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Chomsky vê a decadência dos EUA além de Trump

De Outras Palavras, 2 de julhom 2018
Entrevista a C.J. Polychroniou, no Truthout | Tradução: Inês Castilho




Bufão e desastrado, presidente é apenas um sintoma. Poder geopolítico de Washington declina, sistema político está em frangalhos e democratas investem em tola perseguição aos russos…

Depois de 18 meses com Trump na Casa Branca, a política norte-americana encontra-se numa encruzilhada. Os Estados Unidos adotaram, inequivocamente, uma nova forma de fascismo que serve aos militares e aos interesses corporativos, enquanto promovem, ao mesmo tempo, uma agenda social altamente reacionária, impregnada de conotações nacionalistas violentas e religiosas, tudo com um sinistro toque de encenação política. Nesta entrevista exclusiva à Truthout, o intelectual e linguista mundialmente renomado Noam Comsky analisa alguns dos últimos acontecimentos nos EUA e suas consequências para a democracia e a ordem mundial.

Gostaria de começar perguntando qual é a sua leitura do que aconteceu no encontro entre Trump e Kim Jong-Un, em Singapura, e o modo como esse evento foi coberto pela mídia dos EUA

Faz lembrar Sherlock Holmes e o cachorro que não latia. O importante foi o que não aconteceu. Ao contrário de seus antecessores, Trump não minou as perspectivas de avançar. Especificamente, não interrompeu o processo iniciado pelas duas Coreias em sua histórica Declaração de 27 de abril [Panmunjom], na qual elas “afirmaram o princípio de determinação do destino da nação coreana conforme seu próprio acordo” (repito: conforme seu próprio acordo), e pela primeira vez apresentaram um programa detalhado sobre como proceder. Trump tem um crédito por não minar esses esforços, e na verdade ele fez um movimento para facilitá-los ao cancelar as manobras militares EUA-Coreia do Sul, as quais, como disse ele com razão, são “muito provocadoras”. Nós com certeza não toleraríamos nada semelhante em nossas fronteiras – e em lugar algum do planeta – mesmo que eles não fossem feitos por uma superpotência que há não muito tempo tivesse devastado completamente nosso país com os pretextos mais frágeis, depois da guerra já ter efetivamente terminado, orgulhando-se dos grandes crimes de guerra que cometeu, como o bombardeio de grandes barragens, quando que não havia mais nada para bombardear.

Além do mérito de deixar as coisas prosseguirem, que não foi pequeno, nenhuma “habilidade diplomática” esteve envolvida no triunfo de Trump. A cobertura foi bastante instrutiva, em parte por causa dos esforços do Partido Democratas, para atacar Trump pela direita.

Depois de meses de retórica dura contra as práticas comerciais chinesas, Trump decidiu impor tarifas de 50 bilhões de dólares nas importações da China, levando Pequim a declarar que os EUA embarcaram numa guerra comercial e a anunciar que fará uma retaliação contra as importações norte-americanas. Primeiro, não é verdade que a China está hoje meramente praticando o mesmo tipo de políticas mercantis que os EUA e a Grã Bretanha praticaram no passado, no seu caminho para a ascendência global? Segundo, há expectativa de que mirar nas tarifas terá algum impacto na economia chinesa ou no tamanho do déficit comercial dos EUA? Finalmente, se uma nova era de protecionismo está para começar, quais poderiam ser as consequências desse fato para o reino do neoliberalismo global?

Quanto às políticas econômicas da China, sim, elas são semelhantes àquelas que foram usadas pelas sociedades desenvolvidas em geral, a começar pela Grã Bretanha e depois por sua ex-colônia norte-americana. Semelhante, porém mais limitada. A China não tem disponíveis os meios de seus predecessores. A Grã Bretanha roubou tecnologia superior à sua da Índia, Países Baixos, Irlanda e, por força de severo protecionismo, minou a economia indiana — então, a mais avançada do mundo, junto com a da China. Os Estados Unidos, sob o sistema hamiltoniano, recorreram a altas tarifas para barrar os produtos britânicos, e também apropriaram-se de tecnologia britânica de formas proibidas pelo atual sistema de comércio global liderado pelos EUA. O historiador de economia Paul Bairoch descreve os EUA como “o país-mãe e bastião do protecionismo” nos anos 1920 — bem depois de se tornarem, de longe, o país mais rico do mundo.

