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O eremita e a escrava

Do IHU, 06 Junho 2018
Por Francesco Chiabotti


"A história de Su`ûd, a alaudista negra, mestra de Dhu l-Nûn, é paradoxal porque nos ensina a buscar conhecimento no ser humano, mas em um ser humano jamais separado de Deus, em uma união que só a pobreza, a miséria e a tristeza podem alcançar. Não um lugar de transcendência, o templo da Caaba, poderia reuni-los, mas a presença humana do Profeta, em que a tradição reconhece o amante perfeito", escreve Francesco Chiabotti, professor da Universidade de Tübingen no Centro de Teologia Islâmica, em artigo publicado por L'Osservatore Romano, 05-06-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Afastar-se do mundo pode representar um perigo bem mais grave do que o próprio mundo. Solidão, acreditar-se junto a Deus, esconde o mal invisível da ilusão de tal proximidade mística. Como acreditar-se perto de Deus, mas longe de suas criaturas? Quando apareceram os primeiros textos de mística islâmica, os seus redatores tiveram que transformar em doutrina e pedagogia espiritual uma longa série de experiências que haviam atravessado os primeiros séculos do Islã. Foi ali que o retiro do mundo passa a ser visto como uma primeira fase no caminho do discípulo, e são colocadas algumas condições. A primeira, essencial: ninguém se deve retirar do mal do mundo, retira-se do mundo o próprio mal. A história a seguir é atribuída a um personagem enigmático da mística islâmica.

Dhu l-Nûn do Egito é um mestre do século IX. Ele nasceu e morreu nas proximidades do Cairo, mas passou a maior parte de sua vida em constantes peregrinações, deixando que um caminho jamais traçado se fizesse ocasião de encontros extraordinários. Seus ensinamentos foram transmitidos oralmente, processo que certamente tornou possível acréscimos apócrifas, mas apenas a incerteza filológica não é suficiente para explicar e compreender o imenso número de eventos do qual ele foi protagonista. Em sua singularidade fez escola, e há uma coerência geral no personagem que a tradição transmitiu, pela pluralidade das ciências que ele encarnou, pela ascese aos primórdios da mística, pelos pareceres jurídicos para as ciências mais ocultas. O próprio nome, Dhu l-Nûn, "o homem da letra nûn" é uma reminiscência corânica da figura de Jonas e a baleia, história de dilúvio e salvação. Foram numerosas as mulheres que, apesar da brevidade dos encontros, se revelaram fundamentais em seu percurso espiritual. O "sumo mestre" Ibn 'Arabi da Andaluzia, que morreu em Damasco no século XIII, descreveu a biografia de algumas delas em sua obra dedicada ao nosso personagem, a Vida de Dhu l-Nûn do Egito.
Mas vamos avançar com ordem. No episódio a que nos referimos, o problema da solidão é ilustrado graças a um encontro com um ser ainda mais solitário de Dhu l-Nûn, uma escrava negra, a alaudista Su`ûd.

Narra Dhu l-Nûn que havia passado um ano retirado em uma floresta, alimentando-se de plantas selvagens e bebendo em fontes. Descreve seu estado como uma insondável plenitude espiritual, que, no entanto, descobriu frágil no dia em que um gemido, vindo de uma caverna na floresta, lembrou da fraternidade humana. Ficou como possuído por um raptus, incapaz de opor-se, e viu-se perto de uma sombra escura que era rondada por leões ferozes, sem prejudicá-la. Ele se aproximou e viu uma mulher de cor preta. Aproximou-se mais e os leões fugiram. Ela o chamou pelo nome, como se o conhecesse desde sempre. "Dhu l-Nûn! Para quem é íntimo de Deus, alheio a que Deus não é, cada coisa é amiga, mas tudo evita aquele que tem saudade de sua espécie, em cujo coração os sentidos penetraram!" Não era a primeira vez que em seu caminho se deparava com uma figura feminina misteriosa, e não era a primeira vez que tal figura o reconhecia, chamando-o pelo nome. Já tinha lhe acontecido perto de Antioquia, onde uma jovem serva enlouquecida, vestida de lã crua, o havia questionado sobre a obra espiritual. Em outra peregrinação uma mulher andarilha o tinha repreendido por ter-se apresentado a ela como "um estrangeiro": existiria acaso "estrangeirismo" junto a Deus?

