculado, milimetricamente, para agradar a seu eleitorado cativo. Até a escolha do General Mourão, este cara meio bronco que considera africanos malandros e índios indolentes, na melhor maneira de séculos atrás.
A escolha de Mourão foi a resposta à consolidação da chapa Chuchu-Chicote pelo PSDB. Ambos sabem que disputam a mesma seara: a extrema-direita brasileira. Se Chuchu-Chicote deseja chegar ao segundo turno, é daí que ele deve roubar votos que seriam destinados a Bolsonaro-Mourão.

No máximo, e olhe lá, Bolsonaro poderia ser equiparado a uma Marine Le Pen de saias, ou um Gert Wilders moreno, quem sabe um Matteo Salvitti grisalho.

Trump, no Brasil, equivale a Chuchu, seguido de Chicote. São as mesmas ideias anacrônicas. O mesmo impulso de privatizar tudo, de acabar com todos os progressos civilizatórios que tivemos desde 1988, a mesma gana de se empalmar do Estado Federal para desarticular as benesses aos pobres que ainda restarem depois do vendaval Temer.

Mas debaixo dessas “comparações perigosas”, a que mesmo as esquerdas são convidadas, fica o ímpeto do desfoque de herança colonial. Muitos dos positivistas do século XIX viam a História Brasileira como uma História Francesa com um século de atraso. Por isto compararam o 15 de novembro ao 14 de julho, e a insurreição do Belo Monte (rebatizada como Guerra de Canudos) à insurreição restauradora da Vendeia, no século XVIII. Precisamos de um Euclides da Cunha de uma obra titânica, como “Os sertões”, para desfazer o equívoco, embora a sua estrutura continue vingando entre nós.

É como se para nos apoderarmos de nossa própria história, precisássemos da comparações europeias ou, pelo menos, advindas do hemisfério norte.

Não precisamos disto. Bolsonaro é Bolsonaro, um ignorante alçado a líder do ressentimento dos que se sentem ameaçados pela ascensão dos pobres a tudo que viam como seus privilégios: de aeroportos a shoppings.

Chuchu e Chicote são os que disputam este setor e aliam a ele os que se querem “bem pensantes”, os pessedebais da vida que acham que política “é para gente séria”, não para ser decidida nas urnas.

Marina/Eduardo são os brotos verdes da desilusão: se lançam como balões ao ar, cheios de gás, oriundos dos ninhos onde nasceram, mas sem grandes esperanças de passaram além dos horizontes.

Meirelles é mesmo o filhote de Temer e de sua própria riqueza. Vai adiante até onde seus milhões chegarem e até onde as misérias de Temer permitirem.

Boulos é Boulos, maior que o PSOL que o abrigou. Pode ser que com ele o PSOL deixe de ser uma legenda regional do Rio e de alguns bairros de São Paulo.

Lula é Lula, Haddad é Haddad, Manuela é Manuela, um triângulo inédito na História do Brasil. A ver onde chegam.

O que se precisa reconhecer é que a trajetória brasileira é inteiramente original. Não tem paralelo. E assim precisa ser estudada.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel (2012). Seu mais novo livro é O legado de Capitu, publicado em versão eletrônica (e-book). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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