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A AMÉRICA INDÍGENA ENCONTRA O FILÓSOFO ALEMÃO

Imagem por Divulgação |
Autonomia Literária
Um Marx perigosamente vivo

Do Le Monde Diplomatique, agosto 8, 2018
por Alana Moraes


Resenha do livro Marx selvagem, de Jean Tible (3.ed.: Autonomia Literária, 2018)

Marx devorado

Marx agora é um corpo estendido e muito vivo, atravessado por marcas e linhas estreitas que se alongam acompanhando generosamente o movimento brusco das curvas da pele. De um vermelho também muito vivo faz-se sua superfície corporal tomada pelo calor da fogueira, da febre, das bandeiras em chamas. Quanto tempo faz? Esse corpo que não possui o seu tempo, mas é carregado por ele. Somos conduzidos então por uma dança de movimentos firmes e agitados. Um renano!, um qualquer um!, grita o filósofo contra a filosofia. Marx escolhia o anonimato em seus primeiros textos. Intuía assim a força de um pensamento desautorizado, isto é, aquele que despreza o lugar da autoria: “anota aí: eu sou ninguém!”. O poder compreende rápido o perigo de um pensamento maldito que desobedece os ritos de autoridade, as catracas. Marx é censurado, perseguido, é exilado. Uma filosofia em fuga arrasta-o para o meio da floresta. Aqui estamos, despidos de toda transcendência. Corpos pintados para a guerra. O preto, o vermelho, as substâncias que nos permitem perceber o movimento de tudo. Um tempo mítico tinge de urucum a luta de camponeses europeus empobrecidos pelo direito à floresta, ao uso das lenhas que agora se tornaria crime. Um novo arcabouço legal era então erguido para transformar em delito o que antes era a vida em comum. Marx toma parte da situação e com a inteligência própria daqueles que se deixam arrastar pela paixão das lutas, fabrica sua artimanha argumentativa: o movimento do capital se faz moribundo, se apropriando do que é comum. A propriedade estabiliza, ergue cercas contra os usos incertos, destrói a criação coletiva da auto-organização e o faz em nome do Estado. Transforma a natureza e os corpos em “recursos”, o uso livre em “crime”. Sabem bem os yanomamis e sua luta permanente contra a invasão garimpeira e a epidemia-fumaça que traz consigo. Assim é Marx Selvagem. Uma convocação, um chamado produzido por tambores, canções de liberdade e novas barricadas. A luta de classes é a luta entre as forças que movem contra aquelas que não se deixam mover. Sabemos agora que a revolta é feita de músculos, carne e uma disposição irremediável para a liberdade.

Livro-rito. A América indígena encontra, enfim, o filósofo alemão e o devora em um ritual de cura coletiva contra aquilo que Marx chamava de “delírio do capitalismo” e ao que o Xamã yanomami Davi Kopenawa concordaria: os brancos são o povo enfeitiçado da mercadoria. Índio pensa?, pergunta Descartes através do poeta. Índio come quem pensa – isso, sim.

Em um manuscrito de 1844, Marx chega a definir o comunismo como a “verdadeira dissolução do antagonismo do homem com a natureza”. Como nos mostra Jean Tible, o comunismo em Marx seria também a “ressurreição da natureza”. O livro nos aponta como flecha o que talvez seria uma das mais importantes tarefas revolucionárias de nossos tempos: não mais “explicar” pensamentos, mas, ao contrário, experimentar com eles. Criar relações permanentes entre modos de pensar, devorar, ser devorado. Comunismo antropofágico. Abrir, pintar e tecer no corpo os caminhos que nos conduzem à revolta coletiva. Se as cercas, assim como a violência colonial, são os monumentos inaugurais da modernidade, uma prática de descolonização permanente do pensamento exige desconfiar sempre das nossas próprias cercas, às vezes chamadas de ismos. Marx selvagem é praça, é festa e fogueira.