A prática é em geral chamada “chutar a escada” pelos historiadores de economia. Primeiro, os países usam ceras práticas para desenvolver-se; depois, impedem que os outros façam o mesmo.

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Como fez, antes deles, a Grã Bretanha, os EUA passaram a reivindicar “livre comércio”, mais tarde, quando observaram que a tendência natural era tornarem-se predominantes. Depois da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA tinham um poder incomparável, eles promoveram a “ordem mundial liberal”, a qual tem sido de enorme vantagem para o sistema corporativo dos EUA, que agora possui cerca de metade da economia global – um sucesso político espantoso.

De novo seguindo o modelo britânico, os EUA firmaram seu compromisso com o “livre comércio” em favor do poder privado doméstico. O “livre comércio” dominado pela Grã Bretanha manteve a Índia como um protetorado em grande parte fechado. Os sistema dominado pelos EUA impõe um mecanismo de patentes radical (“propriedade intelectual”), que proporciona um poder virtualmente monopolista às maiores empresas norte-americanas. O governo dos EUA fornece também enormes subsídios a indústrias de energia, ao agronegócio e a instituições financeiras. Embora os EUA reclamem da política industrial chinesa, foi crucial para a indústria moderna de alta tecnologia contar com pesquisa e desenvolvimento feitos com subsídios públicos, a tal ponto que a economia pode ser considerada como um sistema de subsídios públicos e lucros privados. E há muitos outros mecanismos para subsidiar a indústria. As compras governamentais, por exemplo, têm se mostrado poderosas. Na verdade, só o enorme sistema militar, através de aquisições, oferece um gigantesco subsídio estatal à indústria. Esses comentários apenas tocam a superfície do problema.

(…)

O governo Trump está agindo muito rápido para reprimir a imigração não autorizada no país, ao separar crianças imigrantes de seus pais. Mais de duas mil crianças viveram este drama nas últimas sete semanas, e o Procurador Geral Jeff Sessions tentou justificar esta política citando um verso da Bíblia. O que se pode dizer de uma sociedade ocidental avançada em que a religião continua a banir a razão na construção de políticas e atitudes públicas? E não é verdade que os nazistas, embora não fossem crentes, também usaram o cristianismo para justificar seus atos criminosos e imorais?

A política migratória dos EUA, sempre grotesca, desceu a níveis tão revoltantes que até mesmo muitos daqueles que promovem e exploram a xenofobia estão correndo para se proteger – como Trump, que está tentando desesperadamente culpar os democratas por ela, e a primeira-dama, que está apelando para que “ambos os lados” se unam para acabar com a obscenidade. Não deveríamos, contudo, negligenciar o fato de que a Europa está rastejando na mesma sarjeta.

Pode-se citar as escrituras para quase qualquer coisa que se queira. Sabe-se, sem dúvida, que “toda a lei” se baseia em dois mandamentos: amar a Deus e “amar ao próximo como a si mesmo”. Mas esse não é o pensamento apropriado à ocasião. É verdade, contudo, que, desde que os puritanos desembarcaram, os EUA são únicos, entre as sociedades desenvolvidas, no papel desempenhado pela religião na vida social.

Embora esteja claro que os EUA estão a caminho de se tornar uma nação pária, os democratas continuam a concentrar sua atenção principalmente no suposto conluio de Trump com a Rússia e comportamento antiético. Ao mesmo tempo, tentam ultrapassar o presidente na agenda chauvinista, adotando novas restrições para as eleições de 2020 de modo a sabotar o apoio a Bernie Sanders. Diante disso, como você descreveria a natureza da política contemporânea dos EUA?

