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São precisos 125 anos para que famílias pobres alcancem o salário médio

Relatório da OCDE mostra os prejuízos da fraca mobilidade social, em que as pessoas mais pobres, na base da escala remuneratória, têm poucas hipóteses de subir, sendo que aqueles que já nascem em famílias no topo têm maior probabilidade de lá continuar


Da Carta Maior, 15 de Junho, 2018
Por Esquerda.net


Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre mobilidade social vem dizer que uma família portuguesa pobre pode demorar até 125 anos até que os seus descendentes consigam alcançar um salário médio. Este relatório indica que, em Portugal, a condição económica é “fortemente” transmitida de geração em geração.

“Tendo em conta a mobilidade de rendimentos de uma geração para a seguinte, bem como o nível de desigualdade salarial em Portugal, pode demorar cinco gerações para que as crianças de uma família na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio”, diz o relatório.

De acordo com a Lusa, os dados da OCDE mostram que em Portugal, 33% das pessoas concordam que a educação dos pais é importante para ser bem-sucedido na vida, uma percentagem ligeiramente inferior à média da OCDE, com 37%, ao mesmo tempo que muitos se revelaram pessimistas sobre as suas hipóteses de melhorarem a sua situação financeira.

“Apenas uma minoria (17%) esperava em 2015 que a sua situação económica melhorasse no ano seguinte e há uma preocupação em relação ao futuro dos descendentes”, diz o relatório.

A instituição acrescenta que já em 2018 realizou um inquérito, “Riscos que contam”, em que 58% dos pais portugueses colocaram no top três das suas preocupações o risco dos filhos não alcançarem o nível económico e de conforto que eles já têm.

Além de Portugal, os países incluídos na análise do estudo foram a Austrália, Brasil, Chile, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Coreia, México, Espanha, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos. Entre todos, Portugal surge como aquele onde a “mobilidade medida em termos de educação é menor”.

“Apesar das várias reformas para combater o absentismo escolar e reduzir o abandono escolar precoce, as hipóteses dos mais jovens terem uma carreira de sucesso depende fortemente da sua origem socioeconómica ou do nível de capital humano dos pais”, é possível ler no documento.

A mobilidade social não é distribuída uniformemente ao longo das gerações, e em Portugal 24% dos filhos de pais com baixos rendimentos acabam também por ter rendimentos semelhantes aos dos progenitores. No sentido oposto, são mais as crianças (39%) cujos pais têm rendimentos elevados que crescem para também elas terem rendimentos elevados.

Por outro lado, relativamente ao tipo de ocupação, 55% das crianças filhas de pais trabalhadores manuais acabam com a mesma ocupação dos pais, contra 37% da média da OCDE. Mantendo a tendência no lado oposto, os filhos de gestores têm cinco vezes mais probabilidades de serem também gestores.

Olhando para a mobilidade ao longo da vida, o fenómeno em Portugal mantem-se limitado, particularmente na base e no topo, sendo que entre os que estão nos 20% com rendimentos mais baixos há poucas hipóteses de subirem durante quatro anos, e 67% acabam mesmo por nunca sair.

“No topo, a persistência é ainda maior e 69% dos 20% com rendimentos mais altos ficam lá durante um período de quatro anos”, diz a OCDE. Para a organização, os elevados níveis de desemprego de longa duração e a segmentação do mercado laboral podem ser parte da explicação para esta fraca mobilidade social.

A OCDE sugere três objetivos que podem ajudar a inverter esta situação: apoiar as crianças de meios desfavorecidos, assegurando uma boa educação pré-escolar, combater o desemprego de longa duração e aumentar o nível de qualificações através da educação para adultos.

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