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Jennifer Egan e "A visita cruel do tempo"

Da Carta Capital, 24 de Junho, 2018
por Clarissa Wolff 



"O melhor livro que você terá nas mãos", garante o Los Angeles Times

Egan relaciona a estrutura da obra a discos conceituais do anos 70 como Quadrophenia, do The Who

Em bloqueio criativo, muitos escritores desistem. A Jennifer Egan escreve um vencedor do Pulitzer.

A visita cruel do tempo, que levou o prêmio em 2011, nasceu quando Egan precisava de uma folga de romance histórico a que se dedicava há anos (Praia de Manhattan chegou este mês ao Brasil), e já leva na capa o que entrega: "O melhor livro que você terá nas mãos", garante o Los Angeles Times.

A história é dividida em treze capítulos e permeia a vida do produtor musical Bennie Salazar e de sua assistente Sasha. Não há linearidade cronológica ou narrativa: o tempo vai e volta, o narrador de cada capítulo é diferente e há capítulos em primeira, terceira e até segunda pessoa. Mas, entre as idas e vindas, a história se constrói de forma espetacular, falando de música, de tecnologia, de dramas, de drogas e de sonhos, sempre com o tempo servindo de deus inexorável.
A estrutura, que Egan relaciona a discos conceituais do anos 70 como Quadrophenia, do The Who, traz um esqueleto bem encaixado com diferentes pontos de vista narrativos que, no lugar de romper a corda que une o romance, a fortalece.

É uma delícia ler sobre a amizade repleta de flerte entre Sasha e seu melhor amigo. É maravilhoso ler sobre Bennie na adolescência, depois de já sabermos de seu sucesso como produtor musical, quando ele era só um jovem com sonhos demais, integrante de uma banda de rock fracassada. Melhor ainda porque não é ele que narra: não, é uma menina do seu grupinho na época, cuja melhor amiga teria um caso com o cara que levaria Bennie para o mundo da música. Confuso? Nem pensar. A teia de relacionamentos, sentimentos, frustrações e sucessos é complexa, mas se abre com clareza para o leitor, os muitos pontos cruzados sendo assimilados naturalmente, sem esforço. Culpa da maestria da autora.

O tempo também invade a história quase discreto, dissimulado, para dar uma rasteira uma ou outra vez. Cronologicamente, a história viaja num espaço de 50 anos, sem qualquer ajuda de datas, números ou idades para situar o leitor. No lugar, são os relacionamentos que marcam a passagem do tempo, assim como a música e a tecnologia.

A tecnologia, aliás, é outro tema que reina de forma despreocupada pelo romance - tanto que o penúltimo capítulo é composto por slides no PowerPoint, o diário moderno de uma personagem criança do futuro, algo como dez anos adiante. É fascinante também como mesmo com gráficos e fluxogramas a autora consegue construir uma narrativa tão sólida quanto com a sua prosa incrível. No próprio capítulo, a mãe da menina narradora critica o hábito de diários em slides, mandando que a filha escreva, "o que são todos esses espaços em branco?" Pois nos espaços em branco cabem dramas inteiros, o não-falado sendo tão importante quanto o que é dito de forma explícita. O capítulo é chamado "As pausas do rock'n'roll", e acaba funcionando como uma própria pausa musical da história.

No último capítulo a autora nos presenteia com um esboço curto, que facilmente pode passar despercebido, de teoria sobre engenharia social ou social media no futuro - e, já que na metade dos anos 90 ela previu a era de reality shows e hiper exposição na Internet, acho que vale confiar nas sugestões sobre o nosso futuro.

O livro ainda nos oferece alguns socos no estômago e reflexões forçadas, intercalando um presente feliz por uma visão do futuro com vícios de drogas ou suicídio, a revelação dada em uma frase quase que descuidadamente colocada ou em um capítulo inteiro que desmembra o fracasso e a frustração, ainda mais dolorosos porque acompanhamos junto os sonhos dos personagens.

Porém, apesar de uma previsão de futuro que não é das melhores e do constante tapa na cara ao escancarar a verdade de que grande parte dos nossos sonhos não passam disso, essa experiência literária - muito mais que um livro! - termina otimista, deixando um gosto de ansiedade de que a vida é curta demais sim e há tanta coisa pra fazer. Por que não começar agora?

 
A VISITA CRUEL DO TEMPO, Jennifer Egan
Editora Intrínseca, 2012
Tradução: Fernanda Abreu
Páginas: 336
R$ 39,90

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