Assim como na Europa, nos Estados Unidos as políticas de centro, que predominam há muito, estão em decadência. As razões não são obscuras. As pessoas que enfrentaram os rigores do assalto neoliberal – austeridade, na recente versão europeia – percebem que as instituições estão trabalhando para poucos, não para si. Nos EUA, as pessoas não precisam ler ciência política acadêmica para saber que uma grande maioria, aqueles que não estão próximos do alto da pirâmide de renda, estão efetivamente marginalizados, no sentido de que seus próprios representantes prestam pouca atenção às suas opiniões, dando ouvidos, ao contrário, às vozes dos ricos, à classe dos doadores. Na Europa, qualquer um pode ver que as decisões básicas são tomadas pela não eleita Troika, em Bruxelas, com os bancos do Norte espreitando por cima de seus ombros.

Nos EUA, há muito tempo o respeito pelo Congresso está num só dígito. Nas recentes primárias republicanas, quando os candidatos emergiram da base, o establishment conseguiu derrotá-los e nomear seu próprio candidato. Em 2016, isso falhou pela primeira vez. É verdade que não escapa muito da norma um bilionário com enorme apoio da mídia e fundos de campanha de quase um bilhão de dólares vencer uma eleição, mas Trump dificilmente seria a escolha das elites republicanas. O resultado mais espetacular dessas eleições não foi o fenômeno Trump. Foi, sim, o extraordinário sucesso de Bernie Sanders, rompendo drasticamente com a história política dos EUA. Sem o apoio das grandes corporações ou da mídia, Sanders bem poderia ter vencido a nomeação democrata, não fosse pelas maquinações dos dirigentes do partido de Obama-Clinton. Processos similares são visíveis nas recentes eleições europeias.

Goste-se ou não, Trump está indo bastante bem. Tem o apoio de 83% dos republicanos, algo sem precedentes a não ser em raros momentos. Quaisquer que sejam seus sentimentos, os republicanos não ousam contrariá-lo abertamente. Seu apoio geral de aproximadamente 40% não está longe da norma, mais ou menos como o de Obama em seu primeiro mandato. Ele tem sido pródigo em presentear o mundo dos negócios e os super-ricos, o autêntico eleitorado republicano (a liderança democrata não fica muito atrás). Jogou migalhas suficientes para manter os evangélicos felizes e tocou os acordes certos para os partidários do supremacismo branco. Até agora tem conseguido convencer os mineiros do carvão e os trabalhadores do aço de que é um deles. Na verdade, seu apoio entre trabalhadores sindicalizados aumentou para 51%.

Quase não há dúvidas de que Trump não dá a mínima importância ao destino do país ou do mundo. “O que importa sou eu”. Isso fica suficientemente claro por sua atitude em relação ao aquecimento global. Ele está perfeitamente consciente da terrível ameaça – às suas propriedades. Seu pedido de um paredão para proteger seu campo de golfe irlandês baseia-se explicitamente na ameaça do aquecimento global. Mas a busca pelo poder o impele a conduzir a corrida à destruição, bastante feliz, como fica evidente em suas aparições. O mesmo acontece com outras ameaças sérias, embora menores, entre elas a de que o país possa ficar isolado, desprezado, decadente – com dívidas a pagar que não serão mais de sua conta.

Os democratas estão agora divididos entre uma base popular de maioria social democrata e uma liderança dos Novos Democratas, que cede à classe dos doadores. Sob Obama, o partido foi reduzido a ruínas nos níveis local e estadual, uma questão particularmente séria porque as eleições de 2020 determinarão o redistritamento, oferecendo oportunidade ainda além da escandalosa situação de hoje para manipulações.

