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Sofrimento de determinação


Complexificação de possibilidades de escolha mina poder decisório e faz sofrer




Da Folha de São Paulo, 22 de junho, 2018
Por Vladimir Safatle




Marcelo Cipis/Folhapress

Vera era uma paciente anoréxica de 17 anos presa a uma relação simbiótica com seus pais, além de uma profunda inibição para ações e decisões. "Tenho medo de decepcionar meus pais" era o que ela periodicamente dizia.

Durante a primeira fase de sua análise, a psicanalista trabalhou para que ela desenvolvesse capacidades fundamentais de operar rupturas e decisões, o que lhe permitiu produzir certa autonomia, começar uma vida na universidade, ao mesmo tempo em que jogou a mãe em um profundo estado depressivo.

Era melhor preservar a dependência da filha e a repetição dos horizontes familiares, nem que fosse às custas de uma anorexia. Quebrada a dependência, as reações patológicas mudavam de personagens.

Nesse contexto, em certo dia, Vera chega a sua consulta com o relato de uma experiência na noite passada. Ela saíra de uma festa, perdera o controle do carro e o destruíra, batendo em uma viatura da CET.

Sua descrição para o fato não deixava de ser sugestiva: "Perdi a direção e bati de frente com um carro da CET. Tinha como desviar dele, mas era melhor bater do que não saber para onde ir".

Melhor bater do que não saber para onde ir. Essa afirmação não poderia deixar a sua analista indiferente. Ela parecia sintetizar uma forma específica de sofrimento que lançava luz não apenas sobre o modelo de reação de Vera, mas também sobre outras situações que lhe apareciam na clínica.

Desviar e ir em direção a outro caminho, a um caminho até então pouco claro, era mais insuportável do que bater e colidir com algo que não irá se mover, que ao menos mostra que está lá, completamente presente e imóvel.

Certas correntes sociológicas definirão o que se convencionou chamar de "modernidade" por uma forma específica de sofrimento, que poderíamos chamar de "sofrimento de indeterminação".

O modelo típico é a noção de "anomia" em Durkheim. Tudo se passa como se a complexificação das possibilidades de escolha e dos horizontes de decisão individual levassem a uma espécie de desregulamentação das normas sociais, provocando incapacidade de decisão e um sofrimento que poderia gerar suicídio.

Ou seja, o fim dos horizontes estáveis de sentido teria provocado uma reação ansiosa, com a consequente decomposição dos fundamentos de deliberação individual.

No entanto, o caso clínico em questão mostra outra coisa. O chamado fim dos horizontes estáveis, algo mais próximo de uma fantasia sociológica do que de uma descrição efetiva das contradições inerentes a sistemas sociais, aparece à paciente como algo que só pode ser desejado em condições de destruição, ou seja, como um outro carro no qual "é melhor bater".

No fundo, ela conhece bem o caráter sufocante dessas demandas sociais por horizontes estáveis. Daí a sua maneira de apelar a eles de forma contraditória.

Mas falta uma certa confiança na força produtiva das experiências de indeterminação. Pois, mesmo que ela tenha conseguido sair de uma posição na qual a recusa às determinações só podia se manifestar de forma patológica, como uma anorexia na qual ela não aceita nada, falta ainda poder caminhar nesses lugares em que não sabemos para onde ir.

Esse é, de fato, um ponto importante. Podemos sofrer por não sermos capazes de lidar com o que é indeterminado em nós. Podemos sofrer por termos uma reação compulsiva às situações múltiplas que nos colocam diante do que nos leva a situações indeterminadas. O que talvez seja uma forma de sofrimento muito mais concretamente condizente com as tensões próprias às nossas formas de vida.

Esse caso, trazido pela psicanalista Maria Letícia Reis, nos auxilia a pensar como o saber lidar com o que há de indeterminado e despersonalizado em nós talvez seja um dos desafios mais complexos com os quais lidamos em nossas neuroses cotidianas.

Vladimir Safatle

Filósofo, é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP (Universidade de São Paulo).

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