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Vitória de Obrador é maior reviravolta no México desde a revolução de 1910

Da Carta Capital, 09 de Julho, 2018
por Antonio Luiz M. C. Costa 


Guillermo Arias/AFP
Desempenho do candidato de centro-esquerda não decepcionou: as pesquisas indicavam vitória há meses, mas resultado foi muito além do esperado

Mexicanos comemoram vitória de AMLO no país

Impedido pelo prefeito do PRD de fazer seu comício de encerramento no Zócalo, a histórica praça central da capital mexicana, Andrés Manuel López Obrador, o AMLO, encerrou sua campanha no Estádio Azteca com um comício gigantesco e um entusiasmo digno de uma vitória mexicana na final da Copa do Mundo.

A seleção do país caiu, como sempre, nas Oitavas de Final, mas o desempenho do candidato de centro-esquerda não decepcionou seus partidários. As pesquisas indicavam sua vitória há meses, mas o resultado foi muito além do esperado. A comemoração no Zócalo foi incontrolável e estrondosa, com toda a razão.

No México não há segundo turno, mas, mesmo que houvesse, não teria sido necessário. AMLO venceu com 53,3% dos votos, a maior porcentagem obtida em uma eleição presidencial desde 1982 – e a maior da história em eleições competitivas, pois de 1917 a 1982, tratou-se, na prática, de um país de partido único. Seu Movimento de Regeneração Nacional – MORENA, registrado em 2014, com seus dois pequenos aliados, o Partido do Trabalho (PT) e o Encontro Social (partido evangélico) tiveram 42% dos votos para a Câmara e devem passar de 59 para mais de 280 deputados, maioria absoluta em 500 assentos.

No Senado, devem ficar com mais de metade do total de 128 cadeiras. Elegeram também cinco dos nove executivos estaduais em disputa no domingo 1º e podem conseguir maioria em 17 dos 31 legislativos estaduais. Desde 1997, quando acabou a hegemonia do PRI, não se via um partido ou coalizão ter um controle tão amplo do Executivo e do Legislativo.

O governista PRI, que com seus precursores dominou a política mexicana da revolução de 1910 aos anos 1990, teve, com seus coligados, 16% dos votos para o Executivo e 11,6% para a Câmara. O PAN, oposição conservadora consentida na segunda metade do século XX e governo de 2000 a 2012, teve com sua coalizão (incluído o PRD liderado por AMLO até 1999) 22,5% dos votos presidenciais e 26,1% para a maior casa do Legislativo.

Outro indicador da profundidade da renovação é que 49% da Câmara e 51% do Senado serão constituídos de mulheres (eram, até agora, 37% e 33%), o Distrito Federal terá sua primeira governadora e metade do novo ministério será feminina. A reforma eleitoral de 2014 exigiu dos partidos 50% de candidaturas femininas, mas não impôs quotas para os eleitos. É um resultado notável para um país outrora tido como o mais machista do continente.

Essa reviravolta sem precedentes se deve à tenacidade e coerência do próprio AMLO e à fúria contra a xenofobia de Donald Trump, mas, principalmente, ao esfacelamento da economia e da segurança nos últimos governos do PAN e do PRI. Nada menos de 48 dos 18 mil candidatos desta eleição (a cerca de 3,4 mil cargos) e dezenas de militantes e funcionários de partidos foram assassinados por não agradarem às máfias políticas ou aos cartéis de drogas, e cerca de uma centena desistiu das candidaturas para evitar o mesmo destino.

Em termos abstratos, o índice de assassinatos não é maior que o do Brasil em relação à população, mas isso não reflete a extensão e profundidade do terror inspirado pelo crime organizado e seus cúmplices policiais e políticos.

É exemplo o massacre de Ayotzinapa de 2014, no qual seis estudantes foram mortos por policiais e outros 43 entregues por eles a narcotraficantes para serem executados por terem planejado protestar durante um evento organizado por um prefeito do PRD – ou a execução, às vezes com extremos de crueldade, de 13 jornalistas em 2017, mais do que em países conflagrados como a Síria, o Iraque ou o Afeganistão.

O volume e a brutalidade do narcotráfico cresceram exponencialmente desde a adesão do México ao Nafta, em 1994, enquanto a economia praticamente estagnou, os salários reais continuaram no nível de 1980, a pobreza aumentou, comunidades indígenas se desarticularam e milhões de camponeses foram expulsos das áreas rurais pela concorrência do milho estadunidense.

E agora as limitadas compensações que o México obteve ao aceitar sua desagregação social – as linhas “maquiladoras” de automóveis e bens duráveis destinados aos EUA e Canadá – estão para ser anuladas pela disposição de Trump de liquidar o livre-comércio.

Razões para rejeitar o modelo vendido aos mexicanos no último quarto de século não faltam – e nesse país cujas história e imaginação foram moldadas por nomes como Benito Juárez, Pancho Villa, Emiliano Zapata, Lázaro Cárdenas, Diego Rivera, Frida Kahlo e Octavio Paz, seria uma surpresa se a indignação não tomasse o caráter de nacionalismo de esquerda.