A falência da elite democrata é bem ilustrada pela obsessão com a suposta intromissão russa em nossas sagradas eleições. Qualquer que tenha sido – aparentemente muito pequena –, ela não pode ser comparada a “intromissão” dos fundos de campanha, que determinam os resultados eleitorais amplamente, de modo tão extenso quanto demonstraram as pesquisas, particularmente o cuidadoso trabalho de Thomas Ferguson – que ele e seus colegas estenderam agora para as eleições de 2016. Como aponta Ferguson, quando as elites republicanas se deram conta de que ia dar Trump ou Hillary, elas responderam com uma enorme onda de dinheiro de última hora, o que não só levou Hillary a cair no fim de outubro como teve também o mesmo efeito nos candidatos democratas para o Senado, numa “manobra de bloqueio”, virtualmente. É “estranho”, observa Ferguson, que o ex-diretor do FBI James Comey ou os russos “pudessem ser responsabilizados por ambos os colapsos” nos estágios finais da campanha: “Pela primeira vez em toda a história dos Estados Unidos, o resultado partidário das eleições para o Senado coincidiu perfeitamente com os resultados da votação presidencial em todos os estados.” O resultado está exatamente conforme a bem fundamentada “teoria do investimento da competição partidária” de Ferguson.

Mas fatos e lógica pouco importam. Os democratas estão empenhados em vingar-se pela derrota de 2016, tendo executado uma campanha tão podre que uma vitória que parecia “certa” escorreu entre os dedos. Evidentemente, o implacável ataque de Trump contra o bem comum é de interesse secundário, ao menos para a elite do partido.

Às vezes observa-se que os EUA não somente se intrometem, com regularidade, em eleições estrangeiras, inclusive russas, como também agem para subverter, e às vezes derrubar governos de que não gostam. Não faltam até agora consequências terríveis, da América Central ao Oriente Médio. A Guatemala tem sido uma história de horror desde que o golpe apoiado pelos EUA derrubou um governo reformista eleito em 1954. Gaza, mergulhada na miséria, pode tornar-se inviável para viver em 2020, prevê a ONU — e não pela mão de Deus.. Em 2006, os palestinos cometeram um crime grave: promoveram as primeiras eleições livres no mundo árabe, e fizeram a escolha “errada”, entregando o poder ao Hamas. Israel reagiu com a escalada da violência e um cerco brutal. Os EUA retrocederam a uma operação de procedimentos padão e prepararam um golpe militar, programado para derrubar o Hamas. Em punição por mais este crime, aumentou muito a tortura de Gaza perpetrada por Israel-EUA, não apenas pelo estrangulamento como também pelos assassinatos regulares e invasões destruidoras feitas por Israel com o apoio dos EUA, sob pretextos que não resistem a qualquer exame. Eleições com resultado errado não podem obviamente ser toleradas sob nossa política de “promoção da democracia”.

Nas recentes eleições europeias houve muita preocupação com a possível intromissão russa. Isso foi particularmente verdadeiro nas eleições alemãs de 2017, quando o partido de extrema direita Alternative für Deutschland (AfD) saiu-se surpreendemente bem, ao conquistar, pela primeira vez na História 94 assentos no Parlamento (Bundestag). Pode-se imaginar facilmente a reação, no caso de descobrir-se intromissão russa por trás desses resultados assustadores. Ocorre que foi, sim, descoberta intromissão estrangeira, mas não da Rússia. A AfD contratou uma empresa de mídia texana (Harris Media), conhecida pelo apoio a candidatos nacionalistas de direita (Trump, Le Pen, Netanyahu). A empresa está entre as que cooperam com o escritório de Berlim do Facebook, oferecendo informação detalhada sobre eleitores potenciais para uso em microabordagem daqueles que poderiam ser receptivos à mensagem da AfD. Pode ter funcionado. A história parece ter sido ignorada fora da imprensa econômica.

Se o Partido Democrata não puder superar seus profundos problemas internos e a lenta expansão da economia sob os governos Obama e Trump continuar sem interrupção ou desastre, um bola de demolição republicana pode estar balançando as fundações de uma sociedade decente, e as perspectivas de sobrevivência, por um longo tempo.

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