Su`ûd continuou, "Dhu l-Nûn, eram você e ele, por que me colocou entre vocês dois?" Ela virou-se para os leões e pediu-lhes para ficar. "Ele é Dhu l-Nûn, não tenham medo." Dhu l-Nûn queria sair, a tomada de consciência era muito forte e as lágrimas impossíveis de segurar. Mas ela lhe perguntou onde ele tinha intenção de ir. Quase impotente, ele respondeu: "Não é suficiente o que acabou de acontecer?" Ela replicou: "Não, querido amigo! Você procurou intimidade com os outros de Deus por amor da intimidade de Deus, e quando os entes queridos se reúnem em memória do Amado comum, não por isso abandonam a intimidade do amor!" Dhu l-Nûn então se sentou com ela, contaram um ao outro seus respectivos exílios, o abandono dos irmãos e das irmãs, seus retiros longe dos homens. Dhu l-Nûn descreve assim o seu estado: "Caminhávamos como ébrios, me perguntou sobre o motivo da minha conversão a Deus e lhe contei a minha história, e perguntei-lhe, por minha vez, para contar-me a dela." E então ela contou a sua história. Su`ûd era uma escrava que pertencia a um poderoso vizir na corte do califa de Bagdá. Esse vizir gostava de beber, e organizava festas e banquetes durante os quais ela cantava e tocava, e ele a vestia com as roupas que mais lhe agradavam. Durante uma dessas festas, alguém bateu na porta do palácio. Antes de abrir, eles perguntaram quem era. "Um pobre homem que veio pedir algo em nome de Deus!" O vizir concordou. "Deixe-o entrar, que o sirvam de acordo com seu desejo!" Mas o pobre homem se recusou a avançar, por zelo e medo, em um palácio onde se bebe e as escravas dançam e tocam. "Alimente-me aqui fora, se não quiserem que eu vá embora!" O próprio vizir levou-lhe um prato de comida e um prato de frutas, mas o pobre homem ordenou-lhe para colocar o alimento em sua boca. O Vizir ficou impaciente: "Chega de tantos caprichos! Como você se atreve?". "Se te pareço cheio de caprichos", respondeu o pobre homem, "saiba que ele me trata com muitos mais ainda!" Quando ouviu as palavras do mendigo, Su`ûd gritou ao seu dono: "Esse tesouro é para ti, não o deixe escapar!" Ele olhou para ela: "Se você entendeu isso, significa que o tesouro é para você. Você não voltará mais, certo?". "É assim", disse ela, "não voltarei mais."

Dhu l-Nûn se despediu para regressar ao seu lugar de retiro, mas não conseguia parar de pensar nela e na sua história. Sentia falta. Tentou viajar, mas a peregrinação o levava de volta para o lugar de seu encontro, mas ela não estava mais lá. Como encontrá-la? Ele disse para si mesmo que deveria haver um lugar digno de reuni-los, e que só poderia ser a santa casa de Deus na Meca, durante a peregrinação anual. Não a encontrou junto a Caaba, então foi para a mesquita onde repousa o Profeta, em Medina, onde ele, o Amado, teria sido capaz de unir os amantes. E, de fato, encontrou-a lá. Quando ela o viu, dirigiu-lhe duras palavras: "Eu vi você circular ao redor da Caaba, mas era em torno de mim que você girava! Eu queria falar com você, mas algo me impediu de fazê-lo e fui empurrada para a mesquita do Profeta. Finalmente, agora posso falar com você. Dhu l-Nûn, o que você aprendeu em suas viagens?". Ele respondeu: "Estar satisfeito com ele, saber aceitar a proximidade ou a distância, a união ou o exílio, a pobreza ou a fartura, a glória ou a humilhação, a vida ou a morte". Su`ûd lhe deu uma lição final. "Você não poderia ter se sentido satisfeito com Deus, se Deus antes não tivesse se sentido totalmente satisfeito com você". E ela recitou um versículo do Alcorão, repetido em várias passagens do livro, "Deus fica satisfeito com os homens, e os homens ficam satisfeitos, portanto, com Ele ...." Claro, o texto sagrado coloca tal olhar da graça na vida após a morte, mas Su`ûd sabia que as coisas do espírito não têm tempo, ou melhor, que o tempo e o espaço são reflexos contingentes da eternidade.

"Dhu l-Nûn, desde quando nos encontramos, em nosso retiro, nada mais desejo que encontrar Deus, mas não tenho nenhum mérito de que eu possa me orgulhar na sua presença, peço-lhe, implore-o você por mim, peça que me aceite!" Uma voz invisível interveio, que só Dhu l-Nûnouviu: "Não faça isso! Ela pertence a Deus que ama ouvir seu gemido, não se coloque entre os dois!" Então ele percebeu o que era aquele gemido que o fez sair de sua solidão com Deus, ou melhor, agora entendia que aquele gemido, na realidade, nunca o tinha afastado da solidão com Deus. "Dhu l-Nûn, você não reza por mim?". "Não, eu não posso intrometer-me entre o amante e o amado." Eles se separaram, e a história não nos conta se algum dia voltaram a se encontraram novamente.

A história de Su`ûd, a alaudista negra, mestra de Dhu l-Nûn, é paradoxal porque nos ensina a buscar conhecimento no ser humano, mas em um ser humano jamais separado de Deus, em uma união que só a pobreza, a miséria e a tristeza podem alcançar. Não um lugar de transcendência, o templo da Caaba, poderia reuni-los, mas a presença humana do Profeta, em que a tradição reconhece o amante perfeito. A história de Dhu l-Nûn é extraordinária, e perde-se na lenda. Mas para concluí-la, os antigos biógrafos procuraram saber qual foram as suas últimas palavras. Em uma versão, ele teria dito: "Conhecê-lo, mesmo que apenas por um momento antes de morrer!" Há uma parte do ensinamento de Su`ûd, nesse testamento espiritual.

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