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Por uma poética da maturidade



DO GGN, 7 de Julho, 2018
Por Márcia Denser



Há alguns anos um amigo escritor me disse (recitou? citou?) que a velhice é um longo naufrágio. Porque a pessoa não desaba de repente: a idade vai dando o ar da graça por indícios esparsos, aqui e ali, tão tênues que a princípio você não nota, não associa, aliás você DISSOCIA completamente tudo o que diz respeito ao fato de estar envelhecendo.

Quando não racionaliza. Secura no olho? Computador demais. Bico de papagaio? Hereditário. Protocolo de titânio? É a tecnologia. Histerectomia? Bobagem.

Nesse ínterim você descobre que já não tem o mesmo pique: não dá mais pra emendar noite e dia, não dá mais pra dançar tipo dezoito horas seguidas, não dá mais para pedir bloody mary logo cedo pra curar ressaca, é bom parar de ser bandido. E se não é a falta de pique é a falta de saco. Fazer dietas x, y, z, ultra-radicais, tipo faquir, tanta dieta pra quê se você não vai transar com ninguém nos próximos vinte anos?

Mas tem coisa boa: você também não tem mais saco para: 1) mentir; 2) para os outros; 3) para si próprio. Nem saco, nem tempo, nem interesse, essa merda toda.

Sabedoria, no good, ninguém está interessado, sem contar que cultura é aquele lugar onde agora só proliferam os muito medíocres. Neguinho sem cacife nem QI pra estudar pra médico ou engenheiro ou advogado resolve fazer uma instalaçã ou ocupaçã ou intervençã ou publicaçã em livro ou na internet ou entã virar “gestor cultural” e atraçã na Adriane Galisteu, noves fora a sacanagem.

Cultura definitivamente no good, não dá ibope.

Outra: não vou ficar aqui repetindo todos aqueles clichês que você ouve dia e noite há milênios sobre morte, velhice, declínio, porque a idéia é abrir caminho em direção a algo novo, algo que nem eu nem você nem ninguém sabe ainda, e a via de acesso seria a proposta de uma poética da maturidade que evoluísse – como se isso fosse possível – na corda bamba entre o sublime e o ridículo.

Aquele verso de Neruda fica ressoando em meus ouvidos: “então nos despimos como se para morrer ou nadar ou envelhecer” – porque parece que precisamos nos despir de toda vaidade e de todo desejo – as cadeias da alma – para começar a empreender a derradeira jornada rumo aos últimos vinte anos de vida, se os tivermos. Porque teremos pouco tempo. Para fazer o que precisamos fazer. Para assim justificar nossa passagem pelo mundo. E isto é terrível. Meu Deus, íamos fazer tanta coisa, escrever tantos livros.

Mas quando finalmente a alma fica livre para alçar seu vôo, é aí que o corpo mais nos solicita. E prende ao solo.

Na juventude, a alma ou espírito ou mente, não sei o nome exato disso a que chamamos eu profundo, mas talvez seja por isso que na juventude a mente apenas rasteja vinda lá debaixo, da treva, sem luz e sem ar, rasamente, sem sabedoria, hesita em levantar-se – o corpo poderia voar – mas o coração e o espírito se deixam arrastar de um lado para o outro, atraídos por qualquer objeto idiota, qualquer um. Desde que brilhe.

Que fique bem claro: isto não é auto-ficção, tampouco auto-naufrágio, até porque escritor é aquele nadador com várias medalhas olímpicas que, cada vez que chega à
beira da piscina, se dá conta que não sabe nadar, já o fez um dia, mas agora ele não lembra, contudo mergulha mesmo assim, toca o fundo e milagrosamente consegue emergir.

Completamente só e ofegante, mas vivo.

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