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Por que os trabalhos inúteis (e deprimentes) são os mais bem pagos?

Do IHU, 17 Julho 2018
Por Javier Borràs i Arumí


“A “inveja moral” e o “ressentimento” dos empregados de bullshit jobs em relação àqueles que possuem trabalhos realmente úteis continua ali, apesar da recompensa salarial: a ascensão dos populismos, afirma Graeber, está vinculada a este “ressentimento”, que não tem uma justificativa material (por que odiar os professores da escola pública, se recebem menos que você?), mas, sim, espiritual (sei que seu trabalho é mais útil e significativo que o meu). A solução? A renda básica universal. O autor só faz um esboço, mas afirma que eliminaria a necessidade econômica de escolher um bullshit job e ao mesmo tempo pouparia dinheiro suprindo a “classe administrativa” que administra os programas de pobreza, desemprego e marginalização social”, escreve o jornalista Javier Borràs i Arumí, comentando a obra Bullshit Jobs, do antropólogo David Graeber, em artigo publicado por Esglobal, 16-07-2018. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Em 2013, o antropólogo David Graeber conseguiu fazer com que milhões de pessoas dessem nome a um sentimento que padeciam todos os dias ao chegar no escritório: esse tédio em repetir trabalhos que eles próprios consideravam que não serviam para nada e que talvez, inclusive, pioravam o mundo. Bullshit jobs foi o termo que Graeber alcunhou no artigo viral que rodou o mundo, no qual explicava um fenômeno que já estava há muito tempo entre nós, mas que ninguém havia apontado diretamente como problema. Centenas de pessoas lhe escreveram para lhe agradecer e explicar que eles também estavam encerrados em um bullshit job.

O autor entrevistou dezenas destas pessoas, analisou dados sobre as mudanças no emprego no mundo desenvolvido e investigou sobre as origens culturais e teológicas do trabalho. Tudo isto foi reunido em seu recente livro, um ensaio bem escrito e revelador, no qual Graeber explica como o capitalismo financeiro gerou uma bolsa de trabalhos nos quais os empregados não têm nada para fazer e a razão pela qual, apesar desta inutilidade econômica e social, este tipo de trabalho segue aumentando.

Mas, o que é exatamente um bullshit job? Graeber o define assim: “É uma forma de trabalho assalariado que é tão inútil, desnecessária ou daninha, que até mesmo o próprio trabalhador não consegue justificar sua existência, ainda que – como parte de suas condições de emprego – se sinta obrigado a fingir o contrário”. A importância da definição do autor é que não se trata de uma visão externa subjetiva – por exemplo, quando se pensa que os estilistas profissionais não têm nenhuma utilidade real –, mas, sim, de uma percepção que os próprios trabalhadores têm de seus empregos.

Segundo várias pesquisas apresentadas pelo autor, quase 40% da população – em países desenvolvidos – consideraria seu emprego um bullshit job. É preciso os diferenciar dos shit jobs(trabalhos de merda) que, ainda que sejam muito incômodos ou prejudiciais – ser capanga de um mafioso, por exemplo –, sim, possuem uma utilidade clara, ainda que nos pareça moralmente reprovável. Ou também de outros trabalhos que têm uma parte bullshit (sandice, estupidez), mas não em sua totalidade. Graeber apresenta estatísticas de como – em paralelo ao auge dos bullshit jobs – as tarefas administrativas supérfluas foram ocupando o tempo que, por exemplo, os professores universitários tinham para dar aula, ler ou realizar pesquisa, ou seja, para fazer seu trabalho real.
Graeber oferece uma classificação de bullshit jobs – baseada em exemplos reais – que nos mostra a magnitude destes trabalhos inúteis. Lendo-a, passa pela cabeça de todos nós algum exemplo próximo. Há, por exemplo, os flunkies (lacaios), ou seja, empregados que tem como única função fazer volume para que os diretores demonstrem que têm mais poder: ter oito assessores faz com que você pareça mais poderoso que se tivesse apenas um, ainda que os sete restantes sejam inúteis. Ou os box ticker, ou seja, pessoas encarregadas de fazer enxergar algo está sendo feito, quando na realidade não é assim: por exemplo, realizar longos relatórios – que nunca serão lidos – sobre assuntos que não serão encaminhados, para – mais que os solucionar – os enterrar sob o papelada inútil.

Graeber dá outros exemplos, mas o ponto comum entre todos é que aqueles que realizam estas tarefas se dão conta de que – caso atuem de maneira racional – não faz sentido que seus trabalhos existam. Muitos destes empregados, para dizer a verdade, só precisariam trabalhar uma hora por dia - das oito no escritório -, sendo assim, acabam fazendo ver que trabalham, já que a alternativa é que seu chefe lhes dê uma bronca por não trabalhar, mesmo que não tenha nada para fazer.

