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Brasilianas: Qual Estado o Brasil precisa para os desafios da Indústria 4.0?

Do GGN, 18 de Junho, 2018


Trajetória aponta que setor produtivo ganha ou perde musculatura dependendo do modelo político, destaca Antonio Corrêa de Lacerda


Fonte: Facebook Reprodução

Jornal GGN – Historicamente, o Estado teve um papel fundamental tanto no processo de industrialização quanto no processo enfraquecimento da manufatura do Brasil, com impactos diretos no desenvolvimento econômico do país e isso não seria diferente hoje. Em um momento em que a principal discussão mundial no setor é a Indústria 4.0, com empresas colocando as tecnologias da informação e comunicação (TIC) no centro dos processos de produção, o país enfrenta a estagnação do parque produtivo em decorrência de modelos políticos que não apoiaram a produção nacional. O destaque foi dado pelo professor Antonio Corrêa de Lacerda, diretor da Faculdade de Economia da PUC de São Paulo, conselheiro e ex-presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), durante o “Fórum Brasilianas Desenvolvimento Produtivo e a 4ª Revolução Industrial”, realizado na PUC São Paulo com a parceria da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior no Brasil).

“O Brasil não precisa de menos Estado, ao contrário do senso comum, precisa de mais Estado qualificado”, ponderou após fazer um breve histórico do processo industrial brasileiro. Há cerca de cem anos, no início do Século 20, o país tinha uma economia basicamente agroexportadora, centrada no café como principal componente de produção e exportação. A crise de 1929 derrubou os preços e a demanda pelo café no mundo, obrigando o Brasil a buscar alternativas. No período que se segue, o Estado, então sob a gestão de Getúlio Vargas, teve papel crucial na implantação e consolidação das indústrias petroquímica, siderúrgica e infraestrutura energética.

“O Estado atuou, primeiro, como agente econômico ao constituir a indústria de base e, depois, como articulador de um processo que costumamos chamar de substituição de importações”, explicou Lacerda, completando que houve participação de empresas privadas e internacionais, beneficiadas pelos acordos de Bretton Woods, uma articulação entre países aliados aos Estados Unidos e que estabeleceu as bases da chamada ordem econômica internacional dando início aos 30 anos de ouro do capitalismo mundial.


No período seguinte, de 1946 a 1979, o Brasil experimentou a maior taxa de crescimento médio da história do seu Produto Interno Bruto (PIB), cerca de 7% ao ano, pavimentado pela diversificação da sua economia, isso explica como o Brasil se tornou uma entre as dez maiores economias do mundo e porque, nos anos 1950, a cidade de São Paulo era a que mais crescia entre todas as metrópoles.



O cenário muda drasticamente nos anos 1980, quando o país sofre as consequências da alta abrupta do petróleo (iniciada ainda nos anos 1970) e da elevação brutal das taxas de juros internacionais de 6% para 21% ao ano. “Para o Brasil, que já devia 100 bilhões de dólares, isso representou um ônus significativo”, pontuou Lacerda. Assim, a década de 1980 ficou conhecida como a década perdida em termos de desenvolvimento.

A resposta para essa última crise, dos anos 80, foi uma guinada neoliberal na década seguinte, não só no Brasil, mas em boa parte das nações. "A visão neoliberal tinha como um dos seus principais componentes reduzir ou minimizar o papel do Estado, como um empecilho ao desenvolvimento".

Nos anos 1990, os governos Fernando Collor (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) alimentam que o Estado eficiente é o Estado reduzido, privatizando uma série de empresas públicas, inclusive em setores estratégicos como o de energia, embasados no pensamento neoliberal. O problema, explicou Lacerda, não foram as privatizações em si, mas a forma como foram conduzidas “apressadamente, com uma abertura comercial e financeira mal planejada e desregulamentação de mercados” atingindo, inclusive, o setor produtivo privado nacional.

O Estado brasileiro só retoma sua função como indutor do setor produtivo em 2003, nos governos Lula, quando ocorre a “recuperação parcial da capacidade de investir do setor público com uma ênfase maior no papel da política industrial e também na política social”.

Nesse momento, assim como ocorreu nas décadas de 40 e 50, o Brasil foi beneficiado por um cenário internacional benigno, "dessa vez pela emergência da China, cuja a demanda elevou os preços das commodities exportáveis pelo Brasil", destacou o economista. Infelizmente as políticas públicas pró-setor produtivo não foram fortes o suficiente a tempo de ampliar o parque industrial brasileiro, assim como a sua competitividade, para tornar o país independente do setor agropecuário, que continuo sendo o carro-chefe da balança comercial. Por conta disso, continuamos suscetíveis aos humores do mercado internacional e quando a China iniciou seu processo de desaceleração do crescimento, por volta de 2011, a queda no preço das commodities abalou o crescimento no país.

