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Pós-Verdade, resenha do livro de Matthew D'Ancona

Do GGN, 16 de Julho, 2018
por Fábio de Oliveira Ribeiro



A obra do jornalista Matthew D’Ancona, publicado no Brasil pela Faro Editorial, tem tudo para ser uma ferramenta indispensável nas mãos dos amigos da verdade e inimigos das Fake News que levaram ao golpe de 2016 e que alimentam o crescimento das possibilidades eleitorais de Jair Bolsonaro. Farei aqui uma resenha sem obedecer à ordem dos capítulos do livro. Em razão de um hábito pessoal, me sinto obrigado a dar aos argumentos de D’Ancona uma nova hierarquia. De quando em vez farei reflexões sobre a realidade brasileira.

O conflito entre ciência e religião foi vencido pela primeira e estabilizada após o advento do Iluminismo com a prevalência da verdade à ficção. A verdade a que me refiro aqui não é aquela revelada (objeto da crença) e sim a que resulta da metódica investigação, criterioso levantamento de dados, utilização de um método racionalmente definido e passível de ser compartilhado e reproduzido e a avaliação desapaixonada do material coletado.


A ciência, contudo, também pode ser objeto de deformação ideológica. Entre os antecedentes ideológicos da pós-verdade o autor menciona o antissemitismo nazista.

“Em certo sentido, o antissemitismo moderno é o modelo para o que se tornou pós-verdade. Sya carta de fundação, fonte básica para Hitler ao escrever Minha Luta [Mein Kampf], é o documento conhecido como Protocolos dos Sábios do Sião. Pretensamente atas de uma reunião secreta do conselho supremo dos judeus, o texto inclui 24 sermões breves que teriam sido transmitidos pelo Ancião-Chefe e foi publicado pela primeira vez em 1903, no jornal russo Znamia. Após a Revolução Russa e a Primeira Guerra Mundial, sua influência foi sentida em todo o mundo, alimentando o mito de que um cartel de banqueiros judeus era o responsável pela Grande Depressão.

‘A única declaração que estou disposto a fazer acerca dos Protocolos é que eles se encaixam com o que está acontecendo’, afirmou Henry Ford, notório antissemita. Dificilmente alguém pode pedir um exemplo mais incisivo do viés de conformação ou do primado desavergonhado do sentimento visceral sobre a realidade empírica. O que importava para um intolerante como Ford que os Protolos fossem uma falsificação comprovada e conclusivamente frágil?” (Pós-Verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News, Matthew D’Ancona, Faro Editorial, São Paulo, 2018, p. 74 ).

O antecedente econômico das Fake News foi a campanha orquestrada pelos produtores de cigarros contra as pesquisas científicas que comprovaram os efeitos nocivos do tabaco. Na década de 1950:

“… o organismo patrocinado pela própria indústria do tabaco, criado em resposta à crescente ansiedade pública em relação ao vínculo entre o ato de fumar e as doenças pulmonares. O que tornou a comissão tão significativa foi a sutileza de seus objetivos. Ela não procurou vencer a batalha imediatamente, mas, sim questionar a existência de um consenso científico. Foi projetada para sabotar a confiança do público e estabelecer uma falsa equivalência entre aqueles cientistas que detectaram uma ligação entre o uso do tabaco e o câncer de pulmão e aqueles que os desafiaram. O objetivo não era a vitória acadêmica, mas a confusão popular. Enquanto a dúvida pairasse sobre o caso contra o tabaco, o status quo lucrativo estaria garantido.

Isso proporcionou aos negadores da mudança climática um modelo para suas próprias campanhas.” ((Pós-Verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News, Matthew D’Ancona, Faro Editorial, São Paulo, 2018, p. 46/47)

O mesmo padrão pode ser visto na campanha que levou a queda de Dilma Rousseff, com uma diferença. Neste caso a vitória política era desejada pelos inimigos do PT desde que ela ganhou as eleições de 2014. A presidenta petista foi sistematicamente acusada de estar envolvida em corrupção na Petrobras e de ter dado “pedaladas fiscais”. O fato de nada ter sido provado contra ela em relação à Petrobras e do Congresso Nacional ter autorizado Michel Temer a dar “pedaladas fiscais” logo após o Impedimento ter sido aprovado se tornaram verdades irrelevantes: Dilma Rousseff havia sido removida do poder e uma agenda econômica neoliberal já estava sendo posta em prática pelo usurpador sob aplausos da mídia. Nesse jogo como naquele que levou Trump ao poder nos EUA “… os fatos eram um luxo e, frequentemente, algo irrelevante.” (Pós-Verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News, Matthew D’Ancona, Faro Editorial, São Paulo, 2018, p. 25)

Segundo D’Ancona, a supremacia da verdade deixou de existir no debate público. A eleição de Trump e a vitória do Brexit seriam provas disso. A deposição de Dilma Rousseff no Brasil após uma intensa campanha de fake news orquestrada pela imprensa também. Entre os antecedentes filosóficos da pós-verdade estão os filósofos pós-modernos.

