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Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle retomam encontro insinuado em 1961

Da Carta Capital, 30 de Junho, 2018
por Pedro Alexandre Sanches



Com 57 anos de atraso, os ex-parceiros dos anos 60 estreiam num disco quase em trio

Edu Lobo, Dori Caymmi e Marcos Valle: retomando aos 74 anos um encontro artístico que se insinuou pela primeira vez em 1961

Era um trio que nunca existiu, e continua a não existir. Em 1961, ainda garotos, os três se uniram pela primeira vez para cantar na televisão, no calor da ascensão da bossa nova.

O trio não prosperou, e os três cariocas Dori Caymmi (filho de baiano com mineira), Edu Lobo (filho de pernambucano) e Marcos Valle (filho de paraense) iniciaram histórias individuais num campo que o clichê convencionou chamar de uma “segunda dentição” da bossa nova inventada três anos antes pelo pianista Tom Jobim e pelo violonista João Gilberto.

O trio adiou-se por 57 anos, até a chegada, agora, de um primeiro volume Edu, Dori & Marcos. E, de fato, continua a não existir. No álbum quase sessentão, cada um dos três jovens senhores de 74 anos canta, sozinho, duas músicas de cada um dos outros (não-) parceiros.

A atual reaproximação pegou fogo num show e disco que Marcos Valle fez com a cantora estadunidense de jazz Stacey Kent, em 2013. Para uma das apresentações, ele chamou Edu e Dori para aparecerem como convidados.
“Stacey até ficou peixe fora d’água. Aí recomeçou essa ideia”, conta Dori, filho de Dorival Caymmi e autor de Saveiros (1966), O Mar É Meu Chão (1966) e O Cantador (1968). Houve química, e no próprio palco eles cochicharam uns com os outros: “A gente podia fazer um disco”. O disco existe.

O trio (ainda não) existe. Numa tarde de entrevistas na sede da gravadora Biscoito Fino, no Humaitá Verde do Rio de Janeiro, Edu é o elemento faltante. “Ele diz: ‘Eu não tenho que falar com imprensa, não sei o que dizer”, explica Marcos, compositor de Samba de Verão (1964), Preciso Aprender a Ser Só (1965), Os Grilos (1967) e Viola Enluarada (1968).

“É a posição dele, acha que tudo que ele fala não sai como imaginava, ou então que tudo o que ele tinha de dizer já disse.”

Embora tenda hoje à reclusão, Edu, filho do jornalista e compositor Fernando Lobo (dos sambas-canção Chuvas de Verão, Ninguém Me Ama e Preconceito), foi dos três o que mais se aproximou de um astro pop nos anos 1960, no contexto da chamada canção de protesto.

Enquanto o jovem Dori se dedicava a fazer arranjos e direções musicais para nomes emergentes como Nara Leão (inclusive o mitológico show Opinião, de 1964) e os futuros tropicalistas baianos (além dos dois ex-parceiros), Edu brilhava e vencia festivais da canção com Borandá (1964), Arrastão (1965) e Ponteio (1967). Com esta última, venceu Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso, a bordo dos versos melancólicos quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar.

Dori brinca com o amigo ausente e com o trabalho em comum na trilha do musical Arena Conta Zumbi (1966), de que foi diretor musical: “Se você falar hoje com Edu sobre Upa, Neguinho, ele manda te matar. Faz de conta que não fez. E é parte de uma peça muito importante com Gianfrancesco Guarnieri, o melhor musical que já vi”.

As diferenças entre os três acentuam-se e atenuam-se, na medida de alcançarem, quase 60 anos mais tarde, a beleza de promover um reencontro instantaneamente mitológico. “A ideia já existia, mas a gente nunca botou em prática. São três vidas completamente diferentes”, afirma Dori. Após o sucesso inicial, os três participaram da diáspora musical brasileira dos anos 1960, na revoada de artistas primeiro devido ao sucesso internacional da bossa nova, depois no bojo da repressão da ditadura civil-militar.

Marcos e Edu gravaram discos nos Estados Unidos ainda nos anos 1960, no rastro do sucesso internacional do colega de “segunda dentição” Sergio Mendes. Apesar de marcadamente nacionalista na filosofia musical, Dori viveu 27 anos na Califórnia, onde trabalhou com brasileiros e estadunidenses, de Sergio Mendes a Sarah Vaughan.

Marcos foi o que mais se adequou, na estreia discográfica (em 1963), aos princípios da bossa. Também, por contraste, é o que voou para mais longe dela. “Minhas influências começam lá com Dorival Caymmi e Luiz Gonzaga, depois música clássica, Ravel, Debussy.

Aí vem o rock, o jazz, o samba-canção, até chegar no pré-bossa, Johnny Alf. Mas quando vou gravar meu primeiro disco eu estou sob impacto fortíssimo da bossa nova.” Único dos três que não era filho de compositor, Marcos cresceu ouvindo Caymmi na vitrola do pai advogado, que se tornaria amigo próximo do inventor das canções praieiras.

Dori rejeita a vinculação umbilical com a bossa, chama o movimento de samba e pede socorro aos versos do pai em Samba da Minha Terra (1940) para se situar no mundo: “Não sou bossa nova de ninguém, nunca fui. Eu sou aquele cara que não gosta de samba, é ruim da cabeça e doente do pé. Fiz muito pouco samba na vida”.

No álbum do não trio, elege duas canções praieiras de Edu, Na Ilha de Lia, no Barco de Rosa (1989) e Dos Navegantes (1994), para desfiar a colcha que cobre o violão de Caymmi e o violão de João Gilberto.

“Sempre fiz um tipo de música que não chegava aos corações. As primeiras gravações eram sempre com a Nana”, encolhe-se o primogênito de Dorival, referindo-se à irmã cantora que foi vaiada no festival por Saveiros.

Embora assim o diga, nos anos 1970 Dori foi arranjador de música então muito popular, como as trilhas globais da novela Gabriela (1975) e da série infantil Sítio do Picapau Amarelo (1977 e 1979). De Gabriela Marcos Valle recolheu a à época popularíssima Alegre Menina, melodia de Dori em palavras de Jorge Amado.

Dori diz que tampouco faz MPB. “Quando o cara fala MPB me sinto ofendido. Esse popular aí está fora de cogitação. Tom Jobim e Dorival Caymmi é música brasileira. Zezé di Camargo & Luciano é música popular brasileira. Quando se fala em sofrência, nesse material que a Som Livre (gravadora da Globo) está lançando hoje, é música popular brasileira.”

Marcos discorda com a mansidão do zen-surfista que nos anos 1980 compôs os hinos de academia de ginástica Estrelar (1983) e Bicicleta (1984): “Gosto muito de hit. Gosto de música, mas gosto de hit, e uma das coisas que me traziam isso era o pai do Dori”. E cantarola a melodia irresistível de Caymmi em 365 Igrejas (1946), desfiando os retalhos que cobrem um oceano em canção praieira e em surf rock.

De Marcos, Dori escolheu gravar o Bloco do Eu Sozinho (1968). Marcos e Edu trocaram, entre si, as líricas O Amor É Chama e Canto Triste, ambas de 1966. De Dori, Edu canta Velho Piano (1982). Cada um dos três se parece um pouco com os outros dois nas características que oculta. Edu não está aqui para cantarolar. Pode ser que haja um show de lançamento do CD, e aí então o trio será, talvez, irreversível.

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