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EUA e China: os dois países com os maiores déficits ambientais

'A Pegada Ecológica mundial ultrapassou a biocapacidade do Planeta no início da década de 1970. De lá para cá o déficit ambiental vem subindo a cada ano', escreve José Eustáquio Diniz Alves


Da Carta Maior, 30 de Julho, 2018
Por IHU



"A Pegada Ecológica mundial ultrapassou a biocapacidade do Planeta no início da década de 1970. De lá para cá o déficit ambiental vem subindo a cada ano. Em 2012, o mundo tinha uma população 7,1 bilhões de pessoas, com uma pegada ecológica per capita de 2,84 hectares globais (gha) e uma biocapacidade per capita de 1,73 gha, conforme anunciou a Global Footprint Network, em março de 2016", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 06-06-2017.
Eis o artigo.

“A inteligência voltada para o mal é pior do que a burrice” — Hélio Pellegrino





Os Estados Unidos da América (EUA) e a China são as duas maiores economias globais e os dois países com maior impacto negativo sobre o meio ambiente do mundo. Ambos possuem aproximadamente a mesma extensão territorial. Mas os EUA, com apenas 4,5% da população mundial, possuem alto padrão de consumo, enquanto a China, com gigantescos 20% da população mundial, possui um padrão médio, mas crescente de consumo. Estes dois países (assim como a média mundial) estão vivendo em déficit ambiental.

A Pegada Ecológica mundial ultrapassou a biocapacidade do Planeta no início da década de 1970. De lá para cá o déficit ambiental vem subindo a cada ano. Em 2012, o mundo tinha uma população 7,1 bilhões de pessoas, com uma pegada ecológica per capita de 2,84 hectares globais (gha) e uma biocapacidade per capita de 1,73 gha, conforme anunciou a Global Footprint Network, em março de 2016.

A Footprint Network apresenta estas duas medidas que são muito úteis para se avaliar o impacto humano sobre o meio ambiente e a disponibilidade de “capital natural” do mundo. A Pegada Ecológica serve para avaliar o impacto que o ser humano exerce sobre a biosfera. A Biocapacidade avalia o montante de terra e água, biologicamente produtivo, para prover bens e serviços do ecossistema à demanda humana por consumo, sendo equivalente à capacidade regenerativa da natureza. A unidade de medida é o hectare global (gha).

O mundo tinha em 2012 uma biocapacidade total de 12,2 bilhões de hectares globais, mas tinha uma pegada ecológica de 20,1 bilhões de hectares globais. Portanto, a pegada ecológica ultrapassava a biocapacidade em 64%. Ou dito de outra maneira, o mundo estava consumindo o equivalente a 1,64 planeta. Portanto, a população mundial vive no vermelho e provoca um déficit ambiental que cresce continuamente.

Em 2012, os EUA tinham uma população de 318 milhões de habitantes, uma Pegada Ecológicaper capita de 8,2 gha e biocapacidade per capita de 3,8 gha. A Pegada total era de 2.609,9 bilhões de gha para uma biocapacidade total de 1.193,8 bilhões de gha. A Pegada estava 2,2 vezes maior que a biocapacidade, ou um déficit de 120%. O modelo americano é insustentável e só sobrevive com o apoio do resto do mundo.

Mas o caso chinês é ainda pior. Em 2012, a China tinha uma população de 1,4 bilhão de habitantes, uma Pegada Ecológica per capita de 3,4 gha e biocapacidade per capita de 0,9 gha. A Pegada total era de 4.759,1 bilhões de gha para uma biocapacidade total de 1.323,5 gha. A Pegada estava 3,6 vezes maior que a biocapacidade, ou um déficit de 260%. O déficit ambiental da China cresce mais rápido do que o déficit americano.

As florestas nestes países regrediram na medida em que avançava a Pegada Ecológica. Segundo dados do Banco Mundial, que mede a área com floresta preservada como a parcela territorial ocupada por florestas nativas ou plantadas com árvores de pelo menos 5 metros, seja árvore produtiva ou não, o Brasil tinha uma cobertura de 61% em 2011 e o mundo de 31%. Os Estados Unidos possuíam 33,28% de cobertura florestal em 2011 e a China somente 22,47%.

Estes dois países são péssimos exemplos de como lidar com o meio ambiente e uma prova de que países com grande população e grande consumo são prejudiciais à natureza. Na comparação, um tem a terceira população mundial e grande consumo per capita, enquanto o outro tem padrão de consumo “médio”, mas uma população imensa. O resultado final é o mesmo: grandes déficits ambientais.

Em 2013, o déficit global passou para 68%. Os Estados Unidos tinham uma Pegada Ecológicatotal de 2,7 bilhões de gha, para uma Biocapacidade total de 1,2 bilhão de gha. Um déficit de 1,5 bilhão de gha. Também em 2013, a China tinha uma Pegada Ecológica total de 5 bilhões de gha, para uma Biocapacidade total de 1,3 bilhão de gha. Um déficit de 3,7 bilhões de gha. Portanto, o déficit da China é mais de duas vezes o déficit ambiental dos Estados Unidos.





A China emite 12,5 bilhões de toneladas de CO2 e os EUA 6,3 bilhões de toneladas. A China – mesmo sendo o maior poluidor do mundo – está investindo pesado na mudança da matriz energética e busca reduzir a emissão de GEE, mesmo porque a qualidade do ar das suas principais cidades está se tornando inviável para a saúde humana e não-humana.

Mas diante desse grave quadro, o absurdo veio com a atitude inconsequente de Donald Trumpde romper com o Acordo de Paris e se negar a pagar a dívida ambiental dos EUA com o resto do mundo. Trump recusou até mesmo a ajuda para os países pobres mitigarem as consequências do aquecimento global. Embora muitas empresas, cidades e Estados tenham intenção de cumprir as metas de descarbonização, o Governo Federal dos EUA estão se isolando do mundo e buscando reforçar o seu modelo insustentável de desenvolvimento. Como disse Elon Musk (da Tesla e SpaceX): “Mudanças climáticas são reais. Deixar o Acordo de Paris não é bom para a América ou para o mundo”.

O Acordo de Paris é apenas uma pequena ação para evitar o colapso ambiental. A verdadeira solução passa por uma mudança geral no modelo de produção e consumo dos dois países e do mundo. Manter o crescimento econômico, a extração de matérias-primas, emissão de carbono e a geração de imensas quantidades de lixo é o mesmo que caminhar para o precipício.

É preciso dar um “cavalo-de-pau” na economia mundial. Trocar o vício do crescimento por um decrescimento saudável e próspero. Será preciso diminuir o tamanho da população, diminuir o nível de consumo e principalmente, reduzir as emissões de gases de efeito estufa para descarbonizar a economia e interromper o aquecimento global, redirecionando o rumo do (des)envolvimento para um modelo de vida mais simples e mais harmonioso com a natureza.

Publicado originalmente no IHU Online

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