“Os filósofos pós-modernos preferiam entender a linguagem e a cultura como ‘constructos sociais’; ou seja, fenômenos políticos que refletiam a distribuição de poder através de classe, raça, gênero e sexualidade, em vez de ideais abstratos de filosofia clássica. E se tudo é um ‘constructo social’, então, quem vai dizer o que é falso? O que impedirá o fornecedor da ‘notícia falsa’ de afirmar ser um obstinado digital combatendo a ‘hegemonia’ perversa da grande mídia.” (Pós-Verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News, Matthew D’Ancona, Faro Editorial, São Paulo, 2018, p. 85)

O autor não discute o ambiente em que os pós-modernistas que ele critica (Richard Ashley, Derrida, Foucault, Baudrillad eLoytard) cresceram ou os motivos que os levaram a reagir à ditadura da verdade. A mim parece evidente que a verdade, que podemos chamar de verdade científica, entrou em declínio durante e depois das guerras mecanizadas do século XX. Nelas, a ciência passou a ser utilizada não para explicar a natureza e criar melhores condições de vida e sim para destruí-la metodicamente em escala industrial. A reação ao cientificismo brutal do III Reich, que implementou a solução final (o seja, o extermínio deliberado e organizado de milhões de pessoas), e à utilização não menos destrutiva do racionalismo científico pelos Aliados (que resultou nos tapetes de bombas que incendiaram dezenas de cidades históricas alemãs e aniquilaram Hiroshima e Nagasaki com bombas atômicas), a filosofia procurou se distanciar da verdade.

O relativismo dos filósofos citados por D’Ancona, que ajudou a construir o ambiente intelectual que resultou na pós-verdade foi uma reação previsível aos horrores da II Guerra Mundial e dos conflitos subsequentes (Guerra da Coreia e Guerra do Vietnã). A reação deles, contudo, produziu algo inimaginável.

“...Uma vez que Trump declarou que não tem tempo para ler, podemos ter certeza de que ele desconhece Baudrillard ou Loytard. O que quer que ele seja, o 45o presidente não é pós-modernista. De fato, Stephen Bannon, seu conselheiro mais próximo, está francamente dedicado à restauração da antiga e conservadora hegemonia cristã; exatamente aquilo que os pós-modernistas procuraram desconstruir.

Trump é o beneficiário improvável de uma filosofia de que ele, provavelmente, nunca ouviu falar e, sem dúvida, menosprezaria. Sua ascensão ao cargo mais poderoso do mundo, desimpedida da preocupação com a verdade, acelerada pela força impressionante da mídia social, foi, ao seu modo, o momento pós-moderno supremo.” (Pós-Verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News, Matthew D’Ancona, Faro Editorial, São Paulo, 2018, p. 88)

A pós-verdade, contudo, floresceu e se tornou um fenômeno importante por causa da internet.

“A web aboliu o abismo entre o centro e a periferia, entre o oficial e marginal, sendo o motivo pelo qual uma figura como Bannon, o autoproclamado ‘leninista’ de direita, pôde acabar como estrategista-chefe de Trump, com acesso irrestrito ao presidente; e um homem como Jones, que vocifera a respeito da ‘viagem interdimensional’ e insiste que Obama ‘é da Al-Qaeda’, aparentemente é ouvido pelo comandante em chefe.” (Pós-Verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News, Matthew D’Ancona, Faro Editorial, São Paulo, 2018, p. 63)

Entre as consequências da fragilização da verdade no debate público D’Ancona discute de maneira demorada três episódios importantes. A eleição de Donald Trump, a vitória do Brexit e o trágico sucesso das campanhas contra vacinação infantil.

Ele deixa bem claro, porém, que Trump não é o responsável pelo ambiente em que sua candidatura floresceu.

“Se a culpa por essa crise de veracidade pudesse ser jogada sobre um único sociopata político, o problema poderia ser contido e limitado no tempo (nenhum presidente norte-americano cumpre mais do que dois mandatos de quatro anos). Porém, Trump é mais sintoma do que causa. Durante décadas ele considerou concorrer à presidência e zombou disso de forma adequada. No entanto, como ele claramente intuiu, em 2016, sem dúvida alguma, as estrelas se alinharam em seu favor.” (Pós-Verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News, Matthew D’Ancona, Faro Editorial, São Paulo, 2018, p. 26)

