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Materialismo e contingência


Tese de Marx expressa pensamento contra determinação estrita e estabilidade





Da Folha de São Paulo,8.jun.2018
Por Vladimir Safatle

Marcelo Cipis/Folhapress

Semanas atrás, as livrarias brasileiras receberam a primeira tradução em português de um livro que mereceria ser mais conhecido pelos que se interessam por Marx e pelo pensamento do século 19. Trata-se de sua tese de doutorado, "Diferença Entre a Filosofia da Natureza de Demócrito e a de Epicuro" (editora Boitempo, 152 págs.).

A princípio, pode parecer que estamos diante de uma clássica tese de historiografia filosófica. No entanto, ela é uma chave importante para compreender o sentido de todo pensamento que se queira efetivamente materialista e transformador.

De fato, Marx compreende o materialismo —e seu desencantamento em relação à metafísica e à religião— como o grande saldo do iluminismo. Ele aparece, ao mesmo tempo, como uma crítica da razão e uma abertura à crítica social por meio do questionamento dos poderes da religião e do Estado, liberando-nos de uma metafísica que desconsideraria a força da experiência.

Mas de qual materialismo estamos falando? O que Marx entende exatamente por materialismo? Estas perguntas nos remetem, necessariamente, à sua tese de doutorado sobre Demócrito e Epicuro.

Ao fazer a defesa de Epicuro e a crítica a Demócrito, Marx chama a atenção para duas características fundamentais do pensamento do primeiro, a saber, o seu reconhecimento do acaso e a importância dada à experiência do tempo. São essas duas características que se abrem à recuperação efetiva da força de transformação da experiência.

Durante toda a tese, Marx insiste que Demócrito estaria no fundamento de uma longa tradição para a qual o acaso é apenas resultado de um conhecimento imperfeito das causas. Da mesma forma, o tempo não teria nem importância nem seria necessário a seu sistema.

Excluído do mundo das essências e da eternidade dos átomos, o tempo em Demócrito seria transferido à consciência do sujeito que filosofa, sem se referir ao mundo em si.

Já Epicuro admite que o movimento dos átomos obedecem a um desvio, a uma declinação (clinâmen), ou seja, uma espécie de movimento lateral aleatório. Lucrécio, discípulo de Epicuro, fala de átomos que "se desviam um pouco do seu trajeto, num momento não determinado e num lugar incerto".

Essa declinação sem tempo nem lugar fixos permite explicar como a criação se dá por meio do choque de átomos, incorporando o acaso no interior da determinação do processo de criação das formas do mundo.

Marx chegará a definir a declinação como "a negação imediata" de um movimento próprio à linha reta que apareceria como "a cadeia do destino", o que dá ao átomo a condição de matéria sob a forma da autonomia e da singularidade.

Nesse sentido, Marx está de acordo com Lucrécio, que utiliza a noção de declinação para introduzir a liberdade, já que é por meio da aleatoriedade de um movimento sem causa determinada que teríamos a expressão da vontade. Em um atomismo estrito, a causa das ações não difere das causas do mundo físico. Mas, como não se trata de eliminar a indeterminação, saímos de todo determinismo estrito, que só seria capaz de descrever processos mecânicos.

Marx encontra, assim, um materialismo capaz de dar espaço à liberdade e à indeterminação, tanto no mundo físico quanto no mundo dos homens. Desta forma, o materialismo aparece como abertura à força de criação da contingência.

Por outro lado, Epicuro insiste em como o tempo é um certo acidente ligado ao movimento e ao repouso, à afecção e à não afecção. "Na verdade, ninguém tem a ideia do tempo em si próprio, separado do movimento das coisas e do seu plácido repouso", dirá Lucrécio.

Se não há uma substancialidade do tempo para além do movimento das coisas, se não há uma forma pura do tempo, então a experiência do tempo é inseparável do próprio movimento das coisas. A forma do tempo muda a partir das múltiplas formas de movimento das coisas.

As coisas impõem ao tempo mudanças em sua forma, implicando assim uma modificação nas condições de experiência até então vigentes, abrindo espaço a transformações no que parecia a nós como completamente estável.

Desta forma, o jovem Marx expressava um pensamento materialista radicalmente contrário a toda determinação estrita e estabilidade. Abria-se, assim, o espaço às bases teóricas de um mundo no qual transformações e revolução são possíveis.

Vladimir Safatle

Filósofo, é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP (Universidade de São Paulo).

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