AMLO encontra Peña Nieto para iniciar uma transição de cinco meses (Foto: Mexican Presidency/AFP)

Absurdamente, The Washington Post, The Atlantic, The Economist, Sky News, The Wall Street Journal e Rolling Stone chamaram AMLO de um “Trump mexicano”, quando se trata da antítese do bilionário estadunidense em estilo de vida, propostas políticas, articulação com movimentos sociais e, obviamente, respeito pelo povo mexicano e sua história.

O único traço comum é a contestação, de pontos de vista opostos, do consenso neoliberal. Este se desfaz a olhos vistos, mas as elites nele formadas se recusam a ver seus problemas e insistem dogmaticamente em considerar como sintomas de fanatismo, irracionalidade e autoritarismo todas as alternativas, sem se dar ao trabalho de analisar suas histórias, propostas e objetivos.

No próprio México e no restante da América Latina, essa comparação soa demasiado ridícula, inclusive a ouvidos liberais e conservadores. AMLO é comparado, pelo contrário, a Hugo Chávez, apesar de estar muito distante do militarismo e personalismo do finado líder venezuelano e um pouco mais razoavelmente a Lula, mesmo se não tem origens populares e sindicais. López Obrador é filho de lojistas prósperos, estudou ciências políticas e começou sua carreira no autoritário, mas ainda nacionalista e popular PRI dos anos 1970.

Quando esse partido guinou para a direita neoliberal, a partir do governo de Miguel de la Madrid (1982-1988), uniu-se à ala esquerda de Cuauhtémoc Cárdenas e o acompanhou na dissidência que deu origem ao PRD, pelo qual foi governador de Tabasco, prefeito da Cidade do México e candidato presidencial em 2006 e 2012, eleições nas quais ficou em segundo lugar e, provavelmente, só não venceu por fraude. Nesse ano, rompeu com o PRD, cujo controle fora tomado pelas alas mais conservadoras, para trabalhar na fundação do MORENA.

Foi uma manobra arriscada, mas acertada. O PRD degenerou e, após se recusar a fazer um expurgo e uma reavaliação radical depois do escândalo de Ayotzinapa, foi abandonado pelo próprio Cuauhtémoc Cárdenas e reduziu-se a uma legenda de conveniência, que nesta eleição aliou-se ao conservador PAN, mas, provavelmente, tentará agora uma aliança com os novos vencedores.

Livre das estruturas herdadas do PRI, o novo partido atraiu movimentos sociais e ambientais independentes dos partidos tradicionais, bem como ativistas e intelectuais antes avessos à política partidária. A mídia conservadora quer pintá-lo como uma massa despreparada a reboque de um caudilho carismático, mas os militantes, candidatos e futuros ministros trazem contribuições de organizações de base e trajetórias com brilho próprio que moldaram o caráter do partido e do programa e estão em posição de lhe cobrar os compromissos do líder.

Um exemplo é a nova governadora do Distrito Federal, Claudia Sheinbaum, que encerrou 21 anos de hegemonia do PRD no comando da Cidade do México. Ex-dirigente estudantil e engenheira ambiental, acompanha López Obrador desde 2000, quando foi secretária do Ambiente de seu governo da capital, mas também tem mais de cem publicações acadêmicas e integrou o IPCC, grupo de peritos que assessora a política ambiental da ONU e ganhou o Nobel da Paz em 2007.

Carlos Manuel Urzúa, matemático, economista e futuro ministro da Fazenda, também participou desse governo da capital e foi consultor do Banco Mundial, Cepal, Nações Unidas e OCDE. O futuro chanceler Héctor Vasconcelos, diplomata e intelectual, é filho de José Vasconcelos, o ideólogo da Revolução Mexicana. Rocío Nahle, que será ministra da Energia, foi engenheira da Pemex e líder da primeira bancada do MORENA na Câmara.

Entretanto, mesmo com maioria no Congresso, as mesmas condições que tornaram a rebelião popular possível dificultarão satisfazer as expectativas dos eleitores, mesmo sem contar com a oposição de um dos sistemas econômicos e midiáticos mais cartelizados do mundo. AMLO está consciente da necessidade de manter forte apoio popular para enfrentá-lo e anuncia desde já um plebiscito para confirmar seu mandato ao fim dos primeiros três de seis anos de governo.

E há uma superpotência hostil ali do lado. A primeira conversa com Trump, segundo testemunhos dos dois lados, foi respeitosa e AMLO, aparentemente, o agradou ao dizer que reduzirá a migração para os EUA ao criar empregos. Mas reformas sérias inevitavelmente desencadearão a sabotagem do setor financeiro, empresarial e midiático e da máquina governamental, judiciária e policial corrompida por gerações de autoritarismo, cinismo e violência.

A oposição pode contar com o apoio do outro lado da fronteira e talvez com armas. Como revelou reportagem de 4 de julho da Associated Press, em agosto de 2017 Trump tentou convencer sua equipe e presidentes sul-americanos a apoiar uma intervenção militar na Venezuela – e qualquer aparência de “instabilidade” lhe daria pretexto para tentar o mesmo no vizinho do Sul, com muito menos oposição militar e dificuldades logísticas.
 

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