Isto, para muitos, poderia ser considerado o paraíso: ganhar um bom salário em troca de não ter praticamente o que fazer. É uma afirmação que fazemos com base na teoria econômica de que todos buscamos o máximo benefício ao mínimo custo. Mas, para a maioria dos seres humanos esse homem econômico racional não funciona: há fatores antropológicos, espirituais e éticos que remam em direção contrária. Por isso, os bullshit jobs – que poderiam parecer uma bênção – geram importantes problemas psicológicos – estresse, ansiedade, irritabilidade – vinculados à falta de sentido e ausência de um objetivo e propósito. Graeber recorda que, por exemplo, na maioria das prisões os réus preferem realizar um trabalho duro e rotineiro do que não fazer nada.

A identidade, explica Graeber, se forma a partir do “prazer de ser a causa” de algo. Se tudo o que se faz é vazio – ou diretamente não há nada para fazer -, está se indo contra um dos instintos básicos do ser humano. Os bullshit jobs geram uma “violência espiritual” em que um dos princípios do trabalho assalariado – pagar por seu tempo para que faça algo – se altera, já que se segue controlando o tempo do trabalhador, mas se lhe impõe que “simule que faça algo”, o que é equivalente a que não faça nada em absoluto.

A pergunta que nos poderíamos fazer é: por que existem os bullshit jobs? Esse gasto de recursos não era próprio dos sistemas socialistas, e não do capitalismo avançado? Este é um dos pontos que faz com que para muita gente a ideia dos bullshit jobs pareça impossível ou contraintuitiva (“tenho certeza que estes trabalhos devem servir para algo, ainda que os trabalhadores não saibam”). Graeber argumenta que o crescimento deste tipo de emprego se deu por causa da mudança do “capitalismo clássico” a um “capitalismo financeiro”: precisamente, as estatísticas mostram que o “setor serviços” se manteve estável nas últimas décadas, ao passo que é o setor “da informação” que cresceu notavelmente, vinculado às finanças e administração. E é aí onde se cria a maioria de bullshit jobs.

Graeber fala – e esta talvez seja a parte que, embora muito interessante, deveria desenvolver mais – de um “feudalismo de diretores”, onde as relações com os trabalhadores estão se movimentando cada vez mais para o “âmbito político”, deixando para trás o “econômico”. O “feudalismo de diretores” das grandes corporações é “cada vez menos acerca de fazer, construir, regulamentar ou manter coisas e mais e mais sobre processos políticos de apropriação, distribuição e divisão de dinheiro e recursos”.

Neste sistema de poder, a hierarquia é uma das armas essenciais. E só se ganha a hierarquia – e, portanto, poder – se há uma grande quantidade de cargos abaixo, a maioria de intermediários, para aumentar as diferenças entre a camada alta e a baixa. Que estes cargos intermediários tenham “alguma utilidade” é um fator secundário: o principal é que estejam ali. Recebem para isso, não para que façam algo.

O autor acaba o livro se perguntando: por que se considera melhor que alguém trabalhe em um bullshit job, ao invés de não fazer nada? E talvez algo mais surpreendente: por que se aceita uma correlação entre ganhar mais dinheiro e ter um trabalho que não contribui em nada com o mundo (ou que inclusive o piora)? Nesta parte, Graeber indaga as bases teológicas e filosóficas do “trabalho” e o “valor”, uma parte interessante do livro, embora com tantas ramificações que daria outro volume. Resumindo, grosso modo: o autor afirma que vivemos o trabalho como algo que é, ao mesmo tempo, “castigo e redenção”, algo que nos faz sofrer, mas que também nos faz bons. Odiamos o trabalho e por isso nos dignifica. Como consequência, um trabalho que é prazeroso deveria ser menos pago que um trabalho sofrido. Ou um trabalho que nos faz sentir que estamos contribuindo com algo (ou seja, nos faz sentir úteis, bem) deveria ter salários mais baixos que um trabalho inútil e desesperador. Trata-se de um “sadomasoquismo” no qual o sofrimento (espiritual) no trabalho é recompensado (bom salário) com o prazer do consumo.

Contudo, a “inveja moral” e o “ressentimento” dos empregados de bullshit jobs em relação àqueles que possuem trabalhos realmente úteis continua ali, apesar da recompensa salarial: a ascensão dos populismos, afirma Graeber, está vinculada a este “ressentimento”, que não tem uma justificativa material (por quê odiar os professores da escola pública, se recebem menos que você?), mas, sim, espiritual (sei que seu trabalho é mais útil e significativo que o meu). A solução? A renda básica universal. O autor só faz um esboço, mas afirma que eliminaria a necessidade econômica de escolher um bullshit job e ao mesmo tempo pouparia dinheiro suprindo a “classe administrativa” que administra os programas de pobreza, desemprego e marginalização social. Tomara que venha outro livro de Graeber que aprofunde este tema.

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