pensamento-luta

Em Marx Selvagem a luta é o próprio risco do pensamento. Não há outro fio condutor possível para se compreender o pensamento do filósofo que não seja sua fabulosa disposição de se deixar transformar pelo movimento das revoltas e por outras formas, não capitalistas, de organização da vida. Tecelões na Silésia, Comuna de Paris, as lutas anticoloniais e as experiências indígenas, seu interesse pelas formas comunais de propriedade na antiga Rússia agrária. Jean Tible nos apresenta um pensamento marxiano que se arrisca e se refaz na medida em que se deixa conduzir pelos ruídos do mundo e suas incertezas. Marx Selvagem é o pensamento feito de outros. Seria assim um Marx Anti-Narciso, como sugere Eduardo Viveiros de Castro ao falar sobre o que seria uma verdadeira antropologia? As lutas não nascem prontas, suas formas são incertas. Por isso Marx Selvagem atua como um cartógrafo das lutas, perseguindo seus rastros e proposições. Da Comuna de Paris (1871) extrai a radicalidade da noção teórica de associação. Sua forma organizativa aberta e auto-gerida foi capaz de desafiar a arquitetura hierárquica de uma política fora-da-vida. A Comuna de Paris tornou a auto-representação e o espírito dos conselhos pontos incontornáveis do pensamento de Marx. Do interesse pela organização da Liga dos Iroqueses, indígenas da América do Norte, Marx extrai a força da forma confederada. Uma forma-aliança que contém a diferença e soberania dos grupos que a compõem, desprezando assim a necessidade de um poder central e unificado. Das comunas rurais russas, Marx consolida sua visão sobre a marcha do capitalismo na direção de uma expropriação permanente do que é o comum. Marx Selvagem é aquele que afirma em suas buscas o primado constitutivo das lutas e das experiências de auto-organização dos povos. O proletariado, como bem nos lembra Benjamin, é a “última classe escravizada”, aquela capaz de vingar todas as outras. Não à toa, Marx confessa no “Questionário de Proust” que seu herói preferido é Spartacus, líder de uma revolta de escravos. Aldeias, ocupações, praças e escolas tomadas, comissões de fábrica, quilombos: a radicalidade da associação e do auto-governo atravessa a história das lutas em uma ressurreição permanente. Em Marx Selvagem, vemos uma outra tessitura da história. Trata-se de um tecido entremeado, composto por fios de diversas colorações e texturas: o pré-capitalismo se emenda com o pós-capitalismo constrangendo dessa forma as apropriações lineares de uma história marxista conduzida pelo delírio do progresso.

paixão pelas formas incertas

Marx Selvagem é pensar ao ar livre. Oferta ao marxismo empedernido uma possibilidade de encontro com saberes e práticas sempre recusadas pelo projeto ocidental de modernidade e suas instituições. Marx-xamã nos brinda agora com um mundo outro, costurado por vários outros mundos e cantos de guerra. Pensar em um marxismo crítico da modernidade e seus aparelhos conceituais. Marx mesmo o faz, quando por diversas vezes trata o capitalismo como um “mundo enfeitiçado”, abstrações e fetiches capitalistas atuando como feitiços do pensamento. O capitalismo não nos expropria apenas materialmente, mas também imaginativamente quando nos convence que as experiências de organização indígena fazem parte de um passado e não mais de uma possibilidade latente. Quando nos convence que “feitiçaria não existe” para continuar capturando nossos desejos. Produzir resistências é, portanto, assumir que nossa guerra é também uma guerra de mundos, fazendo da nossa própria existência um campo de batalha. A conversa entre Kopenawa e Marx é conduzida por uma política na vida, terra e imanência contra a miséria de duas formas de transcendência, como chama atenção Tible: o Estado (que institui a divisão entre representantes e representados) e o capital (divisão entre o produtor e o seu produto). As experiências ancestrais das lutas contra o capitalismo, assim como os xapiripe, imagem dos ancestrais yanomami, nos deixam atentas para a força do invisível sempre existente na feitura de nossas existências e política: curas, relações, vínculos, intuições. Nos reapropriar de nossa inteligência coletiva porque o pensamento branco, alerta Kopenawa, se esfumaçou e se fechou às outras coisas.