Durante sua campanha Trump mentiu, mentiu, mentiu, sempre com a certeza de que o mais importante não era o debate racional e sim conquistar os corações e mentes esvaziados dos norte-americanos que se sentiam vítimas de um sistema político fracassado. Trump parece ter intuído que poderia vencer repetindo mentiras à exaustão, pois como disse o autor:

“Entramos em uma nova fase de combate político e intelectual, em que ortodoxias e instituições democráticas estão sendo abaladas em suas bases por uma onda de populismo ameaçador. A racionalidade está ameaçada pela emoção; a diversidade, pelo nativismo; a liberdade, por um movimento rumo à autocracia. Mais do que nunca, a prática política é percebida como um jogo de soma zero, em vez de uma disputa entre ideias. A ciência é tratada com suspeição e, às vezes, franco desprezo.” (Pós-Verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News, Matthew D’Ancona, Faro Editorial, São Paulo, 2018, p. 19)

No Brasil, a imprensa também repetiu mentiras à exaustão para derrubar Dilma Rousseff. A vitória do Impedimento, porém não surtiu o efeito desejado. O encolhimento da economia e o crescimento do desemprego foram acelerados pelas medidas neoliberais adotadas por Michel Temer. O sistema de poder que emergiu do golpe de 2016 (um composto volátil que resulta da mistura desorganizada e instável de políticos, juízes, jornalistas e empresários, não necessariamente nessa ordem) pode até inutilizar Lula, mas não consegue colocar em campo um só candidato presidencial eleitoralmente viável.

O que desponta no horizonte eleitoral de 2018 é uma versão brasileira indesejada de Trump. Refiro-me, obviamente, à Jair Bolsonaro. Há dois anos, aqui mesmo no GGN, alertei que ele poderia ser o maior beneficiário do golpe de 2016 https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/os-tres-patetas-do-golpe-e-o-perigo-da-barbarie. A pós-verdade (combatida pela imprensa nos EUA e utilizada pelas empresas de comunicação brasileiras como instrumento político/jurídico) pode e deve ser combatida. D’Ancona dá algumas dicas em seu livro. As principais delas me parecem ser as seguintes:

“A verdade nunca deve ser comprometida pela teatralidade. No entanto, é ingênuo pensar que a batalha contra a pós-verdade será ganha recorrendo unicamente a técnicas de verificação rotineiras.” (Pós-Verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News, Matthew D’Ancona, Faro Editorial, São Paulo, 2018, p. 113)

“… aqueles que querem defender os valores do Iluminismo nesse contexto em transformação – mobilidade frenética, revolução tecnológica, agitação emocional – devem atuar dentro de seus parâmetros. Tudo o mais é ilusão.” (Pós-Verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News, Matthew D’Ancona, Faro Editorial, São Paulo, 2018, p. 113)

Concordo totalmente com o autor. Também acredito será preciso recorrer às armas emocionais empregadas pelo inimigo para derrotá-lo. Tanto que em 2015 tentei alertar o governo de que seria necessário usar estratégias diferentes para vencer o Impedimento Midiático imposto a Dilma Rousseff https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/jean-claude-carrierre-e-o-governo-midiatico-pos-impeachement-de-dilma-rousseff.

Comecei esta resenha pelo meio e pelo fim. Agora retornarei ao começo para reforçar as recomendações do autor.

No contexto da pós-verdade a “… intensidade do drama, em vez da exatidão, é o que importa. Para os telespectadores, a realidade e o entretenimento se tornaram coextensivos.” (Pós-Verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News, Matthew D’Ancona, Faro Editorial, São Paulo, 2018, p. 57).

“A questão não é determinar a verdade por meio de um processo de avaliação racional e conclusiva. Você escolhe sua própria realidade, como se escolhesse comida num bufê. Também seleciona sua própria mentira, de modo não menos arbitrário. Em um caso clássico de algo que os psicólogos chamam de ‘espelhamento’, Trump – notório em sua campanha por suas mentiras – começou a acusar seus críticos da mídia de espalhar ‘notícias falsas’.” (Pós-Verdade – A nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News, Matthew D’Ancona, Faro Editorial, São Paulo, 2018, p. 57)

No Brasil a imprensa e o MBL divulgaram sistematicamente notícias falsas para derrubar Dilma Rousseff. Diante da reação dos blogues que insistem em tentar recolocar a verdade no debate público, a reação dos arquitetos do golpe de 2016 foi fazer o mesmo que Trump: acusar seus adversários de produzir e divulgar fake news. Nesse contexto, me parece que somente uma medida será capaz de impedir a eleição de Jair Bolsonaro: a libertação de Lula e a validação de sua candidatura presidencial. Caso contrário, os barões da mídia, juízes e empresários serão obrigados a confrontar um presidente irracional, violento e nenhum pouco disposto a tolerar adversários dentro e fora do judiciário e da mídia.

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