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'É preciso tomar uma posição moral contra o apartheid israelense'

Entrevista | Noura Erakat


Da Carta Capital, 10 de Junho, 2018
por Lu Sudré

Mahmud Hams/AFP

Segundo advogada de direitos humanos palestino-americana, embaixada em Jerusalém e massacres consolidam política externa dos EUA

'Objetivos dos protestos na Palestina são os mesmos de quase 100 anos atrás: o posicionando contra a remoção forçada de sua própria terra'

A inauguração da embaixada norte-americana em Jerusalém, em 14 de maio, dia da comemoração dos 70 anos do Estado de Israel, desencadeou protestos de milhares de palestinos que foram fortemente reprimidos na Faixa de Gaza.

De acordo com o Ministério da Saúde da Palestina, 59 palestinos foram mortos pelo Exército israelense e mais de 2.700 ficaram feridos. Entre os mortos, pelo menos oito crianças, incluindo um bebê de oito meses que não resistiu à intoxicação causada pela inalação do gás das bombas atiradas contra os manifestantes.

Desde o massacre de 14 de maio, Gaza continua em clima tenso. Nesta sexta-feira 8, o exército israelense matou mais três palestinos. Desde o fim de março, o número de mortos na região chega a 128.

Até um jogo de futebol se tornou uma disputa diplomática. A Argentina decidiu cancelar uma partida que faria contra Israel em Jerusalém em razão de protestos de palestinos.

Os quatro últimos presidentes dos Estados Unidos haviam adiado a discussão sobre a decisão tomada por Donald Trump, de transferir a embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém.

A repressão do Exército israelense foi condenada pela Organização das Nações Unidas (ONU). No dia seguinte à ofensiva de Israel, Reino Unido, Alemanha, Bélgica e Suíça expressaram apoio à ideia de uma investigação independente proposta pelo secretário-geral da ONU, Antonio Guterres.

As mortes aconteceram na véspera da data conhecida como al-Nakba, que significa "A catástrofe" em árabe, e que marca o início do processo de expulsão de palestinos de suas terras após a criação do Estado de Israel, em 15 de maio de 1948.

Em entrevista a CartaCapital, a palestina-americana Noura Erakat, advogada de direitos humanos e ativista do movimento BDS, que defende boicotes e sanções a Israel, analisa os fatos que ocorreram na Faixa de Gaza em 14 de maio, assim como os efeitos das políticas externas dos Estados Unidos, a atuação do Estado de Israel e as manifestações do povo palestino.

CartaCapital: Os palestinos estão protestando na fronteira de Gaza desde o dia 30 de março. Até o momento, foram mais de dois mil feridos e mais de 100 palestinos mortos. Quais são os objetivos desses protestos?
Noura Erakat: Os objetivos dos protestos na Palestina são os mesmos de quase 100 anos atrás. Os palestinos estão se posicionando contra a remoção forçada de sua própria terra. Eles são considerados subordinados, pessoas não gratas, cidadãos de segunda classe, são prisioneiros da Faixa de Gaza. Desde o dia 30, eles estão deixando bem claro que querem o direito de retornar e permanecer na Palestina. É a continuidade da Nakba.

CC: O que é a Nakba, mais precisamente?
NE: A tradução de Nakba significa “catástrofe” e se refere a primeira remoção de 80% da população Palestina do território que se tornaria Israel, em 1948, e um subsequente e contínuo exílio forçado. Israel não permite o retorno dos refugiados palestinos para suas casas com a finalidade de manter uma maioria demográfica judaica. Para isso o povo palestino foi expulso.

Mas a Nakba não acabou em 1948, ela continuou. Israel quer assegurar uma incontestável soberania, mas a presença dos palestinos destrói essa política. Por isso eles continuam com remoções, desapropriações e prisões de palestinos até hoje, mesmo em Israel.

CC: Qual o significado simbólico e político dessas mortes na véspera da Nakba?
NE: Não há nenhum significado simbólico. É morte. É assassinato. É um massacre. É uma mancha atroz na humanidade, na consciência humana, no mundo. É real, o que os palestinos sentem é dor e essa dor continua em progresso. É um sofrimento tremendo que tira dos palestinos o mínimo dos direitos humanos básicos e sua liberdade.