Em 18 de Brumário, Marx parece encontrar muita convergência com a concepção de um contra-Estado indígena. Ambas as filosofias desconfiam de um poder unificado e autonomizado do resto da sociedade, um “poder parasita”, nas palavras de Marx. Mas foi durante a Comuna de Paris que ele, arrastado pelas criações políticas da revolta, foi levado à sua posição mais radical na qual chega a afirmar que as investidas revolucionárias não devem se limitar a fazer “mudar de mão” o aparelho do Estado, mas sim “esmagá-lo”. A Comuna revela-se para Marx como um sacrifício da luta dos trabalhadores, a invenção de uma democracia verdadeira, devendo por isso ser honrada. A representação deveria servir ao povo e não o contrário justamente como é a concepção de chefia indígena permanentemente bloqueando a concentração do poder.

“Mas as revoltas não centralizadas são derrotadas!”, ostenta uma nova certeza da esquerda. Em Marx Selvagem, ao contrário, descobrimos no filósofo do comunismo uma paixão pelas formas incertas. A Comuna de Paris não possuía utopias prontas, programas acabados. Seu triunfo, defende Marx, foi acontecer, “liberar os elementos da nova sociedade da qual a colapsante sociedade burguesa é prenhe”. Pensar o mundo como prenhe de outros, o comunismo não mais como uma utopia fantasmagórica, nem tampouco um golpe de marketing, mas como uma composição de relações que já habitam nosso mundo, um urgente compromisso com a realidade. Um mundo feito pelo princípio da fertilidade, como nos conta Kopenawa, habitado pela herança das lutas ancestrais, pela força dos rios e florestas animando nossa existência contra a necropolítica do capital. Mas o mundo está perigosamente vivo, nos lembra os guayaki.

Como recuperar o vigor de Marx em um mundo em ruínas, sufocado pelas vidas que faltam: Marielle, Amarildo, Marcos Vinícius? O capitalismo é mesmo uma força de devastação cuja aposta é na produção permanente de terror e zonas de morte. O filósofo das lutas, no entanto, teima no vigor produzido por aquelas e aqueles que obstinam-se na tarefa da vida insistindo contra o Estado mortífero: mães em guerra por justiça, mulheres hermanadas que constroem os espaços vinculares de luta, cura e saberes: resistir é tecer relações como nos mostra a sabedoria indígena.

Marx Selvagem, enfim, também devorado pelas lutas feministas de nossos tempos, aquelas que nos mostram a força dos nossos vínculos, a possibilidade de compartilhar nossas precariedades corpóreas e fazer da nossa interdependência não mais uma fragilidade, mas um lugar de criação e revolta. As bruxas incansavelmente em guerra contra seus caçadores. Corpos pintados, novos feitiços e novas tecnologias para nossas infraestruturas de vida comum. “Vidas e diferenças face à destruição de mundos”, como nos conta Jean Tible em um gesto de confiança ou como um convite para a nossa próxima grande festa.


*Alana Moraes, antropóloga e doutoranda no Museu Nacional-UFRJ, é coorganizadora dos livros Junho: potência das ruas e das redes (F. Ebert, 2014) e Cartografias da emergência: novas lutas no Brasil (F. Ebert, 2015); pesquisa novas formas de politização no Brasil a partir da experiência das ocupações urbanas do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) na periferia de São Paulo; estuda os cruzamentos entre política, gênero e classe e epistemologia feminista; e é parte do cursinho popular Dandara na ocupação povo sem medo do Capão Redondo e da rede de pesquisa-luta Urucum.

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