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Quando o samba é puro jazz,



Do GGN, 8 de Junho, 2018
por Aquiles Rique Reis


Quando o samba é puro jazz

O pianista Hamleto Stamato lançou Ponte Aérea (Fina Flor), seu oitavo CD solo. Junto com ele estão Augusto Mattoso (baixo) e Erivelton Silva (batera). Um trio de responsa.

A tampa abre com “O Morro Não Tem Vez” (Tom Jobim e Vinícius de Moraes). Um acorde do piano, apoiado por baixo e batera, e logo vem a melodia dedilhada pelo piano. O baixo toca notas em pedal. A batera risca os pratos. O piano passa a dedilhar a melodia, em duo com outra linha melódica. Só então o samba pede passagem. Segue-se um improviso do piano, que volta a protagonizar como já fizera há alguns compassos: dedilhando o tema junto com outra linha melódica. O baixo segue no pedal. Noutro improviso, o piano toca notas que remetem à melodia. Agora ele sola a melodia com acordes fechados. Logo a intensidade do arranjo diminui e a melodia segue o caminho que levará ao final.

A seguir, “Garota de Ipanema” (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) – Vinícius ainda teve outra música gravada no CD, “Berimbau” (com Baden Powell). A intro de “Garota de Ipanema” tem acordes de piano e o baixo em pedal. Arritmo, o piano dedilha a melodia. Mas logo volta a improvisar. Assim como o baixo, a batera o acompanha delicadamente. E o piano, então, volta à melodia em duo com frases dissonantes. Volta o improviso. A seguir, a melodia surge novamente, dessa vez embalada por acordes dissonantes. O piano dedilha a melodia, sempre em duo. Para o final, a garota de Ipanema segue com o piano, enquanto a batera puxa o ritmo e o baixo pulsa junto

Stamato gravou duas músicas de sua autoria, “Samba Pro Pai” e “Ponte Aérea”, um samba que é puro jazz – ou seria um jazz que é puro samba? –, cujo título nomeia o álbum. Nele o trio balança. O piano se destaca para tocar a melodia e logo improvisar. O fraseado do baixo é o máximo. A batera segue firme na levada. Alternando acordes com notas dedilhadas, o tema fica com o piano. E a melodia segue calorosa até o acorde final.

Além de “Coisa Nº 2” (Moacir Santos), o trio toca também “April Child” (Moacir Santos, Jay Livingston e Raymond Evans), que tem bela intro. A melodia, límpida, com harmonia de extremo bom gosto, mais parece uma oração às horas, elas que param o tempo para melhor ouvir o tema. Dedilhando as notas, o piano toca com precisão absoluta – Uma das marcas registradas de Stamato é o solo com frases que, somadas à melodia, ganham ares de fértil modernidade. Após alguns compassos, a batera sustenta o suingue, enquanto baixo e piano embalançam no embalo do samba jazz.

A tampa fecha com “A Rã” (João Donato e Caetano Veloso). No arranjo (todos eles de Hamleto Stamato), a rã é delicada, e o trio toca como se saltitasse igualzinho a elas. A mixagem (Carlos Fuchs) é ótima! Piano e baixo se valem de notas graves para criar um clima compatível com a intenção de João Donato, intuito este que Caetano ampliou...

Cada vez mais me impressiona a pujança da música instrumental brasileira. Por ela tenho respeito e admiração.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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