CC: Em termos históricos e políticos, o que realmente significa a mudança da baixada americana para Jerusalém?
NE: Todos estão irritados com a mudança da embaixada norte-americana para Jerusalém, principalmente porque foi Trump quem a autorizou. Mas o que devemos lembrar é que Trump está consolidando cinco décadas da política externa americana. O que ele fez foi remover o pano que acobertava o Império. É muito óbvio o que os Estados Unidos estão fazendo. Todos querem ficar bravos com o Trump, mas o problema permanece.

Cerca de 47% da base de Hillary Clinton também apoia Israel sem questionar. É exatamente por isso que não devemos entrar na ilusão de que Trump é o problema. A política externa dos Estados Unidos é e sempre foi o problema, ao fomentar as relações diplomáticas, financeiras e militares com Israel. São essas ações que fornecem a cobertura para a expansão de várias invasões e defendem o regime do apartheid israelense.

A política dos Estados Unidos tem sido a mesma desde 1967, quando Lyndon B Johnson tomou decisões que aproximaram muito o governo americano de Israel, no contexto da Guerra dos Seis Dias, mas a administração americana tem dois discursos.

De um lado, eles dizem que o que Israel faz é contra a política internacional, mas pelo outro, são eles que fornecem total cobertura para que Israel se expanda, fortaleça seus assentamentos e empreendimentos em território palestino. Os Estados Unidos são a fonte do financiamento militar e diplomático necessários para a perpetuação do apartheid. O problema não é Trump, é os Estados Unidos.

59 palestinos - pelo menos 8 crianças - foram mortos pelo Exército israelense e mais de 2.700 ficaram feridos (Mahmud Hams/AFP)

CC: O discurso de paz caiu por terra com essa decisão?
NE: Trump só deixou óbvio, o que é uma boa coisa para todos aqueles que não sabiam. Nunca houve um discurso de paz. A solução de manter os dois estados foi morta assim que proposta. Isso ficou muito claro quando Israel começou a assassinar palestinos publicamente, durante a segunda Intifada palestina em 2000.

Então, não houve um processo de paz, o que aconteceu foram negociações que faziam parte dessa cobertura para as ações de Israel, para incapacitar o movimento palestino e suas lideranças. Trump deixou bem claro que ele apoia o massacre do povo palestino, não apoia o mínimo de investigação. Eles dão suporte a Israel, não importa o que eles façam.

Os Estados Unidos não são observadores, são parte do problema, são o terceiro elemento. É preciso deixar claro que nós (norte-americanos) estamos do lado errado da história e somos parte do problema.

CC: O que permite que os Estados Unidos ajam dessa forma, contrariando um consenso internacional histórico ao mudar sua embaixada para Jerusalém?
NE: O que acontece em Gaza é contra a lei de diversas maneiras, mas esqueça as leis. Eles não se importam com elas. O que permite que eles façam isso são os mesmos princípios que estão dirigindo a administração de Trump: é direcionar o mundo e justificar uma supremacia racial e religiosa.

É o que estão fazendo aqui nos Estados Unidos, e, com certeza, fazendo em Israel. O governo americano está respondendo a uma base americana sionista que não se importa em combater discursos anti-judaicos, mas sim em apoiar Israel. A administração de Trump está cheia de brancos supremacistas que também não acreditam na liberdade judaica.

Os judeus americanos que se importam com a proteção de outros judeus deveriam se opor a Trump, a essas políticas em direção ao Oriente Médio e ainda se posicionarem contra os apoiadores do presidente, incluindo Sheldon Adelson, um bilionário que deu suporte a campanha de Trump e que claramente é pró-Israel. A questão é sobre concretizar a presença de Israel, não sobre proteger judeus e fazer suas vidas melhores.

CC: O dia 14 de maio foi o mais mortal na Faixa de Gaza desde 2014. O conflito se intensificará ainda mais? Qual a perspectiva?
NE: Mesmo que esse tenha sido o dia mais mortal dos últimos anos, é preciso ressaltar que palestinos morrem todos os dias, sem nenhum motivo minimamente justificável. Isso está acontecendo há décadas. Mesmo que não haja mortes que aparecem na TV ou na internet, existem palestinos morrendo, mas as câmeras e jornalistas não estão observando. É uma catástrofe contínua.