Lacerda também apontou erros estratégicos na condução da política macroeconômica, incluindo nos últimos anos do governo Dilma Rousseff com a ascensão de medidas neoliberais postas em prática na gestão Joaquim Levy na Fazenda (sobretudo com a adoção de uma política de juros altos). O desgaste econômico colaborou com o desgaste político levando ao golpe parlamentar de maio de 2016 que afastou Dilma do poder.

As políticas econômicas que se seguem, já no governo Michel Temer, são ainda mais trágicas aprofundando o estado de crise no Brasil. "A pá de cal no processo de desenvolvimento ocorre em 2016, com a aprovação da Emenda Constitucional 55 / 241, a chamada PEC do Teto. Com ela, o governo congelou por 20 anos os gastos públicos, com base no ano de 2016, para impedir a expansão dos gastos. O problema é que foi sem discriminar quais gastos são esses e, lá dentro, estão os investimentos". Com isso, continuou Lacerda, o país eliminou planos de expansão de infraestrutura e investimentos em políticas sociais importantes.

"Pelo lado do Estado, como indutor do processo, criou-se uma restrição permanente, quase que se auto-impondo uma incapacidade de utilização de políticas anticíclicas [para enfrentar crises financeiras] e movimentar determinados setores", completou o economista.

A respeito da taxa de juros, houve realmente uma forte redução nos últimos dois anos de 14% para 6,5% ao ano, entretanto, pontou Lacerda, os juros para o tomador final não caíram e, em alguns casos, até aumentaram levando ao descasamento entre a necessidade de financiamento do setor privado e setor público das fontes financiadoras uma vez que o setor público foi amarrado pela emenda do Teto dos Gastos e o setor privado não teve mais condições de voltar a investir pelo elevado custo financeiro de capitar empréstimos (quadro que explica o elevado nível de desemprego).

Com a maior taxa de juros real do mundo para aplicações financeiras, cria-se no país um convite ao rentismo. Em outras palavras, resume Lacerda, vale mais a pena fazer aplicações financeiras do que criar empreendimentos no Brasil. Isso explica porque, desde 2009, a indústria brasileira está estagnada.

Ainda assim, o consumo das famílias (como mostra o quadro abaixo) continua crescendo, dobrando entre 2004 a 2013. A demanda, entretanto, foi respondida por produtos importados em setores que a industria nacional poderia ter suprido, se não fosse mais lucrativo no Brasil partir para o rentismo do que aumentar a capacidade industrial.



"Várias empresas que eram industrias passaram para o outro lado se tornando importadoras", destacou Lacerda mostrando que o setor produtivo no país apresenta capacidade ociosa superior a 40%, em alguns nichos superando os 60%.

Lacerda concluiu que os problemas "conjunturais e estruturais" do setor produtivo brasileiro são o desemprego, queda na renda média dos trabalhadores, incapacidade de investimento e aumento da vulnerabilidade externa dos produtos produzidos pelo país.

"É imprescindível o papel do Estado, seja na forma mais direta, como indutor dos processos em áreas estratégicas, ou como operador, em outras áreas com marcos regulatórios e um conjunto de medidas que protejam a sociedade do monopólio privado", lamentando que não há suficiente autocrítica, entre economistas e imprensa, sobre os erros cometidos nas políticas neoliberais.

Indústria 4.0 e posição do Brasil

Os países que emergem como pioneiros na “Indústria 4.0” ou “quarta revolução industrial” são Cingapura, Finlândia, Suécia, Noruega, Estados Unidos e Alemanha, segundo relatório do Fórum Econômico Mundial, divulgado em 2016. Diferente de tudo o que aconteceu na história da manufatura, a revolução atual permite, através da computação em nuvem e dos chamados sistemas ciber-físicos, a execução de fábricas mais eficientes.

Outra pesquisa mais recente, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em 2017, aponta que o Brasil está muito atrás de outros países e que, em uma década, a indústria 4.0 deverá chegar a 21,8% das empresas brasileiras. Hoje apenas 1,6% das indústrias nacionais está dentro do espectro da quarta revolução industrial.

Mas o que mais preocupa o cenário no Brasil é o processo de desindustrialização. Em 2006, o relatório da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) já apontava para esse diagnóstico concluindo que o desmonte industrial brasileiro era “precoce”. A participação da indústria de transformação no PIB despencou mais de 10 pontos percentuais em 30 anos, passando de 21,6% em 1985 para 11,8% no ano passado, segundo o IBGE, alcançando índices registrados em 1947.

Para acessar todas as palestras do “Fórum Brasilianas Desenvolvimento Produtivo e a 4ª Revolução Industrial”, realizado na PUC São Paulo com a parceria da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior no Brasil), acesse: https://goo.gl/VAaSYA

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