CC: Acredita que os palestinos continuarão protestando?

NE: Eles vão precisar de força e energia para seguir em frente e continuar dizendo que eles não merecem ser alvejados. Depende de muita coisa. Nós faremos mais atos nos Estados Unidos, no Canadá, no Brasil, no Marrocos, na África do Sul?

Precisamos saber que isso não é organizado, são palestinos lutando por liberdade. Todos os dias eles fazem atos, só precisamos olhar para eles. Olhar para Nabi Saleh, para Jerusalém, para Imr El Iran, para Al-Sheja’eyah. Existem palestinos protestando todos os dias, mesmo quando eles não estão sendo tão massacrados com a extrema violência dos últimos acontecimentos.

CC: Representantes do Netanyahu e do governo americano fizeram declarações nas quais afirmaram que a responsabilidade das mortes da última semana na Faixa de Gaza eram do Hamas…

NE: Esse é um argumento racista! Eles culpam as vítimas pelo que Israel está fazendo. Eles são agressivos, usam a força e tem o controle sobre ela. Não houve nenhuma ameaça para civis, instalações militares ou soldados israelenses.

Dizer que a culpa é do Hamas é basicamente afirmar que todos os palestinos não são humanos, que não lutam por liberdade e que merecem ser culpados por suas próprias mortes. O que o Hamas fez? Faça essa pergunta para eles. O que eles fizeram nesse instante que demandaram qualquer tipo de resposta letal para assassinar palestinos em sua própria terra?

CC: Frequentemente circulam nas redes sociais imagens de palestinos apenas jogando pedras, até mesmo crianças, o que mostra que a resposta do exército israelense é desproporcional.
É óbvio. Qualquer um que tenha olhos e um coração e vê as imagens das crianças palestinas jogando pedras sabe disso.

CC: Como avalia a atuação da ONU? A comunidade internacional fará alguma coisa ou é só um discurso?
A comunidade internacional quer fazer alguma coisa, mas não pode. Enquanto continuar a sucumbir à pressão dos Estados Unidos, não poderá fazer absolutamente nada. O governo americano já sinalizou que quer impedir qualquer tentativa de investigação internacional.

A ONU ou o Conselho de Direitos Humanos provavelmente vão iniciar uma investigação, mas mesmo que consigam, no ponto em que estamos, o problema não é esse. O real problema é o cultivo de políticas que assegurem a postura de Israel.

CC: Mas como colocar isso em prática?
NE: A comunidade internacional pode fazer muita coisa. Começando pela remoção de seus embaixadores de Israel, pela imposição de sanções, por meio do desinvestimento. Essa não é a primeira vez que nós vimos um “Rogue State” (expressão utilizada para se referir a um ‘Estado vilão’) fazer o que quer.

Tomamos ações contra a maioria dos estados que agiram dessa forma, inclusive durante o Apartheid na África do Sul. Nós nos posicionamos quando Slobodan Milosevic quis continuar a fazer atrocidades ao longo de toda antiga Iugoslávia. Tomamos posicionamentos morais contra os massacres e genocídio em Ruanda. Porque paramos na porta de Israel? Não há motivos para parar aqui. Temos as ferramentas necessárias, o que falta são políticas bem intencionadas.

CC: E em relação ao movimento BDS. É preciso um fortalecimento?
NE: Estamos fazendo o que podemos. O movimento BDS não é centralizado, é internacional. Você pode se juntar a ele nesse exato momento. Qualquer um pode ser o BDS. É um movimento que existe pelo mundo todo, por pessoas que estão fazendo algo com suas próprias mãos, tomando lados. É possível escolher. Porque não fazer uma campanha no Brasil? Eu os encorajo a isso.

CC: Mas como colocar isso em prática?
NE: Liberdade. Nós realmente podemos fazer isso tomando uma posição moral e política contra o Apartheid israelense, expor essa situação. Participar do movimento BDS, aprovar legislações nos governos para interromper a venda e compra de armas com Israel. Participar e ser parte dessa mudança.

CC: A solução passa por um estado binacional, como defendem alguns estudiosos?
NE: O Estado binacional é uma das muitas soluções. O ponto aqui é restringir a força de Israel e interromper